Julgamento do Mensalão tem cobertura tendenciosa

Desde que teve início, o julgamento da Ação Penal 470, popularmente conhecida como Mensalão, é o principal assunto da cobertura política dos grandes veículos de comunicação brasileiros. A farta cobertura, que conta com chamadas ao vivo de diferentes emissoras de TV, cadernos especiais em jornais e dezenas de reportagens diárias nos grandes portais, é questionada por jornalistas que apontam falta de isenção no trabalho.

Celso Schröder, presidente, Fenaj, Foto: Eduarda Alcaraz
Celso Schröder acredita que imprensa nacional está confundindo informação com opinião
O presidente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), Celso Schröder vê distorções na maneira como o caso é tratado. “Há uma descaracterização do Mensalão. Roberto Jefferson (PTB) que, em 2005, denunciou o esquema, é um dos principais réus, mas é tratado de maneira diferente, como pivô. E o que mais surpreende: ele se tornou um exemplo ético para a mídia brasileira”, ilustra.

Schröder vê um desejo da mídia brasileira em sugerir a condenação de determinados réus mesmo que não haja provas. “Alguns, como o Zé Dirceu, têm uma verdadeira torcida pela condenação. Muitas vezes, os dados são insuficientes para que isso ocorra. Nessas situações, o jornalismo comete um pecado que não é novo, pois se reduz somente à opinião”, afirma. Para ele, muitas vezes, as notícias relacionadas ao tema estão baseadas em dossiês e visões parciais e tendenciosas, o que também não está sendo levado em conta. “Tem que contrapor as informações. As fontes têm tendência a mentir. O contraponto é uma regra no jornalismo”, relembra.

O presidente da Fenaj acredita que se o principal partido envolvido fosse outro, e não o PT, a cobertura seria consideravelmente diferente. “No Mensalão do DEM e em escândalos que envolvem a direita brasileira, o destaque é muito menor. A mídia deveria fazer a análise que buscasse compreender esse fenômeno como uma constante da política brasileira na atualidade e ajudar a mudar essa triste realidade”, sugere.

Schröder traça um paralelo com os países onde os veículos de comunicação tradicionalmente tomam partido em questões como essa, mas faz uma ressalva: “Mesmo nesses locais, o conteúdo não é editorial”, recorda.

Em entrevista concedida ao programa Roda Viva, no dia 6 de agosto, o jornalista Jânio de Freitas, colunista da Folha de São Paulo, foi mais um a revelar seu descontentamento em relação ao papel que a mídia exerce. “A pressão feita em favor da condenação retira dos jornais toda autoridade moral para fazer uma avaliação justa, correta e realmente imparcial do que acontece no julgamento do Mensalão”, declarou.

Jânio sustenta que a imprensa brasileira tenta parecer isenta, mas, de maneira sutil e subliminar, acaba tomando partido. “O comportamento que antecedeu ao julgamento foi de tomada de posição sem admitir ‘estamos tomando uma posição, queremos a condenação de fulano, beltrano e sicrano, ou de todos’. Não, é aquela coisa enviesada. Isso é inadmissível”, reclamou.

Confira a participação de Jânio de Freitas no programa Roda Viva

Estudioso das áreas de ética jornalística e crítica da mídia, Rogério Christofoletti, professor do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), classifica de burocrática a cobertura do julgamento do Mensalão. “Como público, eu sinto falta de mais análise, de mais interpretação, de esforços para aproximar o caso da realidade dos cidadãos comuns”, avalia.

Para Christofoletti, seria mais digno se os veículos de comunicação tornassem clara e pública sua opinião em relação ao fato. “Seria mais honesto, mas não faz parte da tradição brasileira. Ainda são raros os casos em que há um posicionamento da mídia e imprensa quando há disputas ideológicas. Nas eleições nacionais, às vezes, um veículo ou outro se manifesta. Mas afora isso, quase nunca”, releva. Ele aponta os responsáveis: “O empresariado brasileiro de mídia é muito conservador, caduco”.

A presidência da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) foi contatada para se manifestar sobre as críticas, mas assessores justificaram dificuldade no agendamento de entrevista devido à escolha da nova diretoria da entidade que ocorreu em congresso realizado, em São Paulo, e encerrado em 22 de agosto.

Texto: Caio Venâncio (2º semestre)
Foto: Eduarda Alcaraz (8º semestre)

2 comentários

  • Rasputin
    17:06

    Tendencioso é um texto onde a principal fonte é um professor da mesma instituição que elaborou a notícia. Ou não?

    • igor
      17:22

      O jornalista Celso Schröder foi entrevistado por ser o Presidente da Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ).
      Obrigado pela participação.

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