Levantamento do Editorial J mostra que manifestantes pró e contra impeachment têm opiniões diferentes, mas perfis semelhantes

  • Por: Bibiana Garcez (5º semestre) e Sofia Lungui (1º semestre) | 22/04/2016 | 0

Nos atos a favor e contra o impeachment de domingo, 17 de abril, o perfil dos manifestantes é similar: homens e mulheres brancos, com média de idade de 37 e 39 anos, respectivamente (sendo a faixa etária dos 20 aos 29 anos a mais comum), universitários, de classe média. A diferença encontra-se na distribuição da renda: mais concentrada na classe C nos protestos contra o impeachment e mais distribuídas entre as classes B, C e D na pró-impeachment. Ainda assim, a diferença neste ponto não era gritante.

A reportagem do Editorial J e voluntários acompanharam ambas as manifestações na Capital, no parque Moinhos de Vento e na Praça da Matriz. Foram aplicados, durante a cobertura, questionários para traçar o perfil dos manifestantes. Confira a seguir os resultados completos da pesquisa.

Tópicos da pesquisa

Perfil
Confiança em instituições
Movimentos sociais
Imprensa
Concordância ao impedimento e afirmações

Perfil

De acordo com a pesquisa do Editorial J, não há uma discrepância de gêneros em nenhuma das manifestações. O ato no Parcão, a favor do impeachment, contava com público 47,9% feminino e a praça da Matriz, contra, com público 53,4% feminino. A maioria dos entrevistados consideraram-se brancos. Na manifestação do Moinhos de Vento, 9,2% consideraram-se de cor preta e 9,9%, parda. Na Praça da Matriz, 1,1% se consideraram amarelos, 6% pretos e 13,7% pardos. A faixa etária mais presente nos atos é a que se encontra entre 20 e 29 anos. A média de idade dos manifestantes seria de 37 e 39 na Matriz e no Parcão, respectivamente. Quanto à renda, a discrepância dentro de cada um dos grupos era grande. Ainda assim, a classe C marcou maior presença em ambos os locais. Na manifestação contra o impeachment, os que tinham renda familiar entre quatro e dez salários mínimos (de R$3.520 a R$8.880) somavam 32,6%. No Parcão, eram 26,1%, enquanto 2,1% informaram renda familiar acima de cinquenta salários mínimos e 3,5% não declararam renda.

Os dois grupos apresentavam uma grande proporção de diplomados no ensino superior: eram, na Matriz, 52,7% graduados e 28,8% pós-graduados. No Parcão, 55,6% tinham ensino superior e 21,1% pós-graduação. Estes dados refletem uma opinião recorrente: as elites intelectuais são super-representadas em manifestações políticas. De acordo com levantamento da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 12,7% dos brasileiros entre 25 e 34 anos e 11,6% dos brasileiros entre 25 e 64 anos atingiram o nível universitário em 2011. É o pior índice entre os 35 países pesquisados pela organização.

Confiança nas instituições

A descrença com a maioria das instituições, especialmente políticas, é mais visível no grupo de manifestação pró-impeachment. Enquanto a maioria do Parcão não confia em partidos (66,9%), 71,3% do público da praça da Matriz confia pouco – mas confia. No Parcão, apenas 2,1% confia muito. Na Matriz, são 8,8%.

O Partido dos Trabalhadores é divergência entre os diferentes grupos. É o partido com maior índice de confiança dos que são contra o impeachment de Dilma Rousseff: 37,9% deles confia muito no PT. Ao mesmo tempo, é o partido em que menos se confia no Parcão: 83,3% dos pró-impeachment não confia no partido. Depois do PT, os partidos em que menos se confia no Parcão são o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Curiosamente, o partido com maior índice de confiança nesse mesmo lugar é o PSOL, no qual 4,9% dos manifestantes confia muito.

O grupo da Praça da Matriz mostra descrença no Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), no qual 95% dos manifestantes não confia, no Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), no qual 93,9% não confia, e no Partido Progressista (PP), no qual 93,3% não confia. No Parcão, 69% dos manifestantes também não confia no PP.

Em relação aos políticos, o panorama dos partidos se repete. Enquanto 54,6% dos manifestantes do Parcão não confiam em políticos, na Matriz a maioria confia pouco: são 72,2% que pensam assim. A esquerda tende a ter índices de confiança mais altos, de 60 a 80%, enquanto a direita apresenta taxa muito mais baixa. O mesmo padrão foi verificado no que se refere a analistas políticos de esquerda e direita.

O senador Aécio Neves (PSDB) costumava ser ovacionado em atos mais alinhados à direita, contra a presidenta. Contudo, na manifestação pró-impeachment na Avenida Paulista do dia 13 de março, Aécio foi vaiado. Ele também foi citado na delação premiada de Delcídio do Amaral e deve ser investigado formalmente pela Lava-Jato. Percebe-se nos números o fenômeno de diminuição da popularidade do candidato de oposição nas eleições de 2014. Apesar de 30,3% dos manifestantes do Parcão ainda confiarem pouco nele, 66,9% afirmaram não confiar em Aécio. Na Matriz, 98,9% não confiam no neto de Tancredo.

A também senadora Ana Amélia Lemos (PP) divide opiniões. No ato a favor do impeachment, 45,8% não confiam na parlamentar, enquanto 32,4% confiam pouco e 19% confiam muito. No protesto contra a cassação do mandato da presidenta, 89% não confiam em Ana Amélia. Apenas 2,2% confiam muito. A senadora era uma das opções para o cargo de relator do processo de impeachment no Senado.

Olívio Dutra (PT) também divide os manifestantes. Uma parcela significativa dos presentes no Parcão, alinhados ao antipetismo, confiam no político: 17,6% confiam pouco e 15,5% confiam muito. Na Matriz, a popularidade de Olívio é mais clara: são 81,8% que confiam muito no ex-governador. (Confira aqui uma entrevista de Olívio Dutra concedida ao Editorial J.)

O político no qual mais se confia no Parcão é o deputado federal Jair Messias Bolsonaro (PSC): 21,8% afirmaram confiar muito nele, que votou sim para o impeachment de Dilma Rousseff e teve o voto, dedicado ao torturador do regime militar Brilhante Ustra, comemorado pelos participantes do ato, quando foi veiculado no telão.

Dilma Rousseff, motivo central das manifestações, tem índices de confiança já esperados. O grupo da Praça da Matriz confia na presidenta: 30% confiam pouco e 63,3% confiam muito. Já 83% do grupo do Parcão não confia na petista.

Movimentos sociais

No Parcão, 36,9% não confiavam nos movimentos sociais como instituição. Da Matriz, ninguém afirmou não confiar e 79,6% confiavam muito. A grande maioria dos entrevistados, no geral, apresentava desconhecimento em relação aos movimentos sociais citados na pesquisa. O único com baixos índices de “não sabe/não respondeu” foi o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Enquanto 74% dos manifestantes da Matriz confiam muito na organização, 79,6% do Parcão não confia. Muitos dos entrevistados verbalizaram comentários rechaçando o movimento durante a aplicação dos questionários.

O Movimento Brasil Livre não tem uma imagem tão consolidada junto dos manifestantes pró-impeachment: 16,2% não soube responder ou não respondeu sobre sua confiança no MBL. Além disso, 24,6% dos entrevistados do Parcão disseram não confiar no grupo. Estes são 64,1% da manifestação da Matriz.

Imprensa

Em relação à mídia, o grupo contra o impeachment é mais crítico — 76,2% deles não confiavam na imprensa. Entre os manifestantes pró-impeachment, a confiança é mais alta, mas ainda revela uma relação problemática: 54,2% confiavam pouco na mídia. O Jornal Nacional, da Rede Globo, sempre muito criticado pela esquerda, não tem a confiança de 24,6% da direita, mas 54,2% confiavam pouco no telejornal.

O Jornal Nacional, a Veja e os dois jornais do grupo RBS Zero Hora e Diário Gaúcho são os programas e veículos em que os manifestantes contra o impeachment menos confiam. 94,5% não confiavam na Veja e apenas 0,5% confiavam na revista. Esta mesma publicação também carece da confiança de 23,2% do grupo pró-impeachment, mas 29,6% confiam muito no semanário. O grupo do Parcão também confia muito no Jornal da Band e na Rádio Gaúcha, principalmente. O veículo em que menos confiam é a Carta Capital — 31,9% deles não confia na publicação cuja linha editorial, ao contrário da Veja, se posiciona à esquerda.

Quanto a comentaristas de política, os que mais têm destaque entre os presentes no ato da praça da Matriz são Gregório Duvivier, Juremir Machado da Silva e Luís Fernando Veríssimo, com 53,3%, 48,1% e 68,1% de respostas “confia muito”, respectivamente. David Coimbra tem 80,3% de “reprovação” (desconfiança) na Praça da Matriz. No Parcão, os comentaristas com maior índice de confiança são David Coimbra, com 33,8% de “confio muito”, e Diego Casagrande, com 36%. Paulo Henrique Amorim é o que tem menos confiança — 39,6% não confiam nele.

Concordância ao impedimento

51,8% dos entrevistados do Parcão acreditam que o impeachment da presidenta Dilma Rousseff fará com que a corrupção diminua. Ao mesmo tempo, na praça da Matriz, apenas 1,1% do público concorda com a frase. Isso mostra uma centralização da culpa dos problemas do país em uma única figura: a presidenta. Pouco fala-se do presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha nos protestos a favor do impeachment, denunciado repetidamente por corrupção. Esse mesmo deputado, contudo, recebe críticas repetidamente nos atos mais à esquerda.

Ao mesmo tempo em que se demoniza a imagem de Dilma, cria-se um heroísmo acerca do juiz Sérgio Moro. Durante o ato, era possível comprar bonecos infláveis do jurista vestido de super-herói, o “Super Moro”.

Políticas afirmativas são desprezadas pela grande maioria do grupo de manifestantes do Parcão. Enquanto na Praça da Matriz apenas 6,5% veem as cotas raciais como geradoras de racismo, 69,3% manifestou essa opinião na manifestação pró-impeachment. Outra diferença gritante envolve o Bolsa-Família. 58,3% do grupo do Parcão acredita que o programa “financiaria preguiçosos”. Na Matriz, nenhum entrevistado concordou com a afirmação.

Todos os entrevistados na Matriz discordaram que a volta da ditadura militar seja a solução para o país. No Parcão, 18,6% dos manifestantes concordam que seria a solução, 10% não soube responder e os demais discordam.

Sobre a pesquisa

Os questionários foram aplicados ao longo de toda a tarde de domingo, dia 17 de abril, na Praça da Matriz e no Parque Moinhos de Vento, em Porto Alegre. As perguntas foram inspiradas na pesquisa realizada pelo Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para Acesso à Informação da Universidade de São Paulo (GPOPAI), coordenado pelo professor Pablo Ortellado, durante as manifestações de 12 de abril de 2015, em São Paulo.

No total, foram entrevistadas 141 pessoas no Parque Moinhos de Vento e 186 pessoas na Praça da Matriz. A organização da manifestação a favor do impeachment divulgou um total de 40 mil participantes ao longo do dia. Já a organização do ato na Praça da Matriz divulgou um total de 20 mil participantes. A Brigada Militar informa não ter realizado estimativas de público em nenhum dos locais.

Assim, calcula-se uma margem de erro de 8,21% e grau de confiança abaixo de 90% para os resultados da enquete realizada no Parque Moinhos de Vento (pró-impeachment). Os resultados obtidos na Praça da Matriz (anti-impeachment) apresentam uma margem de erro de 6,85% e um grau de confiança também abaixo de 90%. Portanto, estes resultados não devem ser tomados como absolutamente confiáveis, mas como mera sugestão de tendências em ambos os casos.

Entrevistadores: Alícia Porto, Analine Broniczack,  Ângelo Menezes, Angelo Werner, Annie Castro, Caio Santos, Eduarda Endler Lopes, Fernanda Lima, Juliano Baranano, Kamylla Lemos, Maurício Paz, Rafaella Câmara, Sara Santiago, Sofia Lungui, Victoria Urbani, Virgínia Trindade.