Logradouros, anos de chumbo e vestígios

  • Por: Yasmin Luz (5º semestre) | 08/04/2015 | 0

A Ditadura Militar que terminou em 1985 ainda está entre nós no dia-dia. Logradouros públicos como ruas, avenidas, prédios, monumentos, praças e até escolas tem seus nomes em homenagem a participantes do período dos “anos de chumbo”.

No Rio Grande do Sul o que mais chama atenção são as 45 escolas gaúchas que tem nomes de pelo menos um dos cinco ditadores do período entre 1964 e 1985. Em busca online na Secretaria Estadual da Educação, há 29 instituições municipais, 14 estaduais e duas particulares registradas. O mais homenageado é Castelo Branco, com 26 escolas, sendo 15 delas municipais. Em segundo lugar vem Costa e Silva, com 17 instituições. Emílio Médici tem duas escolas homenageando-o, sendo uma particular. João Baptista Figueiredo e Ernesto Geisel não possuem registro de homenagem de escolas no estado gaúcho.

No total são 29 escolas municipais, sendo 17 homenageando Humberto de Alencar Castelo Branco, 11 de Artur da Costa e Silva e uma de Emílio Médici.
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Em 14 escolas estaduais, temos 6 homenagens a Costa e Silva e 8 a Castelo Branco.
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Já as únicas duas escolas particulares homenageiam cada uma, um ditador: Emílio Médici e Castelo Branco.
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Porto Alegre é a única cidade onde há mais que uma instituição de ensino que leva o nome de ditadores. Ambas homenageiam Costa e Silva e são estaduais. Na imagem abaixo, a escola Costa e Silva, localizada na Avenida Niterói.

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(Foto do blog http://escolacostaesilvapoa.blogspot.com.br/)
Colégio Estadual Presidente Arthur da Costa e Silva, localizado na rua Baden Powell, em Porto Alegre. (Foto: Streetview Google)
Colégio Estadual Presidente Arthur da Costa e Silva, localizado na rua Baden Powell, em Porto Alegre. (Foto: Streetview Google)

Veja abaixo o mapa com a distribuição das escolas pelo estado
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Para Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e de Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, revendo os nomes é que começaremos a construir a verdadeira história. “Não tem nada que ter a Castelo Branco, Lima e Silva. Não se pode pensar em prestar homenagens a ditadores seja que ditador foi, temos que prestar homenagens a pessoas que merecem”, enfatiza.

Pelo Brasil existem exemplos em todos os estados de homenagens a presidentes do período Ditatorial, embora a realidade esteja mudando. A campanha “Apague o Ditador da sua Escola” teve início quando o governo do Estado decidiu mudar o nome do Colégio Estadual Presidente Emílio Garrastazu Médici para Carlos Marighella. A medida foi tomada a partir de uma solicitação de alunos, ex-alunos, professores e pais que se sentiam incomodados. Esta ação tem um abaixo-assinado que visa modificar o nome de todas as escolas que prestem homenagens a torturadores. A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) criou um site colaborativo para destacar o retrocesso na educação brasileira e lembrar os trabalhadores perseguidos e crimes que ainda não foram reconhecidos por parte do Estado.

No Rio Grande do Sul estão registrados 33 endereços, também, com nome de pelo menos um dos cinco ditadores do período. Em Porto Alegre, o projeto de lei que altera o nome da Avenida Castelo Branco para Avenida da Legalidade e Democracia foi promulgado em 2014. A iniciativa foi dos vereadores Pedro Ruas e Fernanda Melchionna. Segundo Fernanda, a maior motivação foi a necessidade de haver uma justiça de transição do Brasil. “O Brasil viveu uma ditadura responsável por mortes e desaparecimentos. Temos escolas e monumentos que ainda homenageiam aqueles que cometeram crimes contra a humanidade” e completa que ainda precisamos de mecanismos para resgatar a história.

Quem concorda com isso são pessoas que sentiram na pele o horror daquela época. Sonia Maria Haas é irmã de João Carlos Haas Sobrinho, desaparecido na Guerrilha do Araguaia, supostamente em 30 de Setembro de 1972. Ela também acredita que a mudança serve de revisão da verdade histórica. “São novos tempos. A ditadura deixou marcas de forma autoritária, brusca, sem consultar a população, por isso temos que retirar as “homenagens”, explica.

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Placa na entrada de Porto Alegre já com a nova nomeclatura (Foto: Divulgação EPTC)