Luta, luta, luta: a história de famílias africanas nos Estados Unidos

  • Por: Júlia Marin * | Foto: Flickr (perfil de Fibonacci Blue) | 05/04/2017 | 0
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Minneapolis, Minnesota, 18 de fevereiro de 2017 – Aproximadamente 3000 americanos se reuniram em protesto no Powderhorn Park a favor dos imigrantes.

 

Uma batida na porta. Ela se abre e a pessoa do outro lado nos recebe com um sorriso e um brilho no olhar. Kat Griffith carrega em seus braços uma assadeira contendo frango. É um dia bom. E todo dia com frango é um dia bom. Rishi nos convida para entrar e enquanto nos sentamos à mesa da cozinha, ele pega uma coxinha e começa a comer. Depois de passar por dificuldades, agir com cerimônia se tornou algo que beira ao risível.

O apartamento em que estávamos fica em Oshkosh, uma cidade a 30 minutos de Ripon e mais ou menos duas horas de Madison, capital do estado de Wisconsin, nos Estados Unidos. É um complexo que abriga famílias de refugiados de diversas nacionalidades. Ao lado da população de sírios, a de congoleses é uma das maiores da região. Rishi é um dos filhos mais velhos de uma família de nove pessoas, da qual a mãe, Keicha, é o grande pilar. Kat Griffith é professora universitária e também dá aulas na escola de ensino médio de Ripon. No seu tempo livre se dedica a exercer sua função como voluntária no grupo Good Neighbor, que trabalha junto da organização World Relief. Os dois operam para que as famílias de refugiados que chegam aos Estados Unidos consigam se adaptar à nova vida.

O processo de mudança não é nada fácil. Segundo Tami McLaughlin, que é a principal coordenadora das famílias na região por meio da World Relief, os refugiados passam por uma série de fases até que recebam asilo americano. É um processo que pode durar meses e até anos. A história da família de Keicha começa no Congo, mas viaja até Ruanda quando parentes foram encontrados mortos. Quando contou sua história ela não especificou como eles morreram, fazendo apenas um sinal com o dedo passando pelo pescoço. No entanto, foi mais ou menos nessa época que ocorria uma guerra de cinco anos que começou em 1998. As raízes do conflito estão no genocídio provocado em 1994 entre as etnias hutu e tutsi em Ruanda. Keicha percebeu que teria que ir embora de seu país para que seus filhos tivessem uma vida um pouco mais segura. Aguardando asilo, a família viveu 15 anos em Ruanda. Embora a situação não fosse muito melhor, eles conseguiram construir uma vida lá, com as crianças na escola e os mais velhos trabalhando.

Enfim a família de Keicha e Rishi chegou aos EUA e a situação não poderia ser mais agridoce. Eu tive a chance de poder ver em primeira mão diversos desafios que a família enfrenta no dia-a-dia. O governo americano dá uma assistência de US$ 950,00 para que eles consigam se acomodar nos primeiros meses e a World Relief cuida para que eles consigam se instalar em um apartamento (além de ajudar com doações da comunidade, etc.). A língua é uma das principais batalhas que Keicha precisa enfrentar todo dia. A luta frustrante de ter que ir ao mercado e não saber comunicar direito os nomes do que ela precisa comprar, sempre dependendo de alguém. Karen Geisler, voluntária do grupo Good Neighbor que está envolvida com a família de Keicha, ajuda no processo de compras sempre que pode.

Por ser composta de nove pessoas, a família teve que ser dividida em dois apartamentos. Recentemente, Keicha decidiu se mudar para outro complexo junto com os filhos pequenos, porque seus filhos mais velhos têm problema de alcoolismo. Ajudá-los nesse quesito é um desafio para as organizações, porque primeiramente eles precisariam demonstrar a vontade de parar o vício. Depois é preciso checar se o seguro de saúde que os refugiados recebem do governo seria capaz de cobrir as despesas em caso de internação. Grupos de Alcoólicos Anônimos seriam de grande ajuda, mas os voluntários não podem impor este tipo de programa. Até hoje não se teve notícia sobre agressões que os irmãos tenham cometido a Keicha e aos filhos menores, embora os dois apresentem comportamentos agressivos um em relação ao outro. O medo do que pode acontecer levou Keicha a procurar outro lugar para morar. Neste processo de mudança, precisou de móveis novos e teve de passar por momentos estressantes como tentar entender todas as regras de moradia no novo apartamento (o que durou horas, mesmo com a ajuda de um intérprete). Karen, que acompanhou Keicha durante o curso desses dias comenta: “Eu nunca a tinha visto tão derrotada, ela olhava para mim e dizia ‘desculpe, desculpe.’”

 

Vitórias tímidas

No entanto, em meio a todos os desafios, a família congolesa encontra vários motivos para sorrir. Os meninos mais novos estão cada vez mais fluentes na língua inglesa e estão indo muito bem na escola. Eles têm amigos, pessoas nas quais eles podem se apoiar não só quando precisam de bens para a sobrevivência, mas também quando precisam de alguém para conversar. Essa é uma das missões da World Relief: garantir que os recém-chegados tenham uma boa integração social para que eles se sintam bem-vindos e mais dispostos a construir uma nova vida. “A ajuda de grupos como World Relief, Good Neighbor e congregações de igrejas é algo lindo que me dá muita esperança em meio ao caos que estamos vivendo atualmente no país”, ressalta Kat Griffith. “Ao mesmo tempo em que vemos pessoas depreciando a chegada de refugiados, é grande o número de pessoas dispostas a ajudar.” Ele se refere à política migratória do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem causando polêmica com a proibição de viagem que impedia a chegada de cidadãos de sete países aos EUA por 90 dias: Irã, Iraque, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Yêmen. Depois de poucos dias, um juiz federal acabou bloqueando a ordem parcialmente. Segundo a World Relief, apenas 1% dos refugiados conseguem transferência para outros países.

Geralmente, a World Relief trabalha com as famílias durante o total de seis meses. Os primeiros três são intensos, quando os refugiados têm diversos compromissos, e é neste período em que recebem o maior suporte da organização. Os outros três meses são mais tranquilos, quando, aos poucos, a organização vai se distanciando e as famílias vão tomando um controle maior sobre o que acontece. Nesse estágio, eles já são capazes de fazer tarefas simples sozinhos, como pegar ônibus e fazer compras. Também é provável que já tenham um emprego – que pode ser qualquer função dependendo das habilidades que possuem. No entanto, na maioria das vezes, os refugiados acabam por fazer trabalhos pesados que são quase negligenciados pela sociedade.

 

Imigrantes

Em Ripon, há ainda outra família africana, dessa vez de Camarões. A família Sadou não é refugiada, são simplesmente imigrantes. Contudo, esta definição não diminui os desafios que eles precisam enfrentar, exceto pela situação financeira, que é melhor que a da família congolesa. Antes de se mudarem para os Estados Unidos, eles moraram no Canadá graças ao programa de doutorado em cultura e literatura do qual o marido de Marie Sadou, Jean Steve, fazia parte. Lá ele conseguiu um emprego como professor de universidade. No entanto, recebeu uma proposta de trabalho mais atraente da Ripon College no Wisconsin e isso fez com que toda a família viajasse em direção ao sul.

Segundo Marie, um dos piores desafios é superar o racismo. Ela relata que quando sai na rua é difícil não sentir medo porque as pessoas a olham de forma estranha. “Elas olham para a minha pele, quando falam comigo e notam meu sotaque. Perguntam de onde eu venho. Respondo que venho da África e então posso sentir que as pessoas pensam que sou menos inteligente por causa disso”. Marie trabalhava como enfermeira em Camarões e, para praticar a profissão, agora precisa passar no teste do Conselho Nacional de Enfermagem dos Estados Unidos. Além das aulas de inglês, ela também precisa frequentar aulas da área. “Eu tirei 100% no último teste de química e a reação do professor foi de surpresa.”

As filhas do casal Sadou ainda são muito jovens e para elas é mais difícil saber a diferença entre viver em Camarões e na América do Norte. Em relação ao preconceito que elas possam ter que enfrentar, ressalta: “Jean Steve e eu sempre tentamos dizer às meninas que elas precisam ser fortes e que se qualquer coisa acontecer, elas devem falar conosco imediatamente.” No entanto, ela adiciona: “Mas nós encontramos pessoas muito gentis aqui. Amo ir à aula de inglês.” Ficar longe da família é também algo a que eles foram obrigados a se acostumar. Marie fala que acabou perdendo vários amigos e muitas vezes deseja que seus irmãos se mudassem para os EUA e então ter mais oportunidades. “Luta, luta, luta. A vida aqui é de muita luta”, finaliza Marie.

*Universitária atualmente estudando nos EUA

**Os nomes das famílias foram trocados para a preservação da sua identidade