Machismo afasta as mulheres da política

No Brasil, a participação feminina na política é uma das piores da América Latina

Texto e fotos: Emily Mayer e João Pedro Ferrari (6º sem.)

IMG_4707

O Brasil está entre os países em pior posição no ranking de mulheres na política da América Latina e Caribe, segundo relatório produzido pela Organização das Nações Unidas (ONU), publicado no Guia Estratégico de Empoderamento Político das Mulheres: Marco para Ação Estratégica 2014-2017. Apenas 8,6% de mulheres ocupam cargos legislativos ou executivos no país.

Para Luiza Carvalho, diretora regional da ONU Mulheres na América Latina, “apesar dos países ratificarem normas garantindo 30% dos cargos para mulheres, a máquina política interrompe a ascensão feminina. O Brasil adotou as cotas, mas os partidos nunca tiveram determinação para adotá-las”, declarou à revista Época. Ainda, a partir do relatório, em países onde a representação feminina na política é baixa, as mulheres tem somado forças na criação de bancadas parlamentares, com o objetivo de superar barreiras partidárias e ideológicas.

No dia 14 de setembro, a Comissão Geral de Violência Contra Mulher, presidida pela deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) discutia a violência contra mulheres e meninas no Brasil e a cultura do estupro, no Plenário da Câmara. Após, ser mencionado no discurso de Daniela Teixeira, representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o deputado Jair Bolsonaro (PSC/SP) exaltou-se, subiu ao palanque e ameaçou a deputada Maria do Rosário, exigindo direito imediato de resposta.

Como de costume, a deputada disse que precisava seguir a ordem de assinaturas para espaço na tribuna e que Bolsonaro já estava na lista para falar. Isso não acalmou os ânimos do deputado, que mesmo com o microfone cortado, gritava ofensas à comissão. Essa não é a primeira vez que o deputado ataca Maria do Rosário. Em 2014, ele afirmou que só não a estupraria porque ela “não merecia”. Jair Bolsonaro foi condenado a uma indenização por danos morais e tem duas ações penais abertas no Supremo Tribunal Federal.

rosarioEm entrevista com a deputada federal Maria do Rosário (PT), dias antes do incidente, ela salientou as dificuldades de ser uma líder política num ambiente masculino. Usando uma frase da ex- presidente Dilma Rousseff, a deputado comentou que “nos chamam de mulheres muito duras, muito radicais. Como se estivéssemos no meio de homens todos meigos (sic). Enquanto, na verdade, nós vivemos com a dureza das relações”.  A deputada menciona que é preciso se posicionar contra os ataques daqueles que querem menosprezar a participação feminina na política. “Assim, como os homens, estamos aqui pra fazer um trabalho.”

Entretanto, para a senadora Gleisi Hoffmann (PT/PR) “a política é a guerra sem armas. Então é claro que os homens não vão nos receber de braços abertos.”. A senadora acredita que a PEC que estabelece cotas para mulheres nas eleições para deputado federal, estadual e vereador, aprovada em 2015, mudará esse quadro. “Quando for obrigado aos partidos políticos colocarem cadeiras reservadas para mulheres no parlamento, vão investir nas mulheres. Porque nenhum partido irá querer perder vaga”. Para a senadora, no Congresso Nacional há muita misoginia, de homens que têm pavor de trabalhar com mulheres e que ainda acreditam que a mulher fora do padrão “recatada e do lar” é uma ameaça a ordem social.

cristovamPara o senador Cristovam Buarque (PPS/DF), os homens sempre foram favorecidos, e um dos motivos, seria que antes eram os que mais frequentavam a faculdade.  Hoje estudos mostram que a mulher ocupa cerca de 55% das vagas nas universidades, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Se compararmos o número de mulheres e homens que concluem o ensino superior, esse percentual sobe para 60%.

Segundo o senador, o trabalho das mulheres seria mais sacrificado, pois ainda é comum a mulher ter triplas jornadas, além de enfrentar o machismo diário. Ele conta o desabafo de uma colega de que é “comum os homens mudarem uma reunião porque tem jogo de futebol, mas ninguém aceita eu ter que mudar uma reunião porque tenho que amamentar meu filho”.