Moradores convivem com esgoto e lixo na Lomba do Pinheiro

“Quando transborda esta caixa, fica dois, três dias com o esgoto escorrendo na frente de casa. A gente tem que colocar uma tábua para passar”, relata Marisa Lopes da Rocha, 56 anos, moradora do bairro Lomba do Pinheiro, na zona leste de Porto Alegre. Esta situação é reflexo da atenção destinada ao saneamento da periferia da Capital. A população da região cresceu exponencialmente entre 2000 e 2010, passando de 30.388 para 51.415, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, a estrutura de saneamento não seguiu o mesmo ritmo. Neste ano, pesquisa do Instituto Trata Brasil divulgou que a capital gaúcha ocupa o 46º lugar no ranking relativo ao saneamento básico entre os municípios brasileiros, enquanto o país ocupa a 112º posição entre outros 200 países pesquisados.

Vivendo há 32 anos no acesso 5, da rua Adão Benedito Lopes Brandão, Marisa convive com dois sérios problemas no seu terreno. Um deles é a caixa de escoamento de água construída pelo Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), que forma um córrego na porta de Marisa sempre que o encanamento entope. No fundo do terreno, ainda há mais problemas, decorrentes do lixo acumulado pelos vizinhos e do deságue direto dos canos da rede de esgoto daquela região.

O que mais incomoda a moradora é lixo jogado pelos outros moradores. Os dejetos que o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) não recolhe são jogados no leito do arroio. Há uma infinidade de objetos descartados, que vão de bicos infantis a sofás. Com duas crianças na casa, a moradora recomenda aos netos que não andem pelo local. Ainda assim, uma bicicleta das crianças pode ser vista escorada em uma árvore a poucos metros da ladeira que leva ao esgoto.

Apesar de a casa estar próxima das águas poluídas, Marisa não acredita que o local seja foco de ratos e baratas. “O que incomoda um pouco é o cheiro no verão”, revela timidamente. Ela não se preocupa com a possibilidade da dengue atingir sua família, mesmo com água parada nos objetos do monte de lixo próximo à casa. O córrego também pode ser foco de doenças pelo deságue do encanamento direto dos moradores.

De cima dos degraus que dão acesso à casa, Marisa mostra a caixa de passagem por onde escoa o esgoto das moradias do bairro, que está dentro do terreno dela e transborda sempre que entope. “Meu marido queria botar concreto nos canos para parar de cair água”, conta. A moradora lembra que o Dmae leva até três dias para ir até o local fazer as limpezas e, por isso, ela precisa improvisar a passagem com tábuas. Ela reclama e pede para o departamento instalar a caixa fora do seu terreno, mas, de acordo com a moradora, eles dizem que não podem.

O bairro Lomba do Pinheiro é permeado pelo Arroio Taquara, que nasce em Viamão e tem mais de cinco quilômetros de extensão. No acesso da rua São Paulo para a Condé do Bonfim, um trecho do arroio está sendo canalizado pelo empresário Dirceu Costa. O terreno vizinho ao dele era um depósito de lixo com mais de dois metros de profundidade. Ele decidiu cercar o terreno e aterrar o material. “Foram mais de 40 caçambas de terra aqui”, conta, enquanto um novo caminhão despeja o material. Costa afirma que há denúncias ambientais contra a dona do terreno e que, inclusive, cobrou dela uma resolução do problema. “Fui reclamar, mas ela disse que não iria se incomodar para ver isso”, revela.

Posição do DEP

De acordo com a assessora Adriana Machado, do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP), o Arroio Taquara está passando por dragagem, ainda que a reportagem não tenha observado trabalhos no local. No entanto, o órgão não conta com um plano hídrico que identifique os arroios da cidade. A fiscalização acerca da situação dos locais é feita a partir de contratos para limpeza já existentes, mas o departamento não soube informar como é a rotina de vistorias.

Nas duas situações relatadas, há despejo de esgoto cloacal – proveniente dos vasos sanitários – direto das moradias, sem passar por fossa ou outra etapa de tratamento doméstico, como é exigência do Dmae. A falta de fiscalização das instalações de esgoto das moradias decorre da irregularidade dos terrenos, provenientes de ocupação em décadas passadas.

Marisa da Rocha lembra que, há mais de 30 anos, foi direcionada para a Lomba do Pinheiro pelo Departamento Municipal de Habitação (Demhab), e os próprios moradores construíram as casas. Conforme o Plano Municipal de Saneamento Básico, a região apresenta cerca de 72,9% de redes de coletas de esgoto implantados. A reportagem entrou em contato com o DMAE para obter esclarecimentos sobre a rede de esgoto irregular, mas não teve resposta.

À beira do Arroio Taquara, também existe a possibilidade de deslizamento das casas, pois muitas foram construídas no leito do córrego. A casa de Luana Souza está entre outras duas que receberam visita de técnicos do Demhab, alertando para os riscos do local. Quando chove, a água sobe até a metade da parede pelo lado de fora, mas não chega a inundar, pois a entrada está no ponto mais alto do leito, oposto à passagem de água.

Texto: Caroline Ferraz (7º semestre)
Fotos: Raphael Seabra (6º semestre)

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