Mudanças climáticas: eventos extremos prejudicam cada vez mais a produção agrícola gaúcha

Aumento de eventos extremos pode causar prejuízos bilionários nos próximos anos, mas a agricultura pode contribuir para frear o processo

  • Por: Camila Pereira (2º semestre) | Foto: Fernando Kluwe Dias - Secretaria da Agricultura, Pecuária e Irrigação do Rio Grande do Sul | 28/05/2018 | 0

As mudanças climáticas já têm consequências para a agricultura do Rio Grande do Sul, aponta Clenio Pillon, chefe geral da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Segundo ele, a produção de algumas culturas tem sido prejudicada pelo aquecimento global. No entanto, a percepção não é unânime. Para Ivo Lessa Silveira Filho, consultor técnico da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), hoje o clima do estado tem  apresentado aumento de eventos extremos, como chuvas mais pesadas e períodos mais fortes de seca, deixando assim de ser regular. Porém, ele salienta que o que existem são mudanças climáticas, mas não há aquecimento global.

Na percepção de Pillon, é possível notar que a agricultura do estado sofre consequências do aquecimento global. Ele ressalta que o cultivo de algumas culturas, como pêssego, maçã, pêra e nectarina, que demandam mais horas de frio para o processo de diferenciação floral e frutificação, sofreu efeitos negativos em razão de poucos períodos contínuos de frio no ano passado. Além disso, ele destaca que houve  deformações na batata, devido à exposição a altas temperaturas. Pillon ainda coloca que a Embrapa já trabalha com programas de melhoramento genético, através da identificação e do desenvolvendo de cultivares com menor exigência a frio. Essa prática também tem sido motivo de interesse de países de clima temperado, pois com o aquecimento do planeta há tendência de diminuição da disponibilidade de horas de frio em várias regiões do mundo.

Outro impacto negativo do aumento do calor, colocado pelo especialista da Embrapa, é a diminuição da taxa fotossintética das plantas, ou seja, a capacidade delas em absorver carbono do ambiente e liberar oxigênio. Essa tendência cresce a até no máximo 35 graus celsius e tem decréscimo a partir da elevação dessa temperatura, o que pode causar abortamento de florações.

Mas as mudanças do clima também possuem efeitos positivos. De acordo com Pillon, o crescimento do regime de chuvas na região da Campanha favoreceu a produção de soja no estado nos últimos anos, com exceção do ano passado, e o aumento das precipitações pode provocar a expansão de áreas produtivas de algumas culturas. Porém, projeções realizadas em 2008 pela Embrapa juntamente com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) reforçam que os efeitos das mudanças climáticas na agricultura devem ser mais negativos do que positivos. O pesquisador enfatiza que “por termos cada vez mais eventos extremos, a produtividade pode ser prejudicada. É muito difícil estimar os prejuízos, mas os modelos apontam que se nada for feito teremos decréscimo na produtividade de algumas espécies”.

As estimativas feitas em 2008, as mais recentes disponibilizadas pela Embrapa,  avaliaram o impacto do aquecimento global nas culturas de algodão, arroz, café, cana-de-açúcar, feijão, girassol, mandioca, milho e soja em todo o Brasil, projetando os melhores e os piores cenários de cada cultura para os anos de 2020, 2050 e 2070. Os cenários foram construídos com base no aumento de temperatura previsto pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas. Apenas a cana-de-açúcar e a mandioca seriam favorecidas. Para as demais culturas as estimativas apontam diminuição das áreas favoráveis ao plantio.

Nas projeções, somente levando em conta as culturas de arroz, milho e soja, das quais o Rio Grande do Sul é um dos principais produtores, o prejuízo estimado em 2020 é de aproximadamente R$ 5,5 bilhões. Já no melhor cenário mais pessimista é de  R$ 6 bilhões. Em 2050, o prejuízo estimado para as mesmas culturas é de cerca de R$ 7,5 bilhões no melhor cenário e R$ 8,2 bilhões no pior. Para 2070, são R$ 8,7 bilhões e quase R$ 10 bilhões.

Os prejuízos podem ser ainda maiores se levarmos em conta que, segundo Lessa, da Farsul, estudos feitos pela entidade apontaram que cada real produzido pela agricultura gera quatro na economia do Rio Grande do Sul.

Como a agricultura gaúcha pode contribuir para frear as mudanças climáticas

Avanços tecnológicos, recuperação de solos e a conscientização de uma nova geração são os principais fatores para que a agricultura gaúcha se adapte às mudanças climáticas e contribua para frear esse processo, aponta Lessa. Ele destaca que para algumas culturas há compensação tecnológica, como a produção de soja mais resistente a seca e arroz resistente a uma maior insolação. Além disso, ele evidencia que há potencial de aumento da produtividade agrícola através da recuperação de solos degradados, sem ser necessária a expansão de áreas. Porém, Lessa destaca que no Brasil há pouca assistência técnica para os produtores rurais, dificultando o planejamento eficaz de rotação de culturas e o manejo correto do solo por agricultores.

Pillon, por sua vez, concorda com a  importância dos sistemas rotacionados de culturas e do uso consciente da terra: “quando a gente adota uma série de medidas de manejo conservadorista da água e do solo, como o cultivo direto (que promove o cultivo sobre a palha deixada pela cultura anterior, sem ser necessária a remoção do solo), nós podemos ao invés de estar emitindo gases de efeito estufa, contribuindo para a retirada de CO² da atmosfera e o incorporando na matéria orgânica do solo”. Ele salienta que o potencial médio de incorporação é de meia tonelada de carbono equivalente por hectare ao ano, sendo que em sistemas conservadoristas é possível chegar a uma tonelada. Segundo os dados mais recentes da plataforma Climate Watch, em 2014 o Brasil emitiu 1,4 gigatoneladas de carbono equivalente (gases do efeito estufa convertidos em CO²). De acordo com o consultor técnico da Farsul, a agricultura do Rio Grande do Sul ocupa cerca de 8 mil hectares de um total de 28 mil hectares do estado.

Lessa ainda aponta que é preciso buscar o equilíbrio entre a produção e a demanda, e conta que “na década de 80 a produção de alimentos crescia aritmeticamente com a população. Hoje a população tem um crescimento, mas a produção de alimentos é geométrica”. Em sua visão, estamos em um processo de transição entre gerações, o que contribuirá para que hajam novas práticas de produção agrícola e discussões mais abertas sobre os efeitos das mudanças climáticas no campo. No entanto, ele reforça que é necessário diminuir a polarização entre o meio urbano e rural, “acho que temos que começar a entender que o leite não nasce na prateleira do supermercado”.

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