Mudanças climáticas tornam Rio Grande do Sul mais quente que a média

Fenômenos esperados no estado como seca, inundações e ondas de calor facilitam a expansão de doenças

  • Por: Daniela Nunes (2º semestre) | Foto: Divulgação/ SEAPI/ Fernando Kluwe Dias | 28/06/2018 | 0

“O Rio Grande do Sul gasta mais dinheiro para recuperar danos causados pelas mudanças climáticas do que, de fato, tentando entender esses eventos”.  A afirmação é do geógrafo e diretor do Centro Polar e Climático do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Francisco Eliseu Aquino.

Segundo o professor, alguns estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo possuem, com financiamento, um banco de dados feito para pesquisas de mudanças climáticas. De 2007 até 2010, o Rio Grande do Sul fomentou algumas discussões em relação às pesquisas, mas a crise econômica no estado e a falta de recursos na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) impediu uma série de iniciativas. “Eu indicaria para a Fapergs, ou os comitês assessores dentro da fundação, o fomento de editais com o maior número de pesquisadores, de diversas áreas, para que pudessem trabalhar em conjunto estudando para ter um melhor conhecimento do clima do Rio Grande do Sul de 1800 até hoje. Se tivermos uma ideia dos acontecimentos dos últimos 100 ou 200 anos, vamos saber com maior precisão dos impactos desses fenômenos severos”. Francisco acrescenta que uma sutil mudança no clima tem um forte impacto na sociedade, já que com o aumento da temperatura média doenças como dengue e zika são transmitidas mais facilmente, afetando diretamente a economia, a estratégia governamental e a saúde da população, principalmente a da parte mais vulnerável.

Se tratando de escala global, o Rio Grande do Sul está 1.5° C mais quente que a média, principalmente no inverno. Isso ocorre porque as ondas de calor no estado se tornaram mais frequentes, entre 2007 e 2010. Crianças e idosos são os que mais sofrem com as ondas, pois a partir delas surgem problemas respiratórios e cardíacos.  

As mudanças ambientais globais hoje têm como elementos o desmatamento, queima de combustível fóssil, aumento do nível do mar, derretimento de geleiras e perda de biodiversidades. O crescimento das cidades também pode se tornar um fator que influencia nas mudanças: “hoje vivemos em megacidades que não aceitam a natureza, o nosso padrão de concepção não considera as áreas verdes”.

 

Políticas públicas

Os sinais das mudanças climáticas, por sua vez, se tornaram um aspecto global. Ações individuais são relevantes para a diminuição desse processo, mas políticas públicas municipais ou estaduais possuem efeitos maiores.

Por exemplo, ele comenta que o Brasil é o único país que faz uso do etanol como combustível, que, por sinal, é menos prejudicial ao meio ambiente que gasolina. Porém, não há incentivo financeiro para aumentar a produção do álcool, de modo a incentivar que a população utilize mais. De acordo com Francisco, o uso de etanol “quase anularia a emissão de CO2”.

Ainda outro problema é o baixo uso do transporte público, aponta Francisco. Ele comenta que o Brasil é muito ineficiente em transporte coletivo de massa. “Deixar o carro em casa uma vez por semana e utilizar outros meios é um benefício. Porto Alegre, por exemplo, é tímida em ciclovias”.

Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul são os estados campeões em desastres ambientais. Porém, Santa Catarina resolveu organizar estudos relacionados a esses eventos criando, em 2009 a Política Estadual sobre Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Sustentável de Santa Catarina

As mudanças climáticas acontecem por variados fatores, onde cada escopo tem o seu nível de emissão. O biólogo da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Porto Alegre (Smam) José Araújo afirma que o descarte inadequado de resíduos sólidos, como restos de obras, e também transportes emissores de CO2 são dois destaques na capital gaúcha. Sem triagem, muitos resíduos acabam indo para um aterro e emitindo gases que influenciam nas mudanças do clima. Em 2015 foi lançado o primeiro Inventário de Emissões dos Gases de Efeito Estufa – GEE da Mobilidade Urbana na Região Central de Porto Alegre. O documento trata sobre os níveis de emissões de CO2. O ano base para o lançamento do inventário foi 2013, ano em que o transporte público de Porto Alegre emitiu cerca de 66% dos gases totais do município: “é importante a cidade fazer seus inventários, entender o seu nível de emissão e montar um plano de ação para não aumentar isso”. Araújo coloca também o descarte de embalagens como um fator que contribui  para as mudanças ambientais globais, além de destacar a influência das cidades vizinhas: “o impacto das outras cidades afeta. O Arroio Dilúvio tem lançamento de resíduos, mas nem sempre esses resíduos são de Porto Alegre, às vezes eles podem ser lá de Viamão”.

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