Mulher está cristalizada em papel antiquado no tradicionalismo gaúcho

O imaginário popular é uma representação das dinâmicas sociais e do que as envolve. Cancioneiros, mitos, generalizações, tudo o que é espaçado pelas lacunas da História ou não sofre a atualização do olhar ajuda a compor o imaginário. A figura do feminino no ocidente é um prato cheio para uma noção inventada, já que a história da mulher só passou a ser pesquisada, em particular, a partir do século XX.

O folclore é um cruzamento de mitos e produção cultural. No extremo sul do Brasil, ele vai além disso. No Rio Grande do Sul foi criado, em 1947, o tradicionalismo, um esforço de representação de elementos culturais agrupados e lacunas preenchidas com alguma devoção mítica. A mulher é um destes espaços embaçados da tradição. Por pouco se saber da sua história, teve que se imaginá-la.

Para a historiadora Eloísa Helena Capovilla, diretora da especialização em Historia do Rio Grande do Sul da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), a mulher no tradicionalismo é uma construção. “Ela é uma construção bastante conservadora do que eram as mães e avós da época (revolução Farroupilha). Da mulher não se sabia nada. Eles recriaram até a maneira de vestir. É uma representação” diz Capovilla.

No movimento tradicionalista, a rotina da mulher campesina se mistura com os costumes da elite gaúcha do século XIX e início do século XX, influenciada pela Belle Époque. Para Nathália Rodrigues, estudante de 17 anos que integra o movimento, a prenda é vista como uma joia. “Nós consideramos que a prenda é a joia preciosa do nosso movimento. Para tanto, ela deve divulgar nossa cultura sempre representando a beleza, a simpatia e a graciosidade da mulher gaúcha. Nós representamos o sangue da Anita Garibaldi e da Ana Terra”, disse. Sobre a divisão de papéis entre o homem e a mulher na visão tradicionalista, Nathália disse que o homem está associado à lida campeira e, a mulher, ao cuidado com os filhos. No entanto, frisou que as prendas hoje praticam também atividades do campo, como o laço e a gineteada.

Na fala de Natália é possível perceber a tensão entre os dois mundos da sociedade gaúcha, antes distantes e agora vistos como um só. Tanto a personagem histórica, Anita Garibaldi, quanto a literária, Ana Terra, não se encaixam na descrição da jovem prenda. “Anita, inclusive, transgrediu o ideal de mulher virtuosa da época, já que era casada e se envolveu com Garibaldi”, lembra Capovilla. Ana Terra, no romance de Érico Veríssimo, engravidou fora do casamento.

Estes comportamentos são recriminados pela cultura machista dominante na história do Rio Grande do Sul e sua estrutura patriarcal. As transgressões das duas mulheres, a real e a fictícia, são diminuídas nos ícones, mas não na vida comum.
A elite estancieira ou da cidade, que guardava às mulheres a administração da casa, das recepções e dos trabalhos manuais apresenta a ideia de graça e delicadeza. A mulher campesina, que lava roupa na sanga, madruga com o peão e auxilia no campo é uma realidade diferente. As duas se misturam no tradicionalismo, como se fossem uma só. Isso também ocorre com o homem. Peão, estancieiro e escravos se confundem no imaginário gaúcho. Só no imaginário.

Para o homem tradicionalista, o apego à lida bruta do campo é exaltado. Para a mulher, a declamação, as atividades manuais, o trabalho social e a representação da cortesia. O peão e a prenda tradicionalistas, portanto, dificilmente formariam um par na História, por serem representações de classes e meios distintos.

A mulher do campo, aquela que vive ao lado do peão, não é a mesma representada pela prenda adornada e graciosa. Para Capovilla, essa idealização é uma referência clara à mulher da elite. A vida campestre é marcada pela aspereza e o trabalho rude. Esta figura está mais presente na literatura regional e no cancioneiro popular. A música nativista A Campesina retrata o dia de uma gaúcha do campo.

Levantar-se a tempo de acordar o sol
Preparar a erva para o chimarrão
Leite para os guachos, roupa no varal
Água na cacimba e varrer o chão
Bate a roupa, torce o corpo, enreda o campo
Bebe o sonho, esfrega a vida, enxuga o tempo
Forja o riso, enrola os sonhos, esfrega os olhos
Torce a vida, bate o medo, esfola as mãos
E a comida quente para o seu peão
Que mulher valente! Buena companheira
Suas mãos são asas, seu olhar me guarda
Que mulher valente! Buena companheira
Me repara a casa e me enfeita a cama
Atiçar o fogo pra fazer o pão
Milho para os pintos, depois semear
E mexer o tacho e socar pilão
E a gurizada para reparar
Nada mais lhe cabe em seu pequeno mundo

Em qualquer esfera da sociedade gaúcha a mulher esteve retratada como companheira, exercendo papel de suporte tanto para a revolução quanto para a figura do homem. O protagonismo é sempre masculino. A “Buena companheira” era quem auxiliava o peão na lida ou tomava conta da estância na ausência do marido durante as muitas guerras fronteiriças que marcaram o estado. Neste sentido, Capovilla considera que agiram com a bravura. “Foram guerreiras porque precisavam ser. Muitas passaram grandes privações durante a guerra e estavam cercadas dos filhos, tinham que enfrentar a situação. Algumas viúvas da revolução, que possuíam autonomia sobre sua propriedade, a alugavam para os farrapos como centros de organização de guerra ou caminho de passagem para correspondências. Mulheres eram requisitadas a intervir junto aos seus maridos em favor da revolta”, esclarece. Uma correspondência publicada nos anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul mostra uma carta enviada por Domingos José de Almeida, ministro do interior da República Rio-Grandense, à D. Maria Mancia, em maio de 1840:

Minha muito respeitável Exma. Sra.(…) apresso-me a agradecer a V. Exa. Tão distinto obséquio a asseverar-lhe que sabendo da bem merecida ascendência que a V. Exa. Exerce sobre seu esposo, conto que apenas ele regresse V. Exa. o convencerá da necessidade de sua pronta vinda, e o porá em caminho para a canhoneira ou rio Pardo.

A ideia da mulher como esteio do homem ainda está muito presente. Rossileny Ribeiro, 43 anos, casada e com duas filhas é natural de Alegrete e agora vive na capital. Ela foi prestigiar o acampamento farroupilha montado anualmente em Porto Alegre durante os festejos de setembro. No Alegrete, trabalhava no campo. “Acho que o homem tem seu papel e a mulher tem o dela, voltada ao lar”, disse. Para Rossileny a diferença e entre homens e mulheres não se restringe ao tradicionalismo: ela acha que a sua atual profissão é um desafio que não tem a ver com coragem, e que o homem ocupa esse espaço de valentia. Rossileny trabalha hoje como segurança.

A artesã Vera Borba, que estava expondo seus produtos no acampamento, conta que seu pai era tradicionalista e que se orgulha da cultura gaúcha, mas percebe que ela está centralizada na figura do homem. “Quando se fala em gaúcho se refere sempre ao homem, a mulher está sempre no segundo plano”, admite. Na sua visão, as gaúchas são submissas ao pai e ao marido, embora isto não seja tão evidente hoje em dia.

A semana farroupilha se encerrou na sexta-feira, 20 de setembro, data principal da revolução dos farrapos. Com o fim do acampamento e dos desfiles, os vestidos e bombachas voltam para os centros de tradição gaúcha e já não são vistos com frequência nas ruas. “Isso é um tempo de festa, e o princípio da festa é tempo de exceção. Não é a realidade”, conclui a historiadora Eloísa Helena Capovilla.

Texto: Thamíris Mondin (4º semestre ) e Anna Cláudia Fernandes (8º semestre)
Vídeo: Emílio Camera (3º semestre) e Janaina Marques (6º semestre)

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