Nintendo constrange produtores de vídeos no YouTube

No correr deste mês, a fabricante de jogos eletrônicos Nintendo marcou três vídeos do canal Coisa de Nerd, administrado pelo usuário Leon Martins, alegando violação de copyright. O fato trouxe de volta o debate sobre os limites individuais dos produtores de conteúdo do YouTube.

Um vídeo que recebe flag não é derrubado e não há riscos diretos para o canal. O problema gira em torno do fato de que este vídeo não pode mais ser “monetizado”, ou seja, o criador não pode receber dinheiro oriundo de anúncios por ele. No YouTube, os produtores recebem por visualizações e, quanto mais o vídeo é visto, mais ele gera lucros mensais para o dono do canal.

Este excesso de zelo por parte da Nintendo é puramente uma questão ideológica empresarial, na opinião do professor André Pase, especializado em mídias digitais e relações de jogos no cotidiano. “A Nintendo sempre foi cuidadosa com tudo o que a mídia fala sobre ela”, argumenta. “Ela tem, na verdade, dois objetivos: primeiro, um controle sobre o que é falado, e segundo, quer que as pessoas usem os canais dela, os espaços que a Nintendo oferece para que tu compartilhes”, completa.

Analisando mais a fundo a questão, o professor, polemiza: “Na verdade é uma tentativa de jogar as pessoas para dentro do universo onde ela manda. É um pouco cruel, mas eles querem ter controle, forçar as pessoas a discutirem não no YouTube, mas dentro dos espaços dela. Por um lado, a gente chama de antipropaganda, mas também se tentar obrigar as pessoas a usar os canais dela. Talvez não seja a melhor ideia e isso, sim, é um problema. Agora, é um modo de ela dizer ‘vem para dentro do meu universo, vem pra onde eu mando'”.

Ouça abaixo a íntegra da entrevista com o prof. André Pase:

Nintendo e a censura no YouTube by Editorialj on Mixcloud

Além do Coisa de Nerd, outro canal que sofreu represálias da Nintendo foi o BRKsEDU, administrado por Eduardo Benvenuti, brasileiro residente no Canadá. Benvenuti também é o dono e produtor de conteúdo do canal Pequeno Sapeca. Sobre os avisos, chamados “flags”, que alguns dos seus vídeos receberam, Benvenuti alega que a “única empresa que já deu flags em material dos canais BRKsEDU e PequenoSapeca foi a Nintendo. Nenhum aviso ou justificativa foi dado”.

Perguntado sobre a possibilidade de o canal vir a ser fechado por iniciativa da empresa, Benvenuti se mostra cético: “Nunca tive esse receio, graças ao bom senso dos publishers e à proteção da Network à qual sou filiado, a Machinima. Os inscritos não precisam se preocupar com os produtores de conteúdo nesse sentido. Eles devem aproveitar os vídeos disponíveis, quer estejam com flag ou não.”

Eduardo Benvenuti observou que as ações da empresa são uma péssima jogada de marketing, pois prejudicam os produtores de conteúdo do YouTube e os incentivam a falar mal da Nintendo. No caso do canal Coisa de Nerd, a resposta encontrada por Leon Martins foi suspender vídeos da Nintendo e apresentar gameplays de outras empresas de jogos, em especial da Sega, a principal concorrente, como forma de protesto.

André Pase avalia isso como um início de “queda de braço” que pode prejudicar as relações futuras entre os dois nomes: “O próprio fato do cara protestar faz com que acabe brigando com a empresa. Aí, fica uma queda de braço. Então, provavelmente, a Nintendo vai olhar e dizer ‘esse cara aqui a gente não vai chamar para nenhum preview, para nada.'”

Até o fechamento desta reportagem, a representante da Nintendo nos Estados Unidos, responsável pelas ações da empresa japonesa na América Latina, não havia respondido aos contatos do Editorial J solicitando declarações a respeito do tema.

Texto: Matheus de Jesus (4º semestre)
Imagem: Nintendo/Divulgação

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