Caingangues vivem entre o futuro e o passado

Ao som de músicas reggaeton, índios de diversas comunidades assistem atentos ao jogo de futebol. No pequeno campo, de grama falha, comunidades indígenas diferentes duelam no torneio comunitário. O dia, sábado; o motivo, integração entre as culturas kaingang, guarani e charrua.

O grupo está reunido na aldeia Kaigang Fág Nhin, comunidade indígena situada na Lomba do Pinheiro, zona leste de Porto Alegre. O local, fundado há nove anos, reúne 32 famílias, num total de aproximadamente 150 pessoas. Os moradores vivem basicamente do artesanato, principalmente cestas feitas de cipó e taquara, que vendem no centro da capital geralmente aos finais de semana.

O cacique da aldeia, Samuel Silva, de apenas 21 anos, um dos jogadores, explica que a atividade é desenvolvida a cada dois meses. O esporte, paixão nacional, é jogado tanto por homens como mulheres. Ao redor do campo, a caixa de som anima a todos num volume muito alto. Ali perto, alguns moradores descansam em suas casas – pequenas, porém com o conforto necessário, com cama, sofá, TV, eletrodomésticos, às vezes computador, semelhantes às demais casas simples, com o diferencial da decoração indígena.

Para o diretor da escola da reserva, Anilton Mello, 37 anos, não há problemas em introduzir tecnologias e costumes do “branco”, desde que não se perca o culto à própria tradição. Na escola, o aprendizado mistura disciplinas básicas com outras próprias da aldeia, como a língua kaingang e sua cultura. “Uma coisa importante que nós temos, é que na segunda-feira todos estão na comunidade. É um dia que tem as atividades da cultura mesmo, com comida típica, no centro cultural”, ressalta Anilton. Ele também conta com orgulho que três membros da comunidade estão cursando ensino superior na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Para ele, é preciso estimular os jovens, dando perspectivas para seu caminho, dizer que sim, eles podem ser o que almejam.

Os aspectos mais interessantes que podem ser observados no dia a dia na aldeia são a coletividade e as regras próprias. O primeiro, pois todos vivem para a comunidade, e não para si. O segundo, pois atritos, quando há, são resolvidos pelas autoridades do grupo, por meio de decisões que são acatadas e cumpridas. Para cada caso, uma pena. Mas vale ressaltar, o último crime grave, o sumiço de um aparelho eletrônico, ocorreu há quatro anos.

Texto e fotos: Douglas Roehrs (4º semestre)

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