Nossa gente, nossa história: o que faz de alguém latino?

Como se construiu uma identidade

  • Por: Julia Marin (2° semestre) | 13/12/2017 | 0

Quem é latino? O senso comum diz que é quem nasceu na América Latina. Contudo, em pesquisa publicada em 2015 pelo projeto The Americas and the World: Public Opinion and Foreign Policy (As Américas e o Mundo: Opinião Pública e Política Externa)  articulado pelo Centro de Investigação e Docência em Economia (Cide) do México, em parceria com universidades da região, se verificou que apenas 4% dos brasileiros se identificam como latino-americanos. Blocos como o Mercosul que buscavam fortalecer os países membros tanto de forma econômica quanto política, hoje estão em crise.

O conceito de “latino” é relativamente novo, segundo a professora especialista em América Latina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Maria Cristina Santos. Ele causa confusão em muitas pessoas. Ou melhor, a identidade latina desperta diferentes sentimentos de acordo com a nacionalidade e principalmente a bagagem cultural de quem pensa sobre o assunto. Também, há muitas óticas pelas quais encontrar respostas. O que pesa mais para alguém poder se considerar latino? Aliás, como se dá este processo? É permitido que alguém se considere ou veja outrem como latino(a) sem que haja regras estritas para tal? Considerando a carga simbólica que o termo carrega hoje, será que faz sentido definir-se como latino?

Os fatores que mais influenciam a identidade latina estão relacionados a certas características como o local de nascimento, lugar de infância, origem e cultura familiar, etnia e língua. Na pesquisa organizada pelo Cide, se perguntava com quais expressões as pessoas mais se identificavam. Nascidos no Brasil respondiam “Brasileiro” em primeiro lugar, com 79%, seguido por “cidadão do mundo” (13%), “latino-americano” (4%) e “sul-americano” (1%). Em relação à política externa, a América Latina aparecia como uma preocupação pequena e até mesmo mais como um problema do que um benefício. A maioria dos entrevistados brasileiros acredita que seu próprio país seria o mais adequado para representar a América Latina no Conselho de Segurança da ONU.

Em pesquisa realizada para essa reportagem, foi feito um questionário com 61 brasileiros. Entre eles, 90,2% se consideram latinos e a maioria tem família de origem europeia. Quando perguntados sobre qual traço seu eles diziam ser latino, a maior parte das respostas envolvia idioma, local de nascimento e cultura. Algumas respostas qualitativas da pesquisa foram incorporadas ao longo do texto.

 

“Latino vem do latim”

O português, o espanhol, o italiano e o francês são línguas europeias derivadas do latim. “Isso é um tronco linguístico”, afirma a professora Maria Cristina. “Eles (os europeus) não se consideram latinos, mas falantes de línguas latinas.” Há alguns que acreditam que os países latino-americanos de língua espanhola são “mais latinos.” “Tecnicamente a língua portuguesa provém do latim, então brasileiros são latinos. Me parece que consideramos mais latinos os de língua espanhola que os de língua portuguesa”, respondeu o brasileiro Fábio Martins à pesquisa realizada. Isso retoma o distanciamento do Brasil em relação à América Latina. O idioma serve para lembrar a história de um sistema de colonização bem diferente do encontrado além das fronteiras brasileiras. “Acho que o idioma é uma barreira entre o Brasil e o resto da América Latina”, declara César Restrepo, intercambista colombiano que estuda Arquitetura em Porto Alegre.

 

Construção de latinidade

Quanto à etnia, a discussão fica ainda mais complicada, principalmente ao considerar o quão diversa é a população da América Latina. Além da língua, do país de nascimento e de infância, a aparência é de grande influência. “Os olhos amendoados, o cabelo preto liso, pele mais escura. O que a gente entende hoje como latino tem a ver com esse fenótipo”, afirma Maria Cristina. Quando os espanhóis chegaram na América, a encontraram já ocupada pelos indígenas. Ao longo dos anos de colonização e com a interação entre as duas etnias, nasceu o termo “criollo”, que designava o indivíduo gerado pelo casamento de espanhóis e indígenas. Esse conceito era muito forte no século XIX e tinha o significado de espanhol nascido na América. “Talvez aqui haja um caminho de percepção dessas diferenças de latinidade”, diz a professora.

No Brasil, o processo de colonização se deu de forma particular, se diferenciando do resto do continente americano. Há certa semelhança na criação de uma população brasileira, levando em conta a mistura ocorrida entre os colonizadores portugueses e os povos pré-colombianos. Além de criminosos, muitos camponeses pobres atravessavam o Atlântico para cuidar das plantações antes da nobreza se instalar. Com o tempo e a vinda da nobreza para o Brasil formou-se uma elite nativa. Isso também aconteceu com os criollos no resto da América Latina. O que realmente diferencia os brasileiros é a ideia do mulato, que veio como resultado do longo processo escravista pelo qual o Brasil passou. “A mistura clássica do Brasil é o português com o negro, enquanto no resto da América Latina é o espanhol com o indígena”, diz Maria Cristina.

O termo “latino” data do período posterior às guerras de independência e ganha ênfase nas décadas de 1920 e 1930, quando começaram movimentos de restauração de um estado nacional e quando o povo brasileiro já havia vivido outros processos de miscigenação, principalmente com a chegada em massa de imigrantes italianos e alemães. Tanto na América Espanhola quanto na América Portuguesa inúmeras comunidades indígenas foram destruídas em disputas por território. “Não ter em nós características indígenas significa ter acontecido uma limpeza étnica”, assinala Maria Cristina.

Desde então, muitos acontecimentos modificaram a configuração política e geográfica da chamada América Latina. O Mercosul, por exemplo, foi formado, justamente com o objetivo de aumentar a integração entre países vizinhos. No entanto, hoje se encontra em crise. O bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela (suspensa), apresenta “baixa interdependência econômica e baixo investimento”, segundo o professor de relações internacionais da UnB Roberto Goulart Menezes, em reportagem do Nexo Jornal.

Um dos fatores que vai amarrar a diversidade do continente é a religião católica, traço marcante que os colonizadores usaram de instrumento e que a cultura latina reflete para o resto do mundo. Além disso, na história recente houve, em diferentes países, experiências similares de ditaduras e demandas pela democracia. Nos últimos anos, a luta feminista aumentou seu alcance pelo mundo. Na América Latina, por exemplo, milhares de mulheres se uniram em torno da campanha Ni una menos, que surgiu na Argentina e ganhou apoio de países vizinhos. No Brasil, a deputada federal Maria do Rosário publicou um vídeo demonstrando seu suporte.

Todos esses fatores, mesmo aqueles que hoje estão em decadência, fizeram nascer um sentimento de pertencimento e de irmandade. As razões que fazem o Brasil assumir uma posição mais distante estão relacionados à formação étnica e à língua. “Não me sinto latina em termos da minha aparência, que é mais próxima de árabe, e da minha cultura, por não aderir a boa parte das tradições culturais brasileiras“, diz a estudante brasileira Débora Prudêncio na pesquisa, se referindo à grande miscigenação do Brasil. Isso contribui muito para a reflexão do significado de latinidade. Quando perguntados sobre seus aspectos preferidos da América Latina, aqueles que só poderiam ser experienciados presencialmente, o intercambista mexicano Helioth Serolf, que estuda Turismo na PUCRS, e o colombiano César responderam: danças, comidas e tradições de final de ano como simpatias para o Ano Novo.

Alegres, hospitaleiros, dedicação singela à família. Esses são traços culturais inerentes, inclusive para o Brasil. Contudo, como Bauman dizia, identidade é algo a ser construído ao longo do tempo. “Sim, de fato, a identidade só nos é revelada como algo a ser inventado, e não descoberto; como uma coisa que ainda se precisa construir a partir do zero” (Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar). Em um momento pode significar uma coisa e daqui a alguns anos, outra. O mesmo ocorre com a identidade latina e a mudança de condições e significados é constante. A professora Maria Cristina afirma que “se apegar a alguns desses conceitos pressupõe retomar cargas simbólicas que já foram esquecidas.”

Mas Bauman também diz que há quem defenda essa identidade. César é uma dessas pessoas. “Não tem como duplicar a gente latina, copiar em outras partes do mundo. O sabor, a alegria e as coisas que fazem de nós latinos só estão aqui na América. Nossa gente, nossa história. Nós.”