O brasileiro é pouco solidário, aponta pesquisa

O brasileiro é pouco engajado com as questões do país. É o que aponta um estudo divulgado no último dia 23 pelas Organizações das Nações Unidas (ONU) no Informe Nacional sobre Desenvolvimento Humano da Costa Rica. Segundo a pesquisa, apenas 43,4% da população se envolve em alguma atividade em prol do local que vive, ficando a frente somente da própria Costa Rica (41%) em toda a América Latina. As categorias avaliadas foram associação de pais, comitê para melhorar a comunidade, grupos desportivos ou recreativos, associação de profissionais e partido ou movimento político. Nas duas últimas, estão os piores índices do país, com 7,8% e 7,3%, respectivamente, de participação.

Para o professor de Ciência Política da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Dejalma Cremonese, esses números somente reforçam a ideia que o brasileiro é um povo não solidário: “Cada um de nós procura resolver as suas questões a partir de seus próprios interesses. E releva a um segundo plano a participação mais comunitária”. Segundo ele, esse individualismo é uma herança cultural deixada por Portugal, que possuía uma tradição de resolver seus problemas particularmente. Além disso, Cremonese cita que os portugueses vinham para o Brasil não para colonizar, tal como os ingleses, mas para explorar as riquezas e retornar para sua terra natal e comprar o título de nobre.

O professor do departamento de Ciências Políticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Alfredo Gugliano vai mais além e diz que esse individualismo não é algo exclusivo do Brasil: “Vivemos num modelo de sociedade no qual a vida das pessoas gira, em boa medida, ao redor de relações de consumo. E o consumismo, muito frequentemente, acaba estimulando valores voltados para a satisfação individual, não para o bem público”. Para ele, em um contexto de globalização, o brasileiro é tão individualista quanto qualquer outra nacionalidade.

Estudo é questionado

O resultado desse individualismo acaba refletindo no descrédito que o povo tem com as suas instituições. “A população tem uma grande desconfiança com o Congresso Nacional e os políticos em geral”, comenta Cremonese. Porém, o professor ressalta que demonizar a política é um verdadeiro “tiro no pé” para o desenvolvimento da nação. “Você não têm outros mecanismos na resolução de problemas se não for através do viés político. A política sempre foi à salvação da humanidade”, argumenta. Opinião também compartilhada por Gugliano: “A participação cidadã representa o comprometimento dos cidadãos com a manutenção ou transformação da realidade na qual eles vivem, algo que considero fundamental”.

O estudo da ONU, entretanto, é questionado. Para o professor do departamento de Ciências Sociais da UFSM Reginaldo Perez, adotar critérios de participação para regimes que dependem de representação não seria a melhor alternativa. Para exemplificar, ele cita o caso da Itália e outros países avançados em que há uma pequena atuação da população nos processos eleitorais. “Isso significa ratificação dos valores democráticos ou o seu questionamento?”. Alfredo Gugliano, apesar de concordar que o brasileiro é individualista, também indaga o sistema utilizado: “A caracterização da participação está centrada no envolvimento dos cidadãos em organizações sociais e partidos políticos. É um critério, mas dificilmente hoje se poderia afirmar que uma sociedade é mais participativa do que outra porque as pessoas tem maior envolvimento partidário”.

Reginaldo Perez, contudo, concorda que de fato o Brasil é carente na participação cidadã. Entretanto, a iniciativa das instituições também é insuficiente e é deles mesmos que deveriam ser cobrado essa maior atuação, e não somente dos indivíduos. “Quem controla o poder é o poder. O que deveríamos ter, sobretudo, são instituições proativas de controle”, opina. E quando acontece carência nessa fiscalização, ocorre uma desmotivação que recaí sobre a toda a sociedade: “Há um sentimento de impunidade, de impotência e de incompetência coletiva para esses controles”.

Inclusão pelo consumo

Essa sensação de impunidade e impotência foram um dos fatores que levaram os cidadãos a se mobilizar nas manifestações em junho deste ano, contudo, as revoltas foram uma exceção à regra. “Excepcionalmente, nós temos uma participação da cidadania compensando a carência institucional”, afirma Perez. Entretanto, ele ressalta que quem colocou no poder os políticos reclamados foram os próprios eleitores: “A classe política tem a fisionomia da população. Portanto, se estamos insatisfeitos com a classe política, deveríamos estar insatisfeitos com a população”.

Outro dado que chama atenção no estudo da ONU é que os países com maior participação são o Haiti (91,8%), a Bolívia (84,9%) e a República Dominicana (75,9%), ou seja, nações com democracias mais vulneráveis. Para Dejalma, a explicação desse fenômeno está no sentimento de inserção nesses países: “A participação vem de você se sentir incluído. Na medida em que se sente fora do processo, você desanima”. Ele cita que no Brasil, a inclusão se deu só pelo consumo, como ter uma geladeira ou carro novo, mas que isso não é uma cidadania plena. “Inclusão plena é ter educação e saúde de qualidade, cultura, lazer, e aí você se sente acolhido”, ressalta Dejalma.

A carência de tradição democrática é apontada como a raiz dos principais problemas que afligem o país no campo da cidadania. “Nós estamos aprendendo ainda a atuar num campo democrático”, comenta Perez. O professor acredita que só o tempo irá ajudar a amadurecer mais ainda esse regime, contudo, o maior envolvimento de algumas instituições, como o Ministério Público, e da própria sociedade poderiam atuar como catalisadores nesse processo. Dejalma acrescenta que o Brasil vive uma democracia procedimental, que envolve os meios necessários para implantar esse regime, entretanto, é necessária uma democracia mais cidadã. “Só a partir de uma participação eficiente do cidadão nós teremos maiores e melhores instituições públicas e condições de vida”, finaliza.

Texto: Patricky Barbosa (6º semestre)

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