O estado onde as bolas não ficam no ar

Apesar das boas campanhas, Caxias do Sul Basquete e Vôlei Canoas são forçados a desistir do Campeonato Brasileiro, deixando o estado sem representantes

  • Por: Nícolas Wagner (4º semestre) | Foto: Nícolas Chidem (6° semestre) | 22/11/2018 | 0

Juiz de Fora-MG, 10 de março de 2018

Rodrigo faz uma defesa espetacular. Pedro se desloca e levanta para a ponta. Composto ataca, a bola bate no bloqueio e cai na quadra adversária. Final de jogo, o Canoas vence o Juiz de Fora por três sets a um pela 10ª rodada do 2º turno da Superliga de Voleibol. Os jogadores e a comissão técnica comemoram efusivamente na quadra. Pela 5ª vez em seis anos, o time gaúcho chega às quartas de final da principal competição de vôlei do país.

Atrás da quadra, Gustavo Endres, multicampeão pela Seleção Brasileira de Vôlei, vibra muito. Gerente geral do Vôlei Canoas, ele faz parte do projeto quase desde seu início, em 2012. Foram três anos como atleta e, desde que anunciou a aposentadoria, em 2015, vem trabalhando na diretoria do clube. Excetuando o título da Superliga B logo no primeiro ano profissional da equipe da região metropolitana de Porto Alegre, Endres fez parte, direta ou indiretamente, de todas conquistas do Vôlei Canoas: foram cinco títulos gaúchos, além de classificações que oscilaram sempre entre o 6º e o 9º lugar na Superliga.

Endres vibra porque sabe das dificuldades enfrentadas pelo clube na temporada 2017/18. Mas o esforço para evitar o rebaixamento e se classificar entre as oito melhores equipes do Brasil foi por água abaixo pouco tempo depois. Dia 15 de junho, três meses e cinco dias após a vitória em Juiz de Fora, o Vôlei Canoas anunciou que não participaria da edição 2018/19 da Superliga por falta de recursos para quitar o débito da temporada anterior.

“Foi muito frustrante, um baque muito grande para a gente”, comenta Endres. “O sentimento era de largar tudo”.

Caxias do Sul-RS, 5 de abril de 2018

Cafferatta recupera a bola. Ele passa para o norte-americano Warren, que a larga para Cauê Borges. O ala-armador arrisca de três. A bola cai. O lotado ginásio do Vascão explode de alegria. A 37 segundos do final do jogo, o Caxias do Sul Basquete abre 16 pontos de vantagem sobre o Botafogo – 80 a 64. Os últimos lances são protocolares. A equipe gaúcha fecha a série de melhor de cinco jogos em três a 0 e avança às quartas de final do NBB, o principal campeonato de basquete do Brasil.

É o melhor desempenho de um time do Rio Grande do Sul em mais de duas décadas, desde que o Corinthians, de Santa Cruz do Sul, conquistou o vice-campeonato nacional em 1997. A classificação ainda dará ao Caxias o direito de disputar a Liga Sul-Americana de Basquete, a Libertadores da modalidade.

É a realização de um sonho para Rodrigo Barbosa, técnico e fundador da equipe, em 2006. Barbosa esteve à frente de todas conquistas do Caxias do Sul Basquete: da Liga Ouro (segunda divisão do Brasileiro), em 2015, e dos seis títulos gaúchos, além das participações no NBB de 2015/16 a 2017/18.

Mas a alegria do treinador, da torcida e de todos que trabalhavam em prol do Caxias Basquete durou pouco. Faltando um dia para completar quatro meses da vitória histórica contra o Botafogo, a euforia se transformou em frustração: no dia 4 de agosto o clube anunciou que não participaria da temporada 2018/19 do NBB por falta de recursos financeiros.

“Foi decepcionante para mim, que fundei o clube”, lamenta Barbosa. “Trabalhei a minha vida toda com basquete, sei do tamanho do feito que a gente conseguiu, de colocar onde colocamos Caxias, uma cidade do interior que não tinha muita tradição nesse esporte”.

Estado sem cultura esportiva

Vôlei Canoas e Caxias do Sul Basquete eram os únicos representantes gaúchos na Superliga e no NBB, respectivamente. Ambos entraram para a longa lista de equipes de basquete e vôlei do Rio Grande do Sul que foram obrigadas a desistir ou dar um passo atrás em seus projetos por falta de recursos.

Após os anos dourados da década de 1990, em que o estado abocanhou três títulos nas cinco primeiras edições da Superliga – com a Frangosul/Ginástica, de Novo Hamburgo, na temporada 1994/1995 e com a Ulbra, de Canoas, nas edições de 1997/98 e 1998/99 -, o vôlei gaúcho ainda se manteve bem representado no cenário nacional nos anos 2000, quando chegou a ter quatro equipes disputando a Superliga simultaneamente – Bento Vôlei, de Bento Gonçalves, UCS, de Caxias do Sul, Ulbra, de Canoas, e On Line, de São Leopoldo. Mas a década atual tem sido preocupante. Enquanto o Vôlei Canoas conseguiu participar de seis edições consecutivas do principal campeonato nacional da modalidade, Bento Vôlei e Voleisul, de Novo Hamburgo, chegaram a conquistar a Superliga B e participar por dois anos da Superliga A. Sem renovação dos patrocínios, contudo, foram obrigados a fechar seus departamentos profissionais.

No basquete, o cenário é ainda pior. Ao todo, 34 equipes de 11 Estados já participaram do NBB desde sua primeira edição, em 2008/09. Dentre elas, somente duas gaúchas. Além das três participações do Caxias do Sul Basquete, entre 2015 e 2018, o Ceat/Bira, de Lajeado, ficou em último lugar no NBB 1. Contexto que, assim como no vôlei, em nada lembra os áureos anos 90, quando o basquete gaúcho conquistou o Brasil com o Corinthians, em 1994, além dos vice-campeonatos do time de Santa Cruz do Sul em 1996 e 1997. Desde 1993, quando o Corinthians teve a companhia da Sogipa, de Porto Alegre, em nenhuma ocasião mais de uma equipe gaúcha participa do Campeonato Brasileiro de Basquete em simultâneo.

“Fora do futebol, nosso estado, infelizmente, não tem uma cultura de incentivo ao esporte”, avalia Rodrigo Barbosa. O técnico lamenta o fato de que a campanha expressiva do Caxias do Sul Basquete no NBB 2017/2018, a qual incluiu presença média de 1.140 pessoas por jogo (com a maior porcentagem de ocupação do ginásio entre todos participantes) e transmissões na televisão aberta e fechada, não foi suficiente para atrair os investimentos que seriam necessários para a continuidade do time: “O retorno [dos investimentos] foi muito expressivo na última temporada, e mesmo assim não conseguimos despertar nos empresários a vontade de participar de um projeto desses”.

O principal inviabilizador da sequência do Caxias foi a perda do patrocinador master do clube, o Banrisul, que era parceiro do projeto desde 2012. Em função da indecisão imposta pelo período eleitoral, o banco instaurou uma série de regras que limitaram os investimentos e fizeram com que não fosse renovado o apoio ao Caxias. Outro patrocinador do clube na temporada 2017/18, a Faculdade da Serra Gaúcha foi vendida a um grupo de São Paulo, que não avaliou a proposta de apoio ao time caxiense com o mesmo carinho dos antigos donos.

Além de lamentar o azar que o clube teve com esses parceiros, Barbosa critica o fato de o poder público não fazer investimentos adequados em esporte do Rio Grande do Sul: “Não há nada a nível de estado e município que sirva como um incentivador. Nosso estado não realiza políticas nesse sentido [apoio ao esporte], e se realizam é muito mais na formação do que no alto rendimento”. Mesmo ciente da crise financeira pela qual o RS passa, o técnico do Caxias usa o argumento do número total de equipes que participam dos campeonatos brasileiros de vôlei e basquete, tanto no masculino quanto no feminino – são 47 times de nove estados brasileiros, nenhum gaúcho: “Se há 47 equipes no Brasil e não tem nenhuma do Rio Grande do Sul, não é porque não tem dinheiro”.

Os problemas financeiros que acarretaram a desistência do Vôlei Canoas da Superliga surgiram justamente do corte da verba vinda do poder público. Mais especificamente, da prefeitura de Canoas. O valor de R$ 990 mil que havia sido acertado para a temporada 2017/18 foi reduzido para R$ 540 mil e depois cortado. Para participar da edição 2018/19 da Superliga, os clubes deveriam ter quitado todos débitos da temporada passada até o dia 15 de junho. Na época, o Canoas havia recebido apenas R$ 180 mil da prefeitura, o que impossibilitou o pagamento do salário dos atletas e dos demais gastos.

A situação frustrou ainda mais o gerente Gustavo Endres porque a prefeitura era o parceiro mais confiável. Por outro lado, ela fez Endres e a diretoria do Vôlei Canoas repensarem as estratégias para captação de recursos no futuro, voltando-se mais para a iniciativa privada. “Na iniciativa pública há o risco de depender de uma aprovação ou de uma mudança de gestão. Pode chegar um cara que não gosta de esporte, que dá prioridade para outras áreas”, analisa Endres. Ele exemplifica: “com o Jairo Jorge [prefeito de Canoas de 2009 a 2016] tínhamos uma parceria muito bacana, muito próxima. Com o Busato [Luiz Carlos, atual prefeito], a parceria até começou bem, mas acabou terminando não tão bem. Então, botamos como meta tentar não precisar mais de verba pública”.

Prejuízo para os atletas

Além do entretenimento e da oportunidade de ver grandes jogos que os gaúchos fãs de esporte deixam de ter, o prejuízo de não haver times do Rio Grande do Sul na elite nacional do vôlei e do basquete descamba principalmente nos atletas. Tanto nos adultos que, com o mercado limitado, por vezes acabam até mesmo abandonando a carreira, quanto nos jovens, que desistem de se profissionalizar devido à ausência de referência e à necessidade de migrar muito cedo para outro estado.

Impulsionados pelas boas campanhas na Superliga e no NBB da temporada 2017/2018, a maior parte dos jogadores do Canoas Vôlei e do Caxias do Sul Basquete conseguiram contratos com outros clubes de ponta. Por exemplo, o oposto e maior pontuador do Canoas na última temporada, Abouba, foi para o Funvic/Taubaté, onde atua ao lado de nomes como Lucão e Lucarelli. Já Cauê Borges, ala-armador e cestinha do Caxias no último NBB, disputa a atual edição da competição pelo Botafogo.

No entanto, dois atletas de cada uma das duas equipes não conseguiram mercado e pararam de atuar profissionalmente. No Canoas, um deles é o líbero Lucas Pallotti. Aos 26 anos, ele estava na expectativa de receber propostas de outros times da Superliga A. Contudo, só recebeu ofertas de uma equipe da segunda e outra da terceira divisão da Superliga, o que o fez optar por permanecer em Canoas, onde cursa o último semestre de direito na Universidade La Salle.

“Eu me frustrei um pouco. Mas minha posição é bem complicada, porque é um ou dois por time, e eles não vão gastar dinheiro com dois líberos – vão investir em um experiente e um moleque”, explica Pallotti. Ele confessa que a dificuldade da profissão o fez planejar bem seus passos. “Meus planos sempre foram ficar por aqui, esperar me formar e depois ficar mais tranquilo em relação à carreira. O vôlei é assim, a carreira é uma incógnita, e depender somente disso é bem ruim”.

Pallotti fala com conhecimento de causa, uma vez que já viveu experiências difíceis em outro estado. Em 2009, aos 17 anos, ele foi atuar em Pindamonhangaba-SP, onde iniciou recebendo apenas 100 reais por mês: “Se não fosse meus pais me ajudarem, não conseguiria nem me manter”. Além disso, o líbero precisou morar em uma República com condições precárias ao lado de vários outros companheiros de time. Depois de dois anos em Pindamonhangaba, Pallotti ainda atuou por mais uma temporada em Itapeva, também interior de São Paulo, em experiência que ele considerou mais agregadora, antes de voltar em definitivo para Canoas.

Diante desses sacrifícios, os problemas decorrentes da ausência de equipes de elite no Rio Grande do Sul se tornam ainda mais graves. “O prejuízo é grande” reconhece Pallotti. “Meu irmão joga na categoria de base do Canoas, e eu vejo que a gente [atletas do time profissional] sempre foi um norte para os guris”. Ele garante ter receio quanto ao futuro dos novos talentos do vôlei gaúcho. “Eu vejo muitos guris bons que futuramente não vão jogar, porque não é todo mundo que quer sair de casa. E também não são todos pais que deixam o filho ir para São Paulo ver no que dá”.

Rodrigo Barbosa corrobora a ideia de Pallotti, embora acredite que o basquete gaúcho não irá parar de produzir grandes atletas. “O Rio Grande do Sul sempre teve muito basquete de base. Mas com uma equipe profissional, se vê nos jovens atletas um sonho, uma possibilidade de crescimento que sem essa equipe fica muito difícil de se visualizar”. Ele acrescenta citando o quanto lhe chamava atenção o envolvimento das crianças e dos adolescentes com os atletas após as partidas. “Tu cria uma relação muito próxima. Nossos atletas da base, que hoje são 170, se sentiam mais motivados para treinar e quem sabe um dia se tornarem profissionais”, conclui Barbosa.

O futuro

As diretorias do Caxias do Sul Basquete e do Canoas Vôlei lutam bastante para que a saída da principal divisão brasileira de suas modalidades seja apenas um passo atrás, e não o fim. Quem parece mais encaminhado naquele caminho é o Canoas. O clube já confirmou a participação na Superliga B, que deve iniciar em janeiro de 2019. Uma das cláusulas para inscrição na competição era a assinatura dos atletas da temporada anterior, garantindo que receberam ou vão receber todos salários. “Conversamos com os atletas, e eles aceitaram muito bem. A possibilidade de conseguir os recursos jogando é muito maior do que só esperando rolar o inquérito da prefeitura de Canoas”, explica Endres.

O clube segue na busca de parceiros. Nas redes sociais, foi lançada a hashtag “#salveovôleigaúcho” para incentivar possíveis patrocinadores. Até agora, o clube conta com o suporte de algumas empresas privadas e de leis do incentivo ao esporte. Há um encaminhamento com o Banrisul, em cujo edital a equipe já aparece – resta iniciar as negociações para ver qual será o valor do patrocínio. Também houve a alteração do nome da entidade, que voltará a se chamar APAV (Associação de Pais e Amigos do Voleibol). O argumento principal é o de mostrar que o clube não representa apenas a cidade de Canoas, mas o Estado como um todo. Internamente, também há o comentário de se desvincular ao nome do município pelo fato de a prefeitura do mesmo ter deixado o projeto na mão.

No Caxias do Sul Basquete, a situação é mais delicada. Atualmente, o clube participa do Campeonato Gaúcho basicamente com atletas da cidade. Rodrigo Barbosa afirma que, para a equipe profissional voltar ao cenário nacional, é preciso um investimento certeiro, “que dê para disputar a Liga Ouro e, subindo, se manter no NBB. Se não houver uma garantia, corremos o risco de acontecer a mesma coisa deste ano”, explica o treinador.

Nessa luta diária, Barbosa, Endres e as diretorias de Caxias e APAV tentam fazer com que o Rio Grande do Sul tenha bolas no ar no presente e no futuro, e não somente no passado.

Deixe um comentário