O mundo sem telas

A sobrancelha bem desenhada, o sorriso alinhado e o cabelo negro impecável não parecem de uma mulher que há 12 anos fugiu da guerra no Afeganistão. Roquia Atbai, 44 anos, é falante, vaidosa, com unhas e lábios pintados.

O perfil de mulher moderna foi também o motivo que a trouxe para o Brasil. Roquia se recusou a usar a burca que cobre todo o rosto. Recusou-se a ver o mundo por uma tela – o que gerou intolerância da comunidade religiosa Talibã, que comandou o Afeganistão nos anos 2000 e impôs o uso da burca no país. A Organização das Nações Unidas (ONU) trouxe dezenas de refugiados para o Brasil. “Quando a guerra começou, não sabíamos para onde iriamos, a ONU só pediu que arrumássemos nossos pertences para sair logo de lá” conta. No Brasil, Roquia pode andar com as roupas que gosta, e com o comprimento que ela achar melhor. “Isso me faz muito feliz”, comemora. A diferença entre a cultura do Oriente Médio e de Porto Alegre não agradou tanto o ex-marido, Abdul Atbai, que voltou para a terra natal – mas Roquia prefere não falar sobre o assunto.

Ela e os três filhos – Omar, 13 anos, Farhad, 19, e Malik, 20 – resolveram ficar. Ela garante que das seis famílias de afegãos que vieram para o Porto Alegre em 2002, só sobrou ela e seus filhos. “A vida é muito difícil para os afegãos aqui, difícil de aprender o português, difícil de conseguir trabalho”, lamenta. Formada em Pedagogia, trabalhava como professora da 7ª série do Ensino Fundamental no Afeganistão. “O ensino aqui é parecido com o de lá, dividido em ensino fundamental e médio”, explica. Pouco antes de vir para o Brasil, durante seis anos, Roquia estudou estética em Nova Dehli, na Índia – onde aprendeu a técnica de depilação que utiliza em Porto Alegre.

Roquia trabalha em um famoso salão de beleza da capital gaúcha, no bairro Petrópolis, como depiladora. Ela conquistou centenas de clientes na capital com a técnica do fio de seda. O produto, importado da Índia, remove os pelos através de uma técnica em que Roquia usa a boca para segurar uma das pontas do fio e trabalha com as duas mãos na outra ponta. Além da sobrancelha, o fio de seda também remove pelos de qualquer parte do corpo – buço, rosto, pernas. Roquia garante que é a única profissional no país que utiliza a técnica com o fio importado. “Os profissionais daqui costumam utilizar o fio de costura”, explica. Atrizes, cantoras e modelos fazem a sobrancelha com fio – de costura ou de seda – o que ajudou a popularizar a técnica.

“Comecei a trabalhar em um salão menor, e hoje trabalho em um maior, das 9h às 22h. O movimento é grande, mas as clientes vêm porque me conhecem, não tanto por causa do salão”, revela, sem falsa modéstia.

Com o trabalho garantido, a parte mais difícil da adaptação foi aprender a falar português. Roquia ainda desconhece algumas palavras e tem dificuldades na escrita, além de trocar o gênero dos substantivos e adjetivos – fala “na banheiro”, por exemplo. A depiladora mantém no Brasil tradições que trouxe do Afeganistão. “Faço as comidas que gostava de comer lá e rezo nos mesmo horários”, conta. Ela pretende voltar ao Afeganistão, pelo menos para visitar a família e os amigos. “Sinto saudades”, diz.

Número de refugiados no Brasil triplicou de 2012 para 2013

Em 2013 foram expedidas 649 autorizações de refúgio para estrangeiros no Brasil, e em 2012, foram 199. Roquia é uma das 5.208 pessoas atualmente nesta situação no país, de 79 diferentes nacionalidades – os dados são do Comitê Nacional de Refugiados (Conare) do Ministério da Justiça.

Do total de pessoas para as quais foi concedido refúgio no ano passado, 283 tem a Síria como origem, o que representa 43,6%. Essas pessoas fugiram da guerra civil, o que justifica o aumento no número de refugiados que vieram para o Brasil.

Em nível nacional, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) trabalha em parceria com órgãos do governo prestando assessoria técnica e providenciando informação dos países de origem dos refugiados. O representante do ACNUR no Brasil, Andres Ramirez, afirma que o acesso à documentação não é o principal problema “O processo, às vezesa é complicado, mas normalmente se consegue resolver. O principal problema é o tema do emprego e da moradia, que tem sido recorrente”, explica. Ramirez afirma que a situação está em pauta e que a ACNUR tenta trabalhar com o governo uma solução para a falta de emprego e moradia.

O refúgio é um direito de estrangeiros garantido por uma convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) de 1951 e ratificada por lei no Brasil em 1997.

Assistência para os refugiados no Rio Grande do Sul

Criado em 2007, o Grupo de Assessoria a Imigrantes e Refugiados (Gaire) – faz parte do Serviço de Assessoria Jurídica Universitária (SAJU) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). O grupo inclui estudantes e profissionais que vão além da universidade.

O monitor do Gaire, David Reis, diz que o grupo foi criado para dar apoio a pessoas que vem para Porto Alegre como refugiados. “A proposta é ajudar

essas pessoas que vem de outros países, em situação de alta vulnerabilidade e que se deparam com uma cultura totalmente diferente”, explica. Além de assistência jurídica, o grupo também presta assistência psicológica e social.

O Gaire atende pessoas de diversas nacionalidades que solicitam ou já possuem o status de refugiados. “Já foram atendidos afegãos, cubanos, colombianos, nacionais de Cabo Verde, Argélia, e vários outros”, afirma Reis. Ele diz que as dificuldades de integração dos refugiados são grandes, devido à diferença nos costumes, “mas ultimamente temos observado uma integração bem positiva dos refugiados”, garante.

Entenda as diferenças

Refugiados

Refugiado é todo aquele que foi forçado a abandonar o país de origem para preservar a sua vida e a de sua família, por temores de perseguição causados por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas.

Apátridas

Um apátrida é um indivíduo que não é titular de qualquer nacionalidade, ou seja, é uma pessoa que não é considerado nacional por qualquer Estado. Essa condição ocorre, por exemplo, quando um Estado deixa de existir e não é substituído por nenhum outro ou o Estado ocupante não reconhece determinado grupo de pessoas como seus nacionais. São também apátridas as pessoas pertencentes a minorias étnicas nascidas no território de Estados cujas leis não atribuem nacionalidade a tais grupos.

Imigrantes

A imigração é o movimento de entrada em um país, podendo ser permanente ou temporária, com a intenção de trabalho e/ou residência.

Repatriado

Repatriado é aquele que retornou a pátria por vontade própria ou por obrigação.

Texto: Bruna Gassen (7º semestre)

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