O preço de ser Cinderela por um dia

Com vinte e poucos anos, Cleo Haussen, fascinada com os vestidos expostos em uma vitrine, entrou na loja de noivas e observou a falta de delicadeza com que as vendedoras atendiam a cliente. Não parecia natural para ela que um vestido de noiva fosse considerado apenas um produto comercial. Naquele momento se manifestou um dom que, mais tarde, se tornaria uma carreira. Hoje, ela é gerente da elegante Inês Noivas, uma das mais tradicionais boutiques elitizadas de Porto Alegre, que surgiu na década de 70.

O orçamento das consumidoras da Inês Noivas varia de 30 mil, para casamentos modestos, à 250 mil ou mais, para festas exuberantes. Assusta muitas pessoas o fato de a celebração mais simples custar o valor de um carro popular. Porém, uma cerimônia envolve muitas minúcias a serem pagas: aluguel do local, decoração, alimentação, bebidas, vestuário, música, fotografia, filmagem, papelaria, lembranças, oficialização civil, transporte, organizador e detalhes diversos.

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Com o desejo de não desembolsar mais que 30 mil, Xaiane Jaensen voltou à loja pelo segundo dia consecutivo. Não lhe saía do pensamento um vestido digno de princesa de conto de fadas que havia experimentado no dia anterior. Logo ela, que queria um traje bem simples. Depois de dez anos de namoro, a decisão de formalizar a união foi rápida. Em duas semanas, o casal já havia comprado as alianças e marcado a data da festa. A mãe observava com orgulho a jovem de 28 anos experimentar diferentes tipos de véus. O atendimento personalizado parece fazer a diferença. Além das sugestões de modelos de vestidos, a noiva ainda recebe dicas de como caminhar ao altar, que altura de salto usar, que presilha colocar no cabelo.

“O essencial é ela sair daqui certíssima de que fez a escolha certa e que não quer olhar mais nem um vestido sequer. Por isso esse atendimento demora uma hora e meia, duas horas”, diz Cleo. Tantos anos lidando com noivas acumulam também muitas histórias. “A loja na qual eu trabalhava em São Paulo estava prestes a fechar, às nove horas da noite, e entrou uma noiva desesperada, que tinha feito um vestido sob medida na loja ao lado e detestou. Implorou para que ajudássemos. Isso era uma quarta-feira, ela viajava na sexta para a Venezuela e casava no sábado. Aí foi aquela correria. Fiquei até uma e meia da manhã ajeitando o vestido e, no outro dia, ela foi pegar”, conta.

Entretanto, a tradição tem um preço. A Inês Noivas lucra com locações, apesar de não excluir as vendas de seus ganhos. A primeira locação de um vestido recém-importado da Europa custa entre quatro e sete mil reais. Cleo afirma que tem uma sala-cofre cheia de vestidos dessa categoria, ou seja, a noiva paga mais para que seja a primeira a utilizar o modelo. Para alugar um vestido que já foi usado antes, desembolsa-se de dois a quatro mil. Para ter o traje para sempre, deixa-se no caixa dez mil reais ou mais. É o preço do conto de fadas.

Na televisão paga, dois programas praticamente iguais retratam a importância do momento de escolha do traje para o casamento: O Vestido Ideal, no canal Discovery Home & Health, e Say Yes to the Dress, no canal E! Entertainment Television (links). A mídia confirma o que Cleo explica. “Eu lido com o encantamento, e não com a venda.” O sonho de casar permanece firme e forte na cultura gaúcha. “O pessoal aqui do Rio Grande do Sul é mais conservador, ainda casa com o intuito de ficar junto e formar família. Em São Paulo, por exemplo, é banal, as pessoas casam, se divorciam e casam de novo”, comenta. De fato, o índice de divórcios no Brasil é o maior desde 1984, segundo contagem do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010.

A razão de maio ser o mês das noivas é uma tradição dos países do hemisfério norte, onde a época é de primavera, de flores, de homenagem à beleza da natureza. Ao longo dos séculos, esses elementos foram associados à celebração do amor. Também há relação com o fato de maio ser o mês das mães e de Maria. No Brasil, porém, outros momentos são mais populares para matrimônios. Dezembro já foi apontado como o “novo maio” por ser o mês do 13° salário, uma verba extra para aplicar à festa. Agora, o modismo recai em setembro, por causa do clima agradável, segundo Gabrieli Chanas, jornalista do blog Noiva.com (link).

Texto: Shaysi Melate

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