O ritmo do jogo

O espetáculo de uma partida de futebol é como um filme. Vinte e dois atores em campo buscam a melhor atuação para obter reconhecimento de público e crítica. O clímax é o gol, a obra-prima do jogo. A trilha sonora, elemento indispensável, é realizada pela torcida. Seus compositores são anônimos apaixonados em meio à multidão de vozes que lotam estádios por todo o Brasil. Nesse contexto, a canção não é mera alegoria, mas sim protagonista de um novo modo de torcer.

“É uma novidade nos estádios, um novo padrão de torcer, no qual os cantos têm função de sociabilidade. São estrofes curtas com melodias fáceis que permitem o interativo individual, convidando o torcedor a participar”, explana o antropólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Édison Gastaldo.

Para os torcedores que compõem as canções de Grêmio e Internacional, o processo de criação é um serviço filantrópico: doam empenho e criatividade sem almejar crédito. Ouvir suas músicas entoadas por milhares de pessoas que compartilham a mesma paixão é a única recompensa.

Autor de Camisa vermelha, uma das músicas mais entoadas pelos colorados, Endrigo Giacomin entende que o coro é fundamental dentro dos estádios. A canção, adaptada de um sucesso dos Mamonas Assassinas, banda brasileira dos anos 1990, nasceu em um bar próximo ao estádio Beira-Rio. “Um amigo disse que seria legal se todos cantassem a estrofe Você me deixa doidão, e eu fiquei com aquilo na cabeça. Mamonas é algo que ninguém espera ouvir dentro do estádio. Fiquei duas semanas pensando na letra e, quando terminei, apresentei para alguns integrantes da torcida que aprovaram e publicaram no site. Para minha felicidade, pegou”, orgulha-se.

Bebendo vinho, single cativo na setlist das partidas na Azenha, também foi criado de forma espontânea. Seu mentor, que prefere não ter seu nome divulgado, ressalta a informalidade da criação. “Estávamos em um churrasco antes do jogo vendo o DVD Acústico MTV Bandas Gaúchas e, enquanto assistíamos ao show do Wander Wildner, o refrão nos chamou atenção. Após passar o verão pensando e adaptando a letra, levei a canção pronta e impressa em 60 papeizinhos para distribuir em um bar antes de um jogo da Copa do Brasil de 2006. Foi a primeira vez que a cantamos no estádio”, relata o torcedor.

André Damiani, influente integrante da Geral do Grêmio, discorre que, apesar de muito trabalho, algumas músicas não vingam. “O melhor jeito de disseminar é cantar no bar, no intervalo ou final do jogo, e ver a aceitação que o pessoal vai ter. Muitas vezes não dá certo. Devem ter mais de trinta músicas que não deram certo”.

Canto e apoio

Para além dos concretos armados dos estádios, os cantos de incentivo ganharam status profissionais. A banda Ataque Colorado, formada em 2005 por músicos identificados com o Internacional, trata de levar músicas cantadas pelos torcedores no Beira-Rio para rincões onde haja colorados. “Não queremos dinheiro. Nossa missão é pulverizar as canções da arquibancada, levando-as para cidades onde tenham consulados do Inter. Também acontece o contrário, de composições nossas serem cantadas pela torcida. Um exemplo é a música do Guiñazu”, pontua Kako Kanidia, baixista do grupo. “Nossa inspiração são as conquistas do clube, e muitas vezes fizemos composições especiais para algum jogador que se destaca e que tem identificação com o clube e com a torcida”. Bolívar e D’Alessandro estão entre os atletas homenageados pela trupe.

As vozes que entoam melodias de apoio transpassam a barreira física imposta pelo fosso e adentram o gramado, tendo desdobramentos práticos, principalmente na moral dos atletas. Sobre a força do elemento musical, o jovem zagueiro tricolor Saimon avalia como “um diferencial para a equipe do Grêmio, principalmente no Olímpico. Todo o jogador, quando entra em campo e vê aquela torcida cantando e gritando, sempre pensa que não tem como não se doar ou se dedicar”. Ídolo da torcida colorada, o volante Guiñazu confessa que “essa é a parte linda do futebol, a parte mais emocionante. O resultado pode ou não chegar. Com esse canto, esse apoio, eles (torcedores) resgatam nosso máximo. É quando o jogador deixa um pouco mais do que a vida para conseguir uma bola”.

Assista depoimentos de Guiñazu e Saimon:

Ao longo da história do futebol brasileiro, as torcidas apresentaram características e comportamentos diversos. Na década de 1940 nasceram as uniformizadas. As agremiações precursoras foram a do Internacional, comandada por Vicente Rao – Rei Momo de Porto Alegre por 22 anos, um dos fundadores da primeira torcida organizada do Rio Grande do Sul e idealizador das escolinhas de futebol do clube colorado – e a Charanga do Flamengo, criada pelo baiano Jaime de Carvalho, em 1942. Carvalho foi o pioneiro em organizar torcedores, sendo nomeado como líder da torcida brasileira nas Copas do Mundo de 1950, 1962 e 1974. Cada clube passou a ter também um chefe de torcida, que era uma figura carismática. Os grupos carnavalizaram as arquibancadas com banda, marchinhas, foguetes e confetes – uma inovação para os anos 1940.

A ascensão da juventude e sua rebeldia nas agremiações políticas e sociais nos anos 1960 provocaram desdobramentos futebolísticos com o aparecimento das torcidas jovens. Com isso, surge a concepção institucional das torcidas organizadas, que possuem registros, constituindo-se como clubes dentro do clube. O professor da UFRRJ Édison Gastaldo ressalta que essa nova geração de torcedores queria protestar frente às atuações da equipe no estádio, possuindo uma postura mais crítica do que suas antecessoras.

O historiador Bernardo Buarque de Hollanda, que leciona na Fundação Getúlio Vargas, pontua as modificações do período: “No final dos anos 60, como não dependiam mais das torcidas oficiais e da diretoria dos clubes, as torcidas jovens fizeram críticas e protestos, reproduzindo no futebol a mesma contestação juvenil da música, do teatro e das artes, e tinham para isso o apoio da imprensa. O elo de fidelidade com os clubes se quebrava”. A estrutura musical dentro dos estádios também se alterou, a ideia do coro, do canto coletivo, ganhou força. Nos instrumentos, caíram os pratos e sopros e ficaram a percussão e a bateria.

O novo padrão brasileiro é visto como uma retomada ao passado. “É muito positivo o aparecimento de torcidas que se inspiram na Charanga. Trata-se de uma reinvenção das tradições, um movimento antitorcida organizada que se distingue pelo apoio incondicional através do canto. Cantos que rejeitam a simples ofensa”, aduz Buarque.

O professor observa que o aumento da violência entre torcidas e a demonização dos grupos pelo governo e pela imprensa ao longo das décadas de 1980 e 1990 fizeram nascer um novo fenômeno dentro dos estádios. Os especialistas as denominam como torcidas informais, pois não possuem organização institucional, uniforme ou carteirinha. Para Gastaldo, a atual configuração das torcidas brasileiras é influência das Barras Bravas, movimento de torcedores proveniente do Uruguai e da Argentina, onde não há uniformes próprios e sistema de associação. Em essência, incentivam e pulam o tempo todo, independentemente do que ocorra dentro de campo.

Esta nova maneira de torcer enche os estádios brasileiros e espetaculariza as arquibancadas ao unir paixão, criatividade e música. No atual contexto, em que o esporte bretão é apenas mais um ramo da indústria do entretenimento, o torcedor consolida-se como último bastião do amor à camiseta.

Texto: Felipe Martini e Igor Grossmann.

1 comentário

  • Óimo texto!

    Faz um tempo que eu pensava que tava demorando para que alguém que vivesse as arquibancada, escrevesse algo bom e embasado sobre essa especie de revolução que começou nas nossas arquibancadas há mais de dez anos. Baita!

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