O tricô do século 21

Ao contrário do que antes se imaginava, tricotar deixou de ser exclusividade de nossas avós. Agora, essa técnica vem ganhando status hype e servindo de hobby e plataforma de trabalho para jovens. Engana-se quem pensa que o resultado disso é careta ou sem graça. Além de super quentinhas, as peças protagonizam looks que são pura modernidade. Estilistas reintroduzem esses elementos que sempre esteve na moda, mas que cairam no esquecimento, de forma nada caricata.

De confecção 100% artesanal – ou produzidos industrialmente, mas sem perder a cara de feito à mão – o tricô e o crochê conferem uma despretensão sofisticada ao look. No entanto, esqueça o mood romântico que remetem a cenários bucólicos, o tricô e o crochê agora são uniforme urbano.

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O imaginário saudosista do tricô, assim como outros trabalhos manuais, está presente na vida de várias mulheres. Um belo exemplo disso é o trabalho Helga Kern, estilista da Hola Que Tal. Ela começou sua marca inspirada em uma herança emotiva. “Minha avó e minha mãe sempre tricotaram. Durante a infância nós viajávamos constantemente ao Uruguai e em Rivera minha mãe comprava lãs para os blusões que planejava tricotar. Tenho até hoje a lembrança visual de como eram as lojas de lãs daquela cidade, as mesclas de cores e fios.” A Hola Que Tal é, então, a realização de uma vontade antiga de Helga e da sócia, Elizabeth, de desenvolver peças em tricô manual que portassem toda essa carga cultural.

A história familiar também foi o grande incentivo de Rafaela Tomazzoni. A estilista da Friolã nasceu dentro da fábrica, pois a empresa começou com seus pais há 40 anos. “É impossível não ser atingida pelo ‘vírus’ da malharia retilínea (tricô)”, brinca. A estilista se encantou pelo trabalho ao perceber que há a possibilidade de criar desde nas escolhas de fios e cores, composição de texturas, construção de formas e aplicação de adereço. Além da técnica, presentes no DNA da familia, a estilista desenvolveu suas habilidades criativas a partir do curso de Moda & estilo da Universidade de Caxias do Sul (UCS) – onde se formou na primeira turma.

As peças são femininas com caráter quase poético e, é claro, com identidade única. Para criar essa atmosfera, referências não faltam. “A vida é minha fonte de inspiração inesgotável. Meu processo criativo se alimenta do tangível ao abstrato”, explica Helga. Na escolha de seus ícones de estilo, Rafaela busca referências antigas. “Para mim, há três grandes nomes, apesar de estilos bem diferentes: Paul Poiret, pela exuberância, sofisticação e inovação no início do século XX; Coco Chanel, obviamente, pela revolução que causou na moda feminina e que até hoje é consagrada pelo seu estilo; e Audrey Hepburn, que apesar de não ter sido uma designer, soube ‘carregar’ uma roupa absolutamente desafiadora e elegante para os padrões americanos nos anos 1950.”

Se engana quem pensa que a mulher que busca peças de caráter artesanal é interiorana ou conformista com relação às escolhas que compõem o look. Quem procura esse tipo de roupa são mulheres cosmopolitas e dinâmicas que não querem seguir um padrão ou estar vestidas como a multidão. “Na vida delas, há lugar para o novo e para peças de qualidade!” explica Rafaela. Já a dona da Hola Que Tal vê sua cliente como uma mulher que valoriza a qualidade e a exclusividade, que cansou do tricô feito em série.

Mas afinal, qual a diferença entre o tricô de ontem e o de hoje? O hype parece não ser o grande foco de quem cria. “O que transforma em cool é o olhar de quem observa. Quem tem esse estigma como referencial não conseguirá enxergar nada além disso”, ensina Helga. As técnicas são as mesmas desde a época das nossas bisavós. “O que muda são as novas experimentações, que podem gerar resultados bem diferentes, tais como: mistura e uso de materiais inusitados, composições mais novas e mix de técnicas na mesma peça”, diz Rafaela que, no mês passado, deu algumas aulas na UCS para uma turma de 16 artesãs. “Todas dominavam as mais diferentes técnicas, como crochê, tricô, bordado, macramé etc. O objetivo delas era ‘enxergar’ maneiras contemporâneas de aplicar seus conhecimentos em peças comercias! Foi fantástico e o resultado surpreendente”, conta.

O tricô confere uma aura especial as peças, que passa pelas mãos e o sentimento que a produziram. “Nós, que temos acesso à mais alta tecnologia em máquinas de tear, temos a consciência de que uma peça tecida à mão carrega toda a energia daquela pessoa que a produziu. Sem falar na riqueza de pontos, que apenas a mão do homem consegue criar!” relata a estilista da Friolã, que se autointitula “amante incondicional das agulhas”. O amor pela técnica é tamanho que a jovem resolveu alçar voo solo, desenvolvendo uma marca que leva meu nome, com a intenção de justamente criar peças ainda mais especiais. Ou seja, apesar da cara artesanal, a produção das peças pode passar por processos bem diferentes.

A Hola Que Tal tem uma proposta de produção diferente. As sócias desenvolvem as peças de forma absolutamente manual. E, como o de qualquer produto artesanal, o valor da mão de obra é o principal elemento no custo de cada peça. Ainda assim, há casos em que o valor do material supera o da mão de obra. “Como, por exemplo, quando usamos um fio de composição 100% lã, que sofreu processo de tingimento manual, para tricotarmos as peças”, conta a estilista.

O processo industrial também têm a mão de obra bastante alta. “O valor da mão de obra é o principal elemento no custo de cada peça, sem dúvida nenhuma! Se analisarmos friamente a planilha de custos de uma peça, vemos que a mão de obra e todo o custo de manutenção da mesma, incluindo impostos, é o que mais onera a coleção” relata a estilista da Friolã.

Os processos de produção variam muito. Rafaela, por exemplo, não é uma expert em tricô e crochê manual. “Só sei o básico!”. No entanto, além das nossas máquinas eletrônicas, a marca conta uma equipe especializada que auxilia no desenvolvimento das peças-piloto. “São profissionais, desde o programador das máquinas que recebe meu desenho base e solicitações, tecelões que atuam na hora de tecer os primeiros panos, costureiras que fazem os primeiros fechamentos até habilidosas mãos que desenvolvem minhas ideias. Ela só coloca a “minha mão na massa”, no sentido literal, na hora de executar o primeiro molde e nos bordados, onde faz questão de criar o protótipo. Além disso, a estilista cria toda a estamparia e combinação de cores.

O tricô pode ser trabalho para alguns, mas também têm fôlego para ser hobby de outros. A técnica é uma maneira de desestressar, de se relacionar com pessoas afins e de colocar sua criatividade em prática. “É muito gratificante observar essa retomada, seja por qual motivo for. Gosto ainda mais quando vejo homens tricotando, já que na história eles foram os primeiros a tricotar, enquanto às mulheres cabia apenas fiar”, conta Helga.

Texto: Priscila Vanzin (6º semestre)
Fotos: Weslei Torezan para Friolã. Modelo: Sabrina Onzi – Cast One

1 comentário

  • Obrigada pelo destaque que deste ao nosso trabalho!!! O tricô realmente é nossa paixão!!!! Sucesso sempre!

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