Obras da Bienal do Mercosul se deterioram

Obras de arte públicas deixadas por bienais se deterioram em Porto Alegre

  • Por: Angelo Werner (3º semestre) | Foto: Juliana Baratojo (4º semestre) e divulgações | 20/10/2015 | 0

A Bienal do Mercosul é uma mostra internacional de arte contemporânea que, desde 1997, espalha por Porto Alegre obras da elite artística latino-americana, proporcionando gratuitamente a todos um contato raro com a vanguarda artística. Além das exposições em lugares tradicionais, tais como museus, a Bienal sempre optou por levar a arte para lugares inusitados, como os armazéns do Cais do Porto, o Parque Marinha e a orla do Guaíba. Mas mais do que o diálogo efêmero que só ocorre entre as obras e o cenário durante o evento, algumas delas são inseridas permanentemente no espaço público, se tornando monumentos da cidade.

Este projeto de espalhar a arte pela cidade se iniciou em 1997, na primeira edição da Bienal, quando foi criado o Jardim de Esculturas no Parque Marinha do Brasil. É composto por 10 obras doadas à Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul por artistas brasileiros, argentinos e bolivianos, todas de materiais duráveis para se misturarem com as árvores e a vegetação do parque, emoldurando o passeio público.

A intenção, infelizmente, perdeu o embate com o tempo. Gaudêncio Fidelis, curador-chefe da edição de 2015 da Bienal, lamenta o Jardim de Esculturas que se pode encontrar atualmente: “São obras maravilhosas, porém destruídas”. Para Fidelis, o intuito das obras públicas é, além de embelezar o cenário urbano, oferecer utilidade para as pessoas que transitam por este espaço. Apesar disso, as esculturas que resistem de pé no Marinha, tomadas de pichações e frases rabiscadas, ficam isoladas das grandes áreas de circulação do parque, em meio a uma vegetação fechada e sem cuidados. A única interação observada pelo Editorial J no local foi o aviso de um transeunte solitário. “Cuidado, aí no meio do mato vocês vão ser assaltados”, alertou.

Veja nas imagens abaixo a situação das obras públicas deixadas por edições anteriores da Bienal do Mercosul.

Cubo Cor – Aluísio Carvão (Brasil)

Rayo – Hernán Dompé (Argentina)

Flor – Francisco Stockinger (Brasil)

Sem Título – Amílcar de Castro ( Brasil)

Mangrullos – Julio Pérez Sanz (Argentina)

Sem Título – Mauro Fuke (Brasil)

Espelho Rápido – Waltércio Caldas (Brasil)

Olhos Atentos – José Resende (Brasil)

Fidelis também afirma que a relação de Porto Alegre com sua arte urbana é bastante peculiar. Historiadores de arte pública apontam a cidade como um espaço bastante problemático, de difícil conservação e com uma situação nem um pouco promissora. “Nós precisamos aprender a lidar com isso para saber achar a solução. Não só para a conservação das obras de arte, mas para como lidamos com o patrimônio público em geral. Isso incide em diversos problemas que temos atualmente, inclusive a violência urbana”, declara Fidelis.

A 4ª edição da Bienal, em 2003, homenageou o artista gaúcho Saint Clair Cemin, que contribuiu para o legado de obras públicas com a sua SuperCuia, doada para Porto Alegre e instalada em 2004, na esplanada Hely Lopes Meirelles, atual Rótula das Cuias. Perdida entre os carros, a rótula fica bastante isolada do público, e o monumento apenas passa por aqueles que dirigem pelo local. Assim, a SuperCuia é surpreendentemente livre de pichações e intervenções humanas, sendo apenas afetada pela vegetação que cresce ao seu redor e pela sujeira que nela se acumula.

Já durante a 5ª Bienal, no ano de 2005, o projeto da curadoria incluiu a instalação de mais quatro obras públicas permanentes, desta vez na Orla do Guaíba, em frente ao Parque Maurício Sirotsky Sobrinho. As obras, de Mauro Fuke, Carmela Gross e José Resende, tiveram como objetivo não serem apenas observadas, mas também que fossem úteis e presentes no dia a dia de quem por ali passeia. Denise Neto, de 51 anos, concorda com esta ideia. “Gosto de vir aqui para apreciar a vista, curtir o movimento, tomar um chimarrão e ouvir uma música vendo o Guaíba. Eu gosto de monumentos assim, arte com utilidade. É aqui que eu venho recarregar as minhas energias”, conta ela, sentada nos degraus da obra Cascata, de Carmela Gross.

Mas nem todas as obras mantiveram sua utilidade. A escultura Olhos Atentos, de José Resende, o famoso mirante da Orla do Guaíba, se encontra atualmente interditado. Sem mais ninguém caminhando sobre ele, quem comenta sobre a obra são Kamila e Wagner, que moram embaixo do mirante desde junho deste ano. “A gente sabe da história e da importância dessa obra, que ela é da Bienal e tudo mais, mas é bem triste ver ela assim, toda enferrujada e pichada. Ouvi dizer que ela está fechada porque um cara rasgou a perna aí em cima um dia. Mas a gente tá morando aqui mais por ser perto das barraquinhas onde a gente trabalha, porque a obra em si é meio inútil, nem pra proteger da chuva serve”, relata Wagner, em um momento de folga.

E assim se apresentam as mudanças sofridas pelas obras públicas da Bienal em Porto Alegre. Esquecidas, abandonadas, interditadas ou mesmo ativas na rotina diária de cada um, não são apenas as obras que intervêm no cenário da cidade, mas também a cidade que influencia na composição das obras.