Ônibus da discórdia

Candidatos à prefeitura de Porto Alegre divergem em propostas sobre gestão da Carris, que acumula prejuízos há anos

  • Por: Italo Bertão Filho (2º sem.) | Foto: Frederico Martins (6º sem) | 22/09/2016 | 0

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Velha conhecida dos porto-alegrenses, a Carris – empresa de transporte público mais antiga ainda em atividade no país – é alvo de debate entre os candidatos à prefeitura da Capital. Detentora de 25 linhas e frota de 377 veículos, a empresa acumulou prejuízos de R$ 146 milhões entre 2012 e 2015, sendo R$ 50 milhões somente no ano passado. Entre os candidatos, há quem queira privatizá-la. Outros preferem melhorar sua gestão. Há ainda quem defenda o monopólio da empresa no transporte coletivo.

Os repasses do município à companhia aumentam a cada ano. Em 2009, foram R$ 6,3 milhões. No ano seguinte, R$ 10 milhões saíram dos cofres municipais para a companhia. Em 2013, o número saltou para R$ 30 milhões e continua crescendo. Em 2015, R$ 50 milhões foram repassados para a continuidade das operações.

Para compensar os prejuízos crescentes do transporte público de Porto Alegre, a Associação dos Transportadores de Passageiros (ATP) prevê um aumento de 40 centavos na passagem – dos atuais R$ 3,75 para R$ 4,20. Além do aumento do preço do combustível, outro argumento utilizado pela ATP é a queda do número de passageiros – entre 2006 e 2015 a redução foi de 17%. Entretanto, a prefeitura já sinalizou que não pretende alterar o valor até fevereiro de 2017.

Fundada em 19 de junho de 1872 por um decreto do imperador Dom Pedro II, a companhia nasceu pública. Em 1928, passou para o controle da empresa norte-americana Bond and Share. Após quase ir a falência, a Carris acabou encampada pelo prefeito Ildo Meneghetti no final de 1953. A primeira estrofe do hino do Grêmio retrata o episódio. “Até a pé nós iremos” é uma referência de Lupicínio Rodrigues – autor do hino – à uma greve ocorrida no serviço de bondes da Carris naquele ano, que impedia os gremistas de irem ao estádio acompanhar o time.

O Editorial J fez a seguinte pergunta aos candidatos à Prefeitura:

Se você for eleito(a), como será feita a gestão da Carris? Quais serão suas medidas para diminuir o prejuízo que a empresa vem sofrendo nos últimos anos?

 

fabio ostermannFábio Ostermann (PSL)

“A Carris é uma empresa cara e ineficiente. Gera um déficit anual para a Prefeitura na casa das dezenas de milhões de reais, recursos que certamente poderiam ser utilizados de forma mais efetiva por outras pastas da Prefeitura, como saúde, segurança, educação e assistência social. Nossa proposta é pela venda dos ativos e patrimônio da Carris e pela abertura do mercado de transporte coletivo, iniciando a transição do atual sistema de concessões cartelizadas para um sistema de livre concorrência. Medidas como essa reduzirão gastos e aumentarão a qualidade dos serviços públicos, em especial para quem mais precisa.”

joao carlos rodriguesJoão Carlos Rodrigues (PMN)

“Ao assumirmos o cargo de Prefeito desta Capital, iremos revisar e reestruturar os atuais cargos e funções da administração da empresa. Auditoria nas contas/custos de operação e revisão nas atuais linhas servidas pela Carris.”

genroLuciana Genro (PSOL)

“A Carris seguirá como empresa pública e voltará a ser referência para o país. Vamos cortar os CCs, que passam de 30 na companhia. Por que uma companhia de ônibus precisa de 30 CCs? Não existe nenhuma justificativa. Também iremos auditar todos os contratos com fornecedores. É inadmissível que uma empresa que opera as principais linhas da cidade esteja deficitária. Há um grave problema de gestão na empresa que será combatido com o incremento dos quadros técnicos e com o fortalecimento dos trabalhadores da Carris, que são os que conhecem de fato o dia-a-dia da empresa e no nosso governo estarão presentes na gestão da companhia.”

mauricioMaurício Dziedricki (PTB)

“No meu governo, a gestão da Carris deverá resgatar medidas de austeridade administrativa e controle interno, diminuindo custos, qualificando o gerenciamento dos recursos, a fim de manter o equilíbrio financeiro. Hoje sistema de transporte público sofre com a redução no número de passageiros. Para qualificação do sistema, dando ao passageiro conforto e pontualidade, vamos acelerar a implantação dos BRT´s, com nova licitação em pouco tempo a maioria da frota terá ônibus mais novos, com ar-condicionado e sistema GPS. Poderemos criar aplicativo para informar ao cidadão em tempo real a localização do ônibus e o tempo que leva do ponto de origem ao destino. Com as medidas pretendo fazer com que as pessoas voltem a confiar no sistema e voltar a usar o ônibus. O aumento de passageiros ajudará a recuperar a saúde financeira da Carris.”

wvwERcMNelson Marchezan Jr. (PSDB)

“Efetivamente, a meta inicial é transformar a Carris na referência de transportes coletivos, um balizador dos custos e do preço da passagem para as empresas privadas ‒ um espelho. Em primeiro plano, avaliar o perfil da dívida financeira de mais de R$ 7 milhões, entender os motivos pelos quais quase 20% da despesa provém da área administrativa, reduzir os custos de materiais e serviços com revisões contratuais, discutir junto com os especialistas da empresa as taxas de ocupação e demanda das linhas para avaliar as reais necessidades, buscar incremento de receita com os imobilizados e concessão publicitárias, dar transparência aos resultados financeiros e trabalhos da companhia e trazer para a Carris modelos de gestão de transporte público de qualidade e sucesso.”

sebastiao meloSebastião Melo (PMDB)

“Vou valorizar ainda mais a Carris, que tem papel importante para a contínua melhora do transporte público da Capital. A Carris está inclusive mais próxima de se adequar às regras da licitação dos que as demais companhias, por conta da sua frota qualificada. Hoje tem 58% dos seus ônibus equipados com ar-condicionado e 64,5% deles possuem acessibilidade. Algumas das dificuldades financeiras enfrentadas pela empresa resultam do desequilíbrio na relação do custo da manutenção dessa frota qualificada com a arrecadação, uma vez que há queda no número de passageiros pagantes. Inovação e gestão qualificada são chaves na busca pelo necessário equilíbrio financeiro da Carris. Por isso, irei investir ainda mais em estudos e tecnologia, como as câmeras que já permitem à companhia reduzir custos com acidentes e avarias, além de gerarem dados importantes do que se passa dentro e fora dos veículos, subsídio à análises a serem realizadas para melhorar e adequar os horários de ônibus à realidade dos usuários.”

Até o fechamento da matéria, o Editorial J não obteve as posições de Júlio Flores (PSTU), Marcello Chiodo (PV) e Raul Pont (PT).