Para estrangeiros, impeachment tem formato de golpe

Falta de argumentos e condições morais dos apoiadores do afastamento de Dilma Rousseff são alguns dos pontos levantados

  • Por: Camila Lara (3º sem.) | Foto: Wellinton Almeida (3º sem.) | 24/05/2016 | 0

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“Aos estrangeiros resta aceitar toda e qualquer deliberação política de boca fechada para não sermos expulsos do país”, lamenta o estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Juan David Rico Ortiz, colombiano de 19 anos que vive Brasil desde os nove.

Contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, aprovado no dia 12 de maio, ele critica a falta de consenso dos juristas sobre as pedaladas fiscais serem motivo suficiente para que o mandato  fosse cassado. “Se até os especialistas em Direito Constitucional estão batendo cabeça, o que resta para os cidadãos comuns que nunca leram um parágrafo da Constituição, mas vão sofrer todas as consequências?”, indaga.

No Brasil desde 2009, o cabo verdiano Nilton César Fernandes Cardoso, de 25  anos, compartilha da mesma opinião de Juan. O doutorando de Relações Internacionais na UFRGS considera os argumentos dos que pedem o afastamento da presidenta “frágeis”. Ele completa: “Os mesmos que a condenam encontram-se citados na Lava Jato, ou seja, tanto os deputados federais e senadores que buscam o impedimento da presidenta não possuem condições morais para realizar tal feito”.

Juan e Nilton são apenas dois dos 940 mil imigrantes no Brasil (dado da Polícia Federal) que poderiam ser detidos e expulsos do País caso expressassem sua opinião sobre o impeachment em atividades políticas. De acordo com nota divulgada pela Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) no dia 16 de abril, estrangeiros que participassem de desfiles, passeatas, comícios e reuniões de qualquer natureza no Brasil violariam o Estatuto do Estrangeiro e “afrontariam a soberania do pais”. A nota enfatizava ainda a permissibilidade de ações de agentes federais em casos futuros.

A declaração afetou de maneira palpável os estrangeiros, dos quais dois se recusaram a expor suas opiniões à reportagem durante a produção. Por outro lado, há quem faz questão de falar, e com veemência. Flavia Adriana Palópolo, natural de Buenos Aires, compara o momento político do Brasil ao do golpe que viveu na Argentina em 1976, quanto tinha 12 anos.

Hoje, com 53 anos, a artesã lembra de “acordar em 24 de março de 1976, ligar a TV e ver a junta militar dizer que, a partir daquele momento, eles estavam no poder e já dizendo todas as diretivas de como ia ser a partir dali. A junta era formada por Exército, Marinha e Aeronáutica. Eram 10 comunicados todo o dia. Todos os dias.”

Flavia veio para o Brasil em 1984 com Rolando Romero, onde tiveram os filhos. Por quê? Porque era hippie. Depois de 32 anos anos no País, ela completa:

“A diferença desse golpe é que foi articulado através de traições de pessoas que foram eleitas pelo próprio povo. É um golpe muito pior que a vida está fazendo eu viver de novo”.