Pelo leite derramado

Para celebrar a Semana Mundial de Aleitamento Materno, que começa em 1º de agosto, Editorial J preparou reportagem apontando os benefícios da doação de leite humano

  • Por: Samira Rodrigues (4º semestre) | Foto: Pedro Spieker (2º semestre) | 01/08/2017 | 0
Sala de atendimento no Banco de Leite Humano do Hospital Fêmina
Sala de atendimento no Banco de Leite Humano do Hospital Fêmina

Eu tinha muito leite, e a Bruna não dava conta. Eu achava um absurdo aquilo tudo ficar jorrando pelas paredes”, brinca a ex-doadora de leite humano Daisy Bessa. Há décadas se discute os benefícios do consumo de leite materno na primeira infância. Um estudo realizado pela Universidade de Pelotas e reconhecido mundialmente revela uma associação entre aleitamento materno, inteligência, escolaridade e renda mensal. A pesquisa, que acompanhou por 30 anos 3.493 pelotenses nascidos em 1982, mostra que os participantes que foram amamentados por 12 meses ou mais apresentaram maiores valores de QI, mais anos de escolaridade e maiores rendas mensais do que aqueles amamentados por menos de um mês. O estudo, como conta um dos pesquisadores para a revista Veja, foi um dos primeiros do tema a separar os participantes de forma socioeconômica.

Existe também uma relação entre a amamentação prolongada e a diminuição da mortalidade infantil. Um artigo publicado na revista científica The Lancet Global Health indica que a “ampliação da amamentação a um nível quase universal poderia prevenir 823.000 mortes a cada ano em crianças menores de cinco anos e 20.000 mortes por câncer de mama”. A publicação sugere também que a amamentação pode prevenir o excesso de peso e diabetes mais adiante na vida do lactente. “Diz-se que aleitamento materno isolado é a medida com mais impacto em mortalidade infantil no mundo inteiro, mais do que vacinas, mais do que antibióticos”, destaca a pediatra Cristina Simon, responsável pelo Banco de Leite Humano do Hospital Fêmina.

Ademais, Cristina cita a redução de infecções respiratórias e gastrointestinais, de otites, de alergias e até de câncer e leucemia como benefícios do leite materno. “Nos recém-nascidos de UTIs, [há] menos riscos de enterocolite, que é uma infecção intestinal frequente nos prematuros”, explica. A médica aponta que o aleitamento no peito auxilia no desenvolvimento da mandíbula e da fala do bebê.

A amamentação também traz benefícios às mães. “Uma das coisas que atrai as mulheres a amamentar é a perda de peso. Existe um gasto calórico de quase duas mil calorias por dia ao amamentar. A mãe que amamenta perde peso com mais facilidade depois do parto”, revela Cristina Simon. A pediatra conta que o aleitamento prolongado também reduz riscos de câncer de mama e câncer de ovário para a lactante.

A Organização Mundial da Saúde adverte que até os seis primeiros meses de vida o bebê deve tomar apenas leite materno. “O bebê não precisa de água, chá nem nada até os seis meses. Depois do sexto mês, manter o aleitamento materno com alimentação complementar saudável”, instrui Cristina Simon. A OMS recomenda que as crianças sejam amamentadas até, pelo menos, os dois anos de idade.

 

Bancos de Leite Humano

Recepção do Banco de Leite Humano do Hospital São Lucas da PUCRS
Recepção do Banco de Leite Humano do Hospital São Lucas da PUCRS

No Brasil, os principais órgãos promotores de aleitamento materno são os Bancos de Leite Humano (BLH). “Um papel do banco de leite é preparar a mãe para o aleitamento”, diz a enfermeira Graziela Mussakopf, do BLH do Hospital Fêmina. Os profissionais dos Bancos de Leite Humano orientam e esclarecem dúvidas das mães – de primeira viagem ou veteranas – com relação à amamentação e à coleta de leite. Segundo dados da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, foram feitos 1.743.789 atendimentos individuais em BLHs do Brasil no ano de 2016. Até a última semana de julho de 2017, mais de 880 mil mulheres foram assistidas em BLHs do país.

Contudo, talvez a função mais importante dos Bancos de Leite Humano seja a de armazenar e gerenciar o leite humano doado que será repassado para recém-nascidos prematuros das UTIs Neonatais dos hospitais a que os bancos pertencem. “Esses são bebês que normalmente não têm a habilidade para mamar no peito da mãe e que precisam de doação. Ou doação da mãe para o seu próprio bebê, ou doações externas”, explica a pediatra Cristina Simon.

A mais recente campanha de incentivo à doação de leite do Ministério da Saúde destaca que a prioridade dos Bancos de Leite Humano são recém-nascidos prematuros e de baixo peso (abaixo de 2,5 kg). “Nossa neonatal tem bebês de 400g”, conta a nutricionista Daiane Azevedo, do BLH do Hospital São Lucas da PUCRS. Conforme a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, 166.355 recém-nascidos foram beneficiados por doações de leite em 2016, um pouco mais de um litro de leite por bebê atendido.  

 

Quem pode doar

Monica coleta seu leite no BLH do Hospital São Lucas para alimentar seu filho prematuro, Guilherme
Monica coleta seu leite no BLH do Hospital São Lucas para alimentar seu filho prematuro, Guilherme

A bióloga Daisy Bessa foi doadora no BLH da Santa Casa em função do excesso leite que produzia. “Eu achei um barato tu poder ajudar outras crianças a consumirem o alimento mais perfeito”, conta Daisy. A pediatra Cristina Simon, do BLH do Hospital Fêmina, informa que mulheres com excedente de produção de leite, condição em que as mamas ficam cheias a ponto de causar desconforto em alguns casos, podem doar desde que esse excesso seja espontâneo, ou seja, não é induzido por medicamentos.

Além das doadoras externas que doam seu leite para bebês de outras mulheres, as próprias mães podem doar para seus filhos internados nas Neonatologias. Mônica Gonçalves, mãe de Guilherme que nasceu com apenas seis meses de gestação no Hospital São Lucas da PUCRS, coleta leite diariamente no banco do hospital. Guilherme, que está internado na UTI Neonatal do São Lucas desde seu nascimento há um mês e 15 dias, recebe um ml de leite a cada três horas, ou seja, oito ml por dia.

 

Procedimento da doação

Para iniciar o processo de doação de leite em um BLH, basta a lactante contatar um banco e se cadastrar, apresentando os exames pré-natais solicitados pela equipe do banco. “Pelos exames a gente vê hepatite C, hepatite B, HIV, sífilis. Isso tudo é impedimento para doação”, explica a nutricionista Claudia Abreu Nunes, responsável pelo BLH da Santa Casa, que é o Banco de Leite referência no estado. Mães tabagistas, embora possam amamentar seus próprios filhos, não podem doar seu leite.

No caso das mães que optarem por fazer a coleta em casa, já que até o momento três dos cinco BLHs de Porto Alegre buscam leite em domicílio, é importante prestar atenção no procedimento de armazenagem do líquido. A equipe do banco dá orientação para as mães de como esse processo deve ser feito. “Depois de ordenhado da mama, o leite tem que ficar sob refrigeração no máximo por 12 horas”,  recomenda a nutricionista da Santa Casa Claudia Abreu Nunes. “Depois de 12 horas, se ele não for utilizado, tem que ser congelado. E congelado é, no máximo, por 15 dias. Se não for utilizado nesses 15 dias, precisa ser pasteurizado. Aqui, no banco, a gente faz toda a pasteurização do leite, e daí ele tem duração de seis meses”, esclarece.

Segundo a Rede Global de Bancos de Bancos de Leite Humano, atualmente 30% do leite humano é perdido no processo de doação, entre a coleta e o recebimento pelo recém-nascido. O órgão informa que, para evitar perdas, é necessário seguir corretamente o passo a passo da doação.

 

Dificuldades em suprir a demanda

Reprodução/Instagram Deputada estadual Manuela d’Ávila amamentando sua filha, Laura
Reprodução/Instagram Deputada estadual Manuela d’Ávila amamentando sua filha, Laura

“Nenhum hospital consegue suprir, a demanda é sempre maior”, revela a nutricionista Daiane Azevedo, responsável pelo BLH do Hospital São Lucas. Daiane destaca que é justamente pela falta de leite nos bancos que as campanhas de incentivo à doação se fazem tão importantes. “Eu acho que as campanhas são válidas, porque elas mobilizam as pessoas”, ressalta. “A gente tem de ser incansável na divulgação, é um trabalho diário. Não adianta dizer só em agosto, que é o mês da amamentação. Eu tenho que dizer sempre”.

“Parando as doações hoje, nós temos estoque para duas semanas”, afirma Cristina Simon, pediatra do BLH do Hospital Fêmina. A médica conta que, em 2016, no período em que a deputada estadual Manuela d’Ávila divulgou sua doação no hospital, o número de doações aumentou. Em entrevista ao Editorial J, Manuela declarou que acha que há “pouquíssima” divulgação e explicação sobre doação de leite. “Sei que tem mulheres que produzem muito mais leite que eu”, esclarece. “É preciso estimular e ser parceiro dessa mulher que pode salvar vidas”. Em 2015, Manuela d’Ávila (PCdoB) foi coautora, juntamente com o deputado Luiz Fernando Mainardi (PT), de uma lei que permite que mulheres amamentem seus filhos em qualquer estabelecimento público ou privado no Rio Grande do Sul.

“Nós precisamos de mais ou menos 15 a 17 litros de leite humano por dia para suprir a UTI. A gente tem sete, oito litros”, conta a nutricionista Claudia Abreu Nunes, responsável pelo BLH da Santa Casa. Claudia diz que, para lidar com a falta de leite, os bancos “infelizmente” utilizam as fórmulas como complementação na dieta dos recém-nascidos prematuros. “Vamos supor que o bebê precise de 30 ml. A mãe vem aqui e consegue coletar oito ml. Então, a gente manda os oito ml da mãe e completa com 22 de fórmula”, relata.

“A fórmula vai suprir alguma coisa em calorias, vai ter alguns nutrientes sintéticos, mas a complexidade do leite materno, das imunoglobulinas, não consegue replicar”, explica Claudia Abreu. A pediatra Cristina Simon afirma que “o uso de uma proteína que não é a proteína do ser humano está associado ao aumento de risco de infecções e de alergias”.

 

“É trabalhoso doar”

Algo que explicaria a falta de doadoras nos bancos é o esforço que o ato exige das mães. “É trabalhoso doar, ser doadora. Ela deve ser uma mãe muito bem organizada para ser doadora”, diz a enfermeira Graziela Mussakopf, do BLH do Hospital Fêmina. “Tem de ser organizada, deve estar higienizada, não pode respirar em cima do leite”, conta.

Vanessa Conceição da Costa, cujo primeiro filho encontra-se internado no Hospital Fêmina desde seu nascimento há um mês e oito dias, se desloca do município de Barra do Ribeiro toda a segunda e terça-feira para ver Brayan na UTI Neonatal do hospital que é referência em gestações de alto risco no estado. Vanessa, que não sabia da existência de Bancos de Leite Humano antes de passar a precisar de seus serviços, doa semanalmente para seu bebê, que necessita de 19 ml de leite a cada duas horas.

A deputada estadual Manuela d’Ávila revela que doar leite demanda, de fato, muita organização das doadoras. “Tive muita dificuldade em doar leite, apesar de muita vontade”, conta. ”Não consegui organizar uma rotina adequada. Quando voltei a trabalhar e mantive amamentação exclusiva até o sexto mês, errei ao achar que conseguiria doar em casa. Deveria ter organizado uma hora por semana para ir ao banco doar”, expõe.

 

História dos BLHs no Brasil

A concessão de leite humano no Brasil remonta ao período da escravidão. “De Portugal transmitira-se ao Brasil o costume das mães ricas não amamentarem os filhos, confiando-os ao peito de saloias ou escravas. […] o precioso leite materno era quase sempre substituído pelo leite mercenário das amas.”, escreve Gilberto Freyre em Casa-grande & senzala.

Ainda hoje, muitas mulheres que têm excedente de leite acabam por amamentar diretamente outro bebê cuja mãe apresenta alguma dificuldade no aleitamento. A amamentação cruzada, no entanto, é uma contraindicação formal do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo os órgãos, essa prática traz diversos riscos ao bebê, podendo transmitir doenças infectocontagiosas, como o HIV/Aids.

Com o fim da escravidão no país, o costume generalizado do aleitamento cruzado gradualmente deu lugar aos primeiros Bancos de Leite Humano no fim da década de 1930. Até os anos 80, houve uma proliferação desordenada de BLHs, chegando a ocorrer a compra e venda de leite humano em alguns (prática proibida no Brasil hoje). O Programa Nacional de Incentivo ao Aleitamento Materno, lançado pelo Ministério da Saúde em 1995, documenta que a desorganização era tanta que, nas primeiras tentativas de regulamentação dos bancos no país, uma Secretaria Estadual de Saúde fez um levantamento das instituições bancárias do estado no lugar dos Bancos de Leite.

Após três anos de deliberação com profissionais da área, em 26 de maio de 1988, foi assinado o primeiro documento que regulava todas as etapas da implantação e do funcionamento de um Banco de Leite Humano. De acordo com o Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (INAN) do Ministério de Saúde, o Brasil foi o primeiro país a ter um instrumento legal dessa importância.

Hoje o Brasil é referência mundial em BLHs devido ao processo de pasteurização. A pediatra Cristina Simon, do Hospital Fêmina, conta que o método de pasteurização aplicada ao leite humano foi criado no Brasil. A técnica permite que o leite materno, que a princípio só pode ser mantido no congelador por até 15 dias, seja armazenado congelado por seis meses.

Segundo o levantamento da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, o Brasil dispõe de 221 BLHs e 188 postos de coleta. Foram mais de 183 mil litros de leite humano coletados em território nacional no ano de 2016. No Rio Grande do Sul, a coleta alcançou  5,6 mil litros de leite (3% do total nacional) arrecadados nos nove bancos e um posto de coleta em funcionamento no estado. São Paulo, com quase 47 mil litros foram recolhidos em suas 94 unidades (57 bancos e 37 postos), acumulação equivalente a 25,5% da quantia coletada no país inteiro.

 

Bancos de Leite Humano no Rio Grande do Sul:

Hospital de Clínicas de Porto Alegre

Rua Ramiro Barcelos, 2.350, Bomfim – Porto Alegre

Aberto diariamente 24h

Tel.: (51)3359-8161

Não aceita doações externas

Não tem serviço de busca em domicílio

 

Hospital Fêmina

Av. Mostardeiro, 17, 8º andar, Moinhos de Vento – Porto Alegre

Tel.: (51)3314-5362/ (51)3314-5353

Busca leite em domicílios de Porto Alegre e Região Metropolitana (Canoas, Viamão e Cachoeirinha)

 

Hospital Materno Infantil Presidente Vargas

Avenida Independência, 661, 6º andar bloco A, Centro – Porto Alegre

Tel.: (51)3289-3334

Busca leite em domicílios de Porto Alegre

 

Hospital São Lucas da PUCRS

Avenida Ipiranga, 6.690 , Jardim Botânico – Porto Alegre

Aberto diariamente das 7h às 12h e das 13h às 19h, inclusive nos finais de semana e feriados

Tel.: (51)3320-3288

Em breve terá serviço de busca em domicílio

 

Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre

Rua Professor Annes Dias, 295, Centro – Porto Alegre

Aberto diariamente das 7h às 12h e das 13h às 18h30, inclusive nos finais de semana e feriados

Tel.: (51)3214-8284

Busca leite em domicílios de Porto Alegre e Região Metropolitana (Canoas, Viamão e Cachoeirinha)

 

Santa Casa de Caridade de Bagé

Rua Gomes Carneiro, 1.350, Centro – Bagé

Tel.: (53) 3240-3200

 

Hospital de Caridade de Santo Ângelo

Rua Antônio Manuel, 701, Centro – Santo Ângelo

Tel.: (55)3313-2000

 

Hospital de Caridade de Ijuí

Avenida David José Martins, 152, Centro – Ijuí

Tel.: (55)3331-9324

 

Universidade Federal de Rio Grande

Rua Visconde de Paranaguá, 102, Centro – Rio Grande

Tel.: (53) 3233-8880