Pesquisa do Editorial J revela hábitos de consumo da pílula anticoncepcional

92% das respondentes de pesquisa feita pela reportagem usa ou já usou o medicamento, mas 30,6% decicidiu parar principalemte em razão de efeitos colaterais

  • Por: Bibiana Garcez e Luísa Zelmanowicz (6º sem.) | 14/12/2016 | 0
Imagem: Ceridwen
Imagem: Ceridwen

A pílula anticoncepcional, já com 56 anos de existência, ainda é o método contraceptivo mais utilizado por mulheres. Estima-se que, no mundo, existam mais de cem milhões de usuárias, como aponta a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em pesquisa realizada pela reportagem, com 1925 respostas de mulheres entre 15 e 60 anos, apenas 8% nunca tomaram o anticoncepcional hormonal oral.

O comprimido surgiu nos Estados Unidos em 1960, sendo pensado como uma “salvação para a humanidade”. Na Alemanha, a manchete da chegada do medicamento procurava marcar um dia histórico. O Enovid, primeiro exemplar disponível no mercado, era um anticoncepcional combinado, como os de hoje: continha estrogênio sintético e derivado de progesterona. A concentração, contudo, era alta: composto de 0,15mg de mestranol e 9,85mg de noretynodrel. Para fins de comparação, as pílulas de hoje possuem componentes em até 30 microgramas (µg) ou menos. Cada miligrama equivale a 1000 microgramas.

A pílula aparece em um momento chave. A despeito de ter surgido com muitas restrições – só se podia adquirir a pilula portando certidão de nascimento – ela permite desde seu início que as mulheres tenham maior liberdade de escolha. A quantidade de filhos e o momento de tê-los passam a ser questões respondidas diretamente pela usuária. Nos anos 60, o feminismo e o movimento estudantil ganham força, e a liberdade sexual se torna uma bandeira, marcada pelo festival Woodstock.

Percebeu-se, não muito tempo depois, que o anticoncepcional não trazia apenas benefícios. Os efeitos colaterais dos medicamentos da época eram principalmente mal-estar e ganho de peso, ainda que alguns casos chegassem à morte.

Hoje, os médicos ginecologistas dividem as pílulas em quatro gerações. As mais comuns são da terceira, enquanto a quarta ainda está sendo desenvolvida. Os contraceptivos orais atuais, de terceira geração, possuem etinilestradiol, o estrógeno sintético, em doses de 30 microgramas ou menos, e os progestágenos gonanos: gestodeno, desogestrel e norgestimato, explica o Manual de Contracepção da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Eles são monofásicos, ou seja, os comprimidos possuem todos a mesma composição nas doses, que são baixas. Eles podem ser apresentados em 21, 24 ou 28 dias. A ginecologista Adriana Arent aponta que o médico ou médica deve ter atenção com as necessidades de cada paciente: “o tratamento, a escolha do método, tem que ser individualizado para cada paciente e para cada patologia que ela vai ter”. O Manual de Planejamento Familiar da OMS elenca os critérios de elegibilidade de cada método no Apêndice D.

Pesquisa

Realizada através de um formulário online divulgado via redes sociais, a pesquisa recebeu 1925 respostas, majoritariamente de mulheres entre 20 e 29 anos (66,1%)  e com renda familiar de quatro a dez salários mínimos (31,9%). Confira mais dados no gráfico abaixo.

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Das 61,4% que ainda usam pílula anticoncepcional, 80,7% começaram por indicação de ginecologista. Quando questionadas sobre o motivo de tomar a pílula, as entrevistadas podiam marcar mais de uma alternativa. 86,2% utilizavam o medicamento para prevenir a gravidez. 60,4%, para regular o período menstrual. 31,7% para evitar acne e 16% para tratar Síndrome de Ovários Policísticos. 11,4% ainda faziam uso por outros motivos, não especificados.

A ginecologista Adriana Arent ressalta que a decisão do método contraceptivo deve ser feita de acordo com as necessidades e características da paciente. Contudo, a maioria das mulheres utilizam a pílula. De acordo com pesquisa, apenas 8% das entrevistadas nunca tomaram o medicamento. Dos 92% que já, 61,4% ainda toma. “Normalmente utilizamos os anticoncepcionais hormonais em pacientes mais jovens. Com o aumento da idade começam a ter riscos maiores de trombose e optamos pelo DIU”, explica.

A pesquisa realizada pela reportagem aponta que 30,6% das entrevistadas já usaram o contraceptivo oral em algum momento, mas pararam. Grande parte desse grupo resolveu cortar o uso para evitar a ingestão de hormônios artificiais – essas são 36,1%. Outros 45,6% o fizeram em razão dos efeitos colaterais. Mais detalhes no gráfico acima.

Dessas pessoas que pararam de consumir o remédio, a maioria confia na camisinha como método contraceptivo, somando 70,3%. 15,8% usam a tabelinha, metodologia considerada não segura por especialistas. Adriana Arent, ginecologista, aponta que os métodos comportamentais são de baixa confiabilidade: “Os métodos comportamentais são mais complicados. Controle do muco, coito interrompido, possuem um índice maior de falha e por isso não são os mais recomendados”.

Ainda, cerca de 6% usa DIU. O dado mais alarmante apontado pela pesquisa é de que, após parar, 20,9% das entrevistadas não usam nenhum outro método anticoncepcional.

Nathalia Kauer, estudante de arquitetura, considera que, no caso dela, a pílula faz tanto mal quanto bem. Ela decidiu parar e hoje utiliza a camisinha como método de prevenção. “Perdi sensibilidade no corpo inteiro tomando, mas ao mesmo tempo eu não tinha mais espinhas, meu cabelo era maravilhoso”, explica. Júlia Aguiar, estudante de jornalismo, por outro lado, parou com a pílula em decorrência de crises de enxaqueca, que hoje, após a decisão de parar com o medicamento, diminuíram muito. “Até as dores de cabeça que eu considerava comuns passaram. Me sinto muito mais disposta”, diz. Assim como Júlia, 74,7% das mulheres que pararam consideram que se sentem melhor sem a pílula. 16,8% são indiferentes e apenas 8,5% não se sentem melhores após cessar com a medicação.

Como a pílula funciona?

Os chamados contraceptivos combinados são aqueles que combinam os hormônios estrógeno e progesterona. Eles agem através principalmente de três partes do corpo: o hipotálamo e a hipófise, no cérebro, e o ovário. Os três fazem parte do eixo neuroendócrino. Os anticoncepcionais, então, alteram o mecanismo de estimulação dos ovários e, assim, impedem que a ovulação ocorra. A contracepção em si vai depender dos progestágenos, que bloqueiam a secreção de um hormônio chamado gonadotrofina hipofisária. Já o estrógeno age no fígado e aumenta a produção de algumas enzimas e proteínas. Uma destas proteínas produzidas em maior quantidade é a mesma responsável pelos hormônios sexuais. Por isso, o estrógeno pode ter o efeito de bloquear ou inibir a testosterona e outros hormônios esteróides. Este efeito é conhecido como antiandrogênico.

A eficácia da pílula depende do consumo correto. Ela deve ser tomada todos os dias no mesmo horário, com um atraso de no máximo 12 horas. A taxa de eficácia é alta, mas varia de acordo com a forma de uso. De acordo com o Manual de Planejamento Familiar da OMS, ocorrem cerca de oito gestações a cada cem mulheres utilizando o medicamento no primeiro ano de uso. Contudo, quando não há erros no consumo da pílula, são três gravidezes em cada mil mulheres. O relatório da Febrasgo fala em uma taxa de falhas de cerca de 0,5/100 mulheres-ano – ou seja, uma a cada 200 mulheres, caso não haja erros.

Além de prevenirem a gravidez, os anticoncepcionais orais de hoje têm outros benefícios ― controlam as irregularidades dos ciclos menstruais e do fluxo, diminuem as cólicas e apresentam melhoras em sinais de androgenização, como a acne e tratam a Síndrome de Ovários Policísticos. Em contrapartida, os efeitos colaterais são muitos. De acordo com a ginecologista Adriana Arent, entre eles estão náusea, cefaleia, modificação do apetite, aumento de peso, sangramento irregular, trombose e aumento da pressão. O documento da FEBRASGO ainda aponta chance de depressão e alterações de humor, ingurgitamento mamário, dor das mamas (mastalgia) e diminuição da libido.

“O medicamento vai aumentar as chances de a usuária desenvolver trombose em quatro ou cinco vezes” explica Adriana. Ela ressalta que este aumento pode ser perigoso, mas apenas caso seja combinado a um histórico da doença na família, com consequente predisposição genética. As chances aumentam ainda mais caso a pessoa seja tabagista. O problema, nesse caso, é o estrógeno. Caso estes agravantes sejam identificados, a mulher deve procurar um contraceptivo sem este princípio.

Caso não haja casos no círculo familiar próximo, geralmente as mulheres não têm como saber do risco. Foi o caso de Milene Selbach, professora universitária. Com 31 anos, ela teve uma trombose venosa profunda. “Possivelmente o uso da pílula deflagrou um problema congênito que tenho, a Deficiência de Proteína S, um problema de coagulação sanguínea”, conta. Apenas após a trombose, fazendo inúmeros exames, ela descobriu que possuía esta deficiência.

Desde então, Milene depende de anticoagulantes e tem de usar meias elásticas de alta compressão em viagens longas, para prevenir novas ocorrências. A gravidez de Milene, já há 11 anos, foi de risco e controlada, para que não houvessem problemas no parto. Hoje ela usa DIU, que considera uma opção segura, mas que aumenta o seu sangramento. A professora ressalta as consequências: “isso me trouxe períodos de anemia que tiveram de ser, também, acompanhados”.