Pesquisa mostra como a fé católica amplia seu alcance na era digital

O Vaticano está no Twitter. Talvez essa tenha sido a maior prova dos últimos anos de que há espaço para a religião na internet. Um estudo realizado em 2011 e publicado em 2013 pelo grupo de Pesquisa Antropologia, Teologia e Ética da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul analisou a prática da fé cristã diante dessa nova realidade contemporânea, sob a pergunta: “é possível rezar pela web?”. A pesquisa envolveu jovens estudantes de 18 a 24 anos, de diferentes cursos de graduação, porém todos matriculados na disciplina de Humanismo e Cultura Religiosa.

Mensagens de fé e orações das mais variadas – das tradicionais, como Pai Nosso, às mais inusitadas, como a Oração do Comunicador – também acabaram sendo propagadas pelo Facebook, rede social que possui mais de 67 milhões de usuários apenas no Brasil, conforme divulgado pelo vice-presidente do Facebook no Brasil, Alexandre Hohagen, em março deste ano.

De fato, o estudo desenvolvido pela PUCRS evidenciou que os atuais meios de comunicação da era digital influenciam os atos de falar com Deus, reforçando a mensagem. Esses meios não possuem, entretanto, força suficiente para serem os principais. Membros mais tradicionais da Igreja, como o Pe. Hugo Büttenbender, ainda que não se declarem completamente contra as mídias sociais, acabam se mostrando avessos à substituição do momento presencial pelo virtual.

Veja o depoimento do Pe. Hugo Büttenbender:

@pontifex

Com mais de 6 milhões de seguidores em 8 perfis oficiais, o perfil do Papa no Twitter representa um marco na história milenar da Igreja Católica. Conhecida e muitas vezes criticada por opiniões e dogmas conservadores, a entidade rompeu barreiras e promoveu discussões profundas, tanto internas quanto externas, ao decidir dar um passo rumo a pós-modernidade e colocar o seu líder máximo no fluxo multidirecional das redes sociais.

O saldo da entrada do Vaticano no twitter, no entanto, vem sendo considerado positivo por especialistas. Segundo o professor e pesquisador da PUCRS Moisés Sbardelotto, a presença do Pontífice na timeline possibilita o acompanhamento da repercusão dos assuntos relacionados à própria Igreja. “Diante dos inúmeros discursos presentes no Twitter sobre a Igreja e o catolicismo, é possível ‘medir a temperatura’ da sociedade em geral, ou mesmo de determinadas parcelas da sociedade, sobre a Igreja. Em uma ‘cultura do banco de dados’, como diz Lev Manovich, uma infinidade de dados pessoais e institucionais dos seguidores, via a conta do twitter, por exemplo, ficam à disposição da Igreja para serem analisados e aprofundados”, argumenta Sbardelotto.

Ainda que a conta do Vaticano receba muitos posicionamentos negativos por parte dos usuários que usam o canal para criticar, o pesquisador acredita que o saldo final ainda é vantajoso para os católicos, pois ela continua presente no discurso social que circula nas redes e aumenta o seu valor e a sua importância simbólicos ao estar presente constantemente na agenda e imaginário sociais.

Para Sbardelotto, o objetivo da Igreja é estar onde as pessoas estão. E isso representa, segundo ele, um avanço considerável e uma atitude “modernizante” da entidade, pois acompanha o avanço tecnológico e comunicacional da sociedade. Mas chama a atenção para o perigo de usar os meios digitais apenas como púlpitos modernos, em que apenas fala e onde há pouca abertura ao diálogo e ao contraponto. “Se a Igreja, em seu âmbito institucional, souber ‘ouvir’ os discursos sociais que circulam pelas redes sociais online e souber compreender as novas linguagens e gramáticas de produção de sentido, poderá encontrar âmbitos de modernização e abertura”, conclui.

“Faithbook”

No Brasil, com a modernização da igreja Católica diversos padres se destacaram pelo modo de abordar fieis. Muitos lançaram livros, outros CDs de música, encontrando uma nova forma de evangelizar pessoas. Na serra gaúcha, mais um padre inovador. Ari Antônio da Silva, de 63 anos, garante que a melhor forma de pregar a fé cristã é através do Facebook. Compartilhando bênçãos com cerca de 5 mil amigos em sua página, o padre que já comandou a Paróquia São Lourenço Mártir, em Nova Petrópolis, enxerga vantagens e oportunidades nas redes sociais. “Hoje em dia os jovens passam a maior parte do tempo na Internet, se a Igreja não se habituar com redes sociais, nós padres ficaremos para trás”, assegura.

Na rede social, ele dá a benção a quem o procura e publica o “pensamento do dia”. Toda noite, ao final do dia, há uma nova mensagem do padre aos amigos, que totalizam 5 mil. E esse é um dos poucos jeitos de se encontrar o padre. Recém vindo de Nova Petrópolis, onde também ficou famoso, ele agora está reluso em uma casa da família ao topo de um morro, em Três Coroas, e é conhecido por quase todo mundo. O endereço para chegar à nova residência é simples: “Perguntem pelo Pe. Ari. Todo mundo sabe”, diz ele.

A popularidade do Padre Ari fez com que ele buscasse novos horizontes na web. Um amigo empresário sugeriu que ele criasse um site, já que no Facebook, ele está impedido de aceitar novos amigos. Com a ajuda de contatos fora das redes sociais, ganhou uma página que será lançada em breve. Lá estarão os pensamentos, orações, textos de reflexão e livros publicados do Padre Ari.

Texto: Gabriella Bordasch (8º semestre), Léo Cardoso (8º semestre), Paloma Poeta (8º semestre)
Imagens: Gabriella Bordasch e Paloma Poeta

Trabalho desenvolvido na disciplina Projeto Experimental III: Online, turma 349, primeiro semestre de 2013, sob orientação dos professores Dra. Andréia Mallmann e Me. Marcelo Träsel.

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