Porto-alegrenses seguem dirigindo alcoolizados, mesmo com tolerância zero

A falta de transporte público de qualidade em Porto Alegre garante que uma parcela da população que sai às ruas para conviver socialmente recorra ao expediente perigoso e ilegal de beber e dirigir. Nos personagens consultados pela reportagem, a mentalidade do “só é ilegal se você for pego” predomina. Com níveis etílicos diferentes, duas pessoas normais circulam pela capital do Rio Grande do Sul sem despertar suspeitas. Já passaram por blitze sem ser incomodadas. Nunca chegaram perto de um bafômetro. Uma delas pode estar ao seu lado.

— Uma lei que determina uma quantidade de álcool no sangue é totalmente arbitrária. O corpo de cada um processa o álcool de um jeito — avalia Roberto*, 52 anos — um teste de reflexos, avaliando como teu corpo se comporta com a bebida seria muito mais adequado — completa.

Roberto*, contador, dirige desde que pode. Começou a aprender antes dos 18 anos. Hoje, mais de três décadas depois, sai à noite quase todos os dias da semana para jantar com a família. A alimentação é, quase sempre, regada a vinhos, espumantes ou cervejas em quantidades comedidas — mas que garantem que ele está sempre contra a lei quando assume o volante na hora de voltar para casa. Em duas ocasiões, passou sem ser incomodado pelas blitze Balada Segura, da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC).

Para Roberto*, o transporte público da capital gaúcha não oferece opções razoáveis. Mesmo tendo renda familiar alta, acha que ir e voltar de táxi é muito caro; que os veículos não oferecem serviço compatível com o preço; que o serviço não é confiável o suficiente para que dele se dependa; que está mais seguro andando, mesmo após beber, no próprio veículo.

Já os mais jovens costumam ter uma postura mais crítica em relação à mistura bebida e direção. Isso não os impede, no entanto, de cometerem infrações. Fernando, de 29 anos, bancário, apoia a lei seca. Ao mesmo tempo, bebe socialmente e dirige de volta pra casa.

— A gente sai de manhã, normalmente, e surge um convite pra um happy hour depois do trabalho. Onde vou deixar meu carro? — questiona.

O preço dos estacionamentos também entra no cálculo. No Bairro Moinhos de Vento, uma pesquisa rápida demonstra que, só pela primeira hora, o consumidor despende R$ 14, em média. O pernoite não sai por menos de R$ 30 e ainda obriga a tomar um táxi para chegar em casa e pegar o carro de volta no dia seguinte.

O ônibus ou as lotações não são sequer cogitados por quem se arrisca no trânsito com os reflexos afetados pelo consumo de álcool.
A opinião da psicóloga Thayse Ávila Diehl — que, por sinal, jura que quando está dirigindo só toma Coca-Cola — é de que impera o complexo de invencibilidade.

— Quem dirige bêbado acha que não está errado. Que tomou um pouquinho só e ainda tem a capacidade de dirigir tranquilamente. Certamente se a pessoa dirige depois de ter bebido não pensa que pode ser parado numa blitz, hoje em dia, mas isso vem mudando — avalia

Mudando?

Por que a mentalidade de que se pode beber e dirigir sem ser admoestado por policiais está mudando? Porque as blitze de trânsito estão se tornando mais frequentes e presentes no imaginário popular. Do início com pompa e circunstância em Porto Alegre 2011 até agora, a operação Balada Segura se espalhou por mais sete cidades (Canoas, Alegrete, Ijuí, Esteio, Guaíba e Erechim), e deve chegar a um total de 21 municípios no Rio Grande do Sul em 2013.

Nos quatro primeiros meses do ano, as oito cidades com a operação do Detran-RS tiveram 897 registros de embriaguez ao volante – caracterizada por mais de 0,33 miligrama de álcool por litro ou pela recusa do exame. No total, 9.707 motoristas passaram pela abordagem dos órgãos de trânsito.

Texto: Igor Carrasco (8º semestre)

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