“Praticamente não dormi essa semana”, diz Lauro Jardim

Jornalista de O Globo que fez reportagem que abalou o governo Temer conta os bastidores da apuração para o Editorial J

  • Por: Italo Bertão Filho (3º semestre) e Samira Rodrigues (3º semestre) | Foto: Divulgação/O Globo | 19/05/2017 | 0

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Uma reportagem abalou as estruturas do poder em Brasília na última quarta-feira (17). Às 19h30min, o site do jornal O Globo publicou uma matéria do jornalista Lauro Jardim em que descrevia trechos de um diálogo comprometedor para o presidente Michel Temer. O furo de reportagem de Jardim repercutiu imediatamente em todo o país — o plantão jornalístico da TV Globo, exibido minutos depois da divulgação das informações no jornal, foi o mais visto da história, segundo dados do Ibope.

Jardim passou por várias redações de jornais e revistas do centro do país. Formado pela PUC-Rio, começou sua carreira em 1989 na editoria de Economia de O Globo, permanecendo no veículo até 1992. Em 1995, após breves períodos nas revistas IstoÉ e Exame e noJornal do Brasil, o jornalista tornou-se chefe da sucursal da revista Veja no Rio de Janeiro. Durante sua atuação em Veja, passou a assinar a coluna Radar. A partir de 2008, deixou de chefiar a sucursal da revista, dedicando-se exclusivamente à coluna, nas versões impressa e online. Em 2015, retornou para O Globo, no qual é responsável por uma coluna com seu nome, juntamente com os repórteres Bruno Góes e Guilherme Amado.

O Editorial J entrevistou o jornalista, que falou sobre os bastidores da reportagem que abalou o governo. Confira os principais trechos da entrevista:

Editorial J — Como foi o processo de apuração desta reportagem?

Lauro Jardim — (A apuração) começou quando uma fonte minha de muito tempo, uns quatro ou cinco anos, me ligou e disse que tinha uma bomba para me contar, mas que não era uma história completa. Fui ao encontro dessa pessoa, que me deu o centro da coisa: tinha a delação do Joesley (Batista, dono do grupo JBS), em que ele falava diretamente do (Michel) Temer e tinha a conversa com o Aécio (Neves). Mas isso era muito pouco. Depois fui complementando com outras fontes, cruzando informações para chegar à matéria que publiquei.

J — Como foi a sensação de publicar uma reportagem que mexeu com a República?

Jardim — Uma enorme tensão. É a tensão do jornalista de ter um material desse, ainda sem publicar, esperando a hora e data correta, com alguém podendo publicar antes de você. Basicamente, a tensão era essa. Essa semana eu praticamente não dormi.

J — Quanto tempo você levou para escrever a matéria?

Jardim – Um dia e meio. Da tarde de domingo à manhã de terça-feira.

J — Você se vê participando da história do país com o furo que deu?

Jardim — Não tenho tanto essa dimensão. No meu dia de trabalho, eu sei que tem uma importância gigantesca essa notícia, mas é mais um dia de trabalho. Talvez, mais na frente eu possa refletir sobre a importância do que eu publiquei. Por enquanto, é mais uma coisa. O dia segue, apesar da bomba.

J – A reportagem foi publicada pontualmente no site do jornal. Foi proposital?

Jardim – Uma reportagem como essa precisa de sigilo, porque não podia vazar. Internamente, pouquíssimas pessoas sabiam disso. Então, marcou-se um horário para poder colocar no ar, já que se sabia que a audiência do site iria crescer, houve uma preparação de estrutura para não cair o site.

J – Dias antes de publicar a matéria, houve um processo de sigilo em relação à matéria?

Jardim — No fim de semana, comuniquei ao diretor de redação que eu tinha essa reportagem e que ela poderia ser publicada a qualquer momento. Eu queria publicar logo porque podia vazar, então a partir dali nós começamos a montar uma estratégia com um grupo muito fechado. No dia em que (a reportagem) foi divulgada, somente cinco pessoas sabiam disso.

J — Houve pressão após a publicação de reportagem?

Jardim — Uma notícia de impacto sempre causa polêmica, mas isso é natural de qualquer notícia de impacto. Estou acostumado a isso.

J — O Globo publicou a sua reportagem mesmo sem os áudios, que foram divulgados no dia seguinte. Mesmo sem os áudios, a matéria ganhou repercussão. Foi o nome do jornal que pesou?

Jardim — Isso pesa muito. O Globo tem tradição de bom jornalismo e se está publicando (a matéria), o leitor ou quem estiver do lado vê que ali tem um esforço de reportagem e honestidade.