Prefeitura adia fechamento da EPA, mas destino de Escola ainda é incerto

A placa “para onde vamos?” erguida em meio a um grupo de estudantes da EPA no dia 6 de novembro dava notas de soprano à uma manifestação silenciosa. Desde que a Prefeitura de Porto Alegre anunciou o fechamento da instituição, estudantes e professores lutam para que a escola mantenha as portas abertas. Nesta terça-feira (18), vereadores se reuniram com representantes do poder público e da comunidade escolar e deram mais seis meses de funcionamento à Escola.

A EPA é uma das únicas escolas do país e a única de Porto Alegre destinada a moradores de rua de todas as idades, atendendo uma média de 40 alunos por dia. A história do projeto é longa e construída por mãos como as de Edson Campos, o “Beiço”, que faz questão de lembrar que morador de rua também é gente. Beiço pode não ter um teto, mas sabe tudo de cerâmica, é gremista, tira notas altas nas aulas de informática e curte a Rádio Putsgrila no Facebook – conhecer a rede faz parte do processo de socialização oferecido pelo EPA. Beiço já é de casa: está na Escola desde sua abertura há 19 anos. “Eu vi ela ser construída pelos próprios alunos”, conta, emocionando-se ao lembrar dos colegas que já partiram. “A Prefeitura só deu o material.”

A Secretaria Municipal de Educação (Smed) almeja o encerramento da modalidade EJA (Educação de Jovens e Adultos) para dar espaço a um novo projeto de ensino. A escola operaria da mesma maneira com que a EPA trabalhava no começo de sua história: educação tradicional, com ensino médio e fundamental, apenas para crianças e adolescentes. Para a EPA, entretanto, deixar de acolher adultos, especialmente os já matriculados, não é a solução. “Preocupamo-nos com o destino que nossos estudantes terão após o fechamento de nossa escola. Como e por quem serão acolhidos em todas as suas especifidades?”, a comunidade questiona em carta aberta.

A Escola não se limita a ensinar o bê a bá. Os estudantes recebem uma alimentação de qualidade, podem tomar banho e lavar suas roupas. Projetos de escrita, capoeira, futebol e consciência negra já aconteceram na instituição, que é um verdadeiro lar para os estudantes. Em janeiro, os alunos se reuniram e criaram o “Projeto Verão” da EPA, pequenas reformas para deixar a Escola mais bonita. Mas, para as próximas estações, tanto faz se a Escola estará em forma ou não: ela só precisa continuar aberta. “Tal notícia [do fechamento] foi recebida por nossos estudantes com extremo pesar, pois reviveram todas as situações de abandono e de exclusão que vivenciaram tantas vezes nas suas vidas.”

EPA funcionará até junho de 2015.
“Existe a possibilidade de construir uma escola infantil ao lado”, lembra Renato Farias, presidente do Conselho Escolar da EPA. “Não há a necessidade de encerrar um atendimento tão importante à população de rua”. Jorge Erivelton, um dos atendidos pelo programa, traduz o pensamento do presidente em uma frase mais a ver com a sua realidade: “tirar a roupa de um pra vestir o outro é a pior coisa que tem. Quer mais bandido na rua? É só fechar a EPA.”

O futuro da Escola é incerto, mas os esforços da comunidade têm sido reconhecidos. Desde que a Prefeitura de Porto Alegre anunciou o fechamento em outubro desse ano, uma série de mobilizações tem tentado manter a EPA em funcionamento. A ideia inicial era encerrar as atividades em dezembro, mas o prazo foi estendido. “A EPA funcionará até junho de 2015 e, até lá, matrículas de novos alunos serão aceitas somente para o Centro Municipal do Trabalhador (Cmet)”, explica Simone Lovatto, coordenadora do EJA na Smed. Segundo ela, os estudantes terão os mesmos professores, para facilitar a mudança.

A notícia trouxe um alívio – apenas momentâneo. Questiona-se os danos causados pela falta de uma política de atendimento e de redução de danos. “Não é qualquer escola que acolhe um morador de rua de maneira apropriada”, lembra Veridiana Farias, da direção do Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (SIMPA). Ela enfatiza a falta de oportunidades básicas para a população. “É muito vergonhoso que uma capital desse tamanho tem seu restaurante popular fechado há mais de um ano e meio. Esse projeto [da EPA], ao invés de fechado, tinha que ser multiplicado em Porto Alegre.”

Texto: Caroline Michaelsen
Fotos: Divulgação EMEF Porto Alegre

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