Profissão: treinadora de futebol

Calçar as chuteiras e ir a campo faz parte da rotina de Vanessa Cavalcanti desde os cinco anos de idade. O aprendizado do futebol na infância, tão comum para os meninos, é visto com naturalidade pela gaúcha nascida em Porto Alegre. Hoje, aos 20 anos, deseja ocupar um lugar diferente dos gramados: a casamata. Cursa a Faculdade Sogipa de Educação Física e busca, através do estudo e da prática, se qualificar para ser treinadora.

A paixão chegou através do pai. Depois de perceber o bom domínio e a intimidade de Vanessa com a bola, matriculou a filha na escola masculina Vera Cruz, na capital gaúcha. A jovem lapidou o talento disputando partidas com jogadores do sexo masculino, mas, atualmente, incentiva a atividade entre as mulheres. Através da página “Times x Times”, promove campeonatos da modalidade. O último, realizado neste ano em parceria com a Federação Gaúcha de Futebol Sete, teve, segundo Vanessa, a participação de cerca de 500 atletas.

Além dos confrontos que disputa, realiza estágios em diferentes escolas. É aí que a gaúcha troca o uniforme de jogadora pelo de treinadora e passa a trabalhar com meninos de dois a 17 anos. Embora garanta que nunca sofreu desrespeito por ser mulher, pretende seguir a carreira como técnica de futebol feminino.

“Quando surgirem as oportunidades para que eu possa colocar em prática tudo que aprendi e joguei, deverei optar por uma ou por outra. Por que o feminino? Porque foi onde eu realizei a maioria dos torneios”, explica sobre a decisão.

Possibilidades

A jornalista Christiane Matos, que atua no meio esportivo há sete anos, também enxerga possibilidades maiores para técnicas que decidem pelo futebol feminino. Segundo a repórter da Rádio e TV Bandeirantes, as mulheres já provaram que entendem da modalidade, mas o dia a dia dos clubes exige mais do que conhecimento técnico.

“Seria muito complicado uma mulher conviver no vestiário, ainda mais ocupando um cargo máximo na hierarquia. O vestiário e a cumplicidade desse momento de descontração são tão importantes quanto o conhecimento tático e técnico. Uma mulher dentro de um meio totalmente masculino perderia a naturalidade que o ambiente necessita”, aponta.

A opinião é compartilhada por Eduarda Streb, que está na imprensa esportiva desde 1999. Quando começou a carreira, a repórter da RBS TV precisou encarar dificuldades até mesmo na hora de entrevistas. Antes dos clubes brasileiros construírem salas específicas para jornalistas, as declarações eram feitas dentro do próprio vestiário. Com jogadores enrolados em toalhas, era necessário conquistar o respeito tanto dos atletas quanto dos colegas de profissão.

Atualmente, Eduarda enxerga que a dedicação e o envolvimento do sexo feminino derrubaram barreiras criadas pelo preconceito. A estrutura dos times, entretanto, ainda dificulta a rotina. “Acredito que os clubes ainda não estão preparados. Quem sabe daqui a algum tempo? Mas não é só pela mentalidade, é também pelo espaço físico. Ainda hoje trabalhamos em estádios modernos que não têm banheiro feminino para a imprensa. Difícil de acreditar, mas acontece. Seria mais um obstáculo a ser superado pelas mulheres que apreciam futebol. O mais comum, na Europa, é vê-las treinando times e seleções femininas”.

Para quem tem experiência com vestiário, a situação hipotética é interpretada como “muito interessante”. O ex-treinador Valdir Espinosa, campeão do mundo com o Grêmio em 1983, sustenta que a menina tem que ser, em primeiro lugar, corajosa. Em sua visão, a trajetória de Vanessa vem sendo correta. A melhor opção, segundo ele, é começar pelas categorias de base, para adquirir aprendizado com os pequenos e chegar ao profissional com experiência para lidar com homens adultos.

Espinosa acredita, no entanto, que é preciso persistência, força e tranquilidade para saber driblar a desconfiança dos demais. “O princípio para ser treinador é ter conhecimento. E esse conhecimento não está restrito aos homens. É preciso apresentar ideias, propostas, para que as portas sejam abertas. Mas toda a novidade causa um ‘pé atrás’. Justamente pela quebra de padrão. Ela teria que entrar bem ciente das dificuldades que teria pela frente”, completa.

Próximos passos

Para seguir na carreira, Vanessa Cavalcanti pretende fazer o curso profissionalizante de treinador. Na faculdade, tem disciplinas de futebol e futsal, mas ainda é preciso realizar as aulas, que ocorrem no prédio da Prefeitura de Porto Alegre. De acordo com dados do Sindicato dos Treinadores Profissionais do Estado, a média é de uma mulher inscrita a cada edição do curso, que ocorre duas vezes por ano, desde 2003.

A jornalista Christiane Matos foi uma delas. Sem intenção de atuar como técnica, realizou o curso para ampliar os conhecimentos na área. Neste ano, também se tornou a primeira mulher a assumir um cargo na direção da Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos (Aceg).

A atuação do sexo feminino na direção de ambientes tipicamente masculinos, aliás, foi ampliada nos últimos anos. No Brasil, Patrícia Amorim, que comandou a presidência do Flamengo entre 2010 e 2012, é um dos exemplos. Diana Oliveira, primeira mulher a assumir um posto na presidência do Internacional, também quebrou barreiras. A repórter da Rádio e TV Bandeirantes enxerga que, na área de diretoria, existe boa probabilidade de sucesso das mulheres. “Acredito sim que, no futuro, poderemos ter uma mulher comandando um clube de futebol do Rio Grande do Sul. Acho que ainda vai demorar. A Diana Oliveira está começando a abrir esse espaço, mas daí a ocupar o cargo máximo do clube será um caminho mais longo. Competência eu não tenho dúvidas que as mulheres têm para assumir tal função”, completa.

Enquanto as possibilidades ficam ainda no papel, a estudante Vanessa segue na preparação para realizar seu sonho. Seja treinando meninos de dois a 17 anos ou buscando novos conhecimentos sobre as táticas do esporte, o objetivo é o mesmo: ocupar a área técnica durante as partidas de futebol

Texto: Paula Menezes Burchardt

1 comentário

  • EDUARDO
    1:10

    É verdade, ela é muito especial.

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