Quando as marcas são invisíveis

Pesquisa feita pelo Editorial J mostra que 93,75% dos entrevistados já sofreram pelo menos uma situação descrita como abusiva.

  • Por: Kamylla Lemos (6º sem.) | Foto: Roberta Requia (1º sem.) | 19/10/2016 | 0
Durante o namoro Marina não podia postar selfies sem que o namorado brigasse com ela
Durante o namoro Marina não podia postar selfies sem que o namorado brigasse com ela

Era outono, quando Lucas* caminhou até o colégio de Marina, com o objetivo de pedi-la em namoro. Inspirado em uma das cenas do filme Simplesmente Amor – que eles tinham visto juntos -, no qual o personagem de Andrew Lincoln declara seu amor para a melhor amiga por meio de cartazes, Lucas apareceu na saída da aula, com anel de compromisso, flores e, claro, cartolinas. Ao contrário do filme, que contava a história de um amor não correspondido, Marina aceitou o pedido.

Mas havia um problema. Ciumento, não gostava que Marina publicasse fotos, dizia que ela estava querendo chamar a atenção. Além disso, o namorado também possuía problemas com as roupas que ela usava. “Estávamos indo para o show acústico do NxZero e eu estava com uma calça de couro. Ele dizia que eu estava muito vulgar, que estava aparecendo a minha bunda, que eu não ia com aquela calça de jeito nenhum”, conta. Ele foi até o guarda-roupa da mãe, pegou uma legging, vestiu e ameaçou sair daquele jeito. Marina acabou trocando de roupa. O que ela não sabia, na época, era que estava em um relacionamento abusivo.

Essa situação, aparentemente inofensiva mas corriqueira enfrentada pela Marina ilustra uma das conclusões da pesquisa realizada pelo Editorial J, em agosto de 2016, sobre relacionamentos abusivos. Segundo os dados, 93,75% dos entrevistados passaram por pelo menos uma situação descrita como abusiva. Além disso, a pesquisa mostra que são as mulheres que mais sofrem, com 53,6%, seguidas dos homens com 45,6%. Quando questionados se a família ou amigos já haviam incentivado eles a terminarem o relacionamento tóxico, 53,3% disseram que não e 46,8% responderam que sim.

 

Segundo a psicóloga Ligia Baruch, especialista em terapia de casal, esses relacionamentos são aqueles nos quais predominam o controle, o ciúmes, a possessividade e a imaturidade emocional em detrimento de prazer, companheirismo, confiança e crescimento mútuo. “Neste tipo de relação, as crises, brigas, xingamentos e tristezas são frequentes e nunca levam a um amadurecimento da relação. A sensação é de ‘beco sem saída’ e de empobrecimento emocional e social”, explica.

Em alguns momentos, Lucas agia de forma diferente, como no aniversário de um ano de namoro, no qual ele preparou um jantar à luz de velas. “Aconteciam essas coisas fofas. Aí eu pensava que não merecia ele”, afirma Marina. Durante o tempo em que ficaram juntos, o casal terminou por dois meses. Ela beijou um homem e, depois de reatar o namoro, manteve a amizade. Um dia foi para o banho na casa do namorado e deixou o celular, com senha, na cama. Quando voltou para o quarto, Lucas estava irritado, jogou a aliança de namoro longe e disse: ou ele ou eu.

As brigas por ciúmes eram constantes. “Era muito estranho, porque ele podia ter amigas mulheres e eu não podia ter amigos homens”, reflete. Marina percebeu que deveria dar um tempo na relação. Nessa época, já tinha crises de ansiedade porque sabia que o relacionamento ia acabar. “Não queria terminar, mas sabia que não deveria ficar me sujeitando àquilo”. Um dia após ela pedir o tempo, Lucas terminou o relacionamento.

Depois do término, descobriu que ele tinha instalado um programa no computador que salvava as senhas quando alguém digitava. Era assim que ele lia as conversas dela no Facebook. “Realmente achava que postando tantas fotos minhas, estava me exibindo para todo mundo, achava que não podia usar roupas curtas. E quando as pessoas diziam ‘A Marina tá louca, nao sai do pé dele’, eu achava que eu estava louca”, conclui.

Marina faz parte da estatística que mostra que 36,3% das pessoas já se sentiram em alteradas/fora de si em alguma situação de conflito com o parceiro. Esses dados foram coletados pelo Editorial J por meio de formulários, aplicados no Centro Histórico, Parque Germânia e Shopping Iguatemi,  nos quais eram apresentados uma série de situações consideradas abusivas que o entrevistado deveria assinalar caso tivesse experienciado aquilo no relacionamento.

As opções mais marcadas foram: quis ler suas mensagens em redes sociais ou whatsapp (55,5%), agiu como se estivesse sempre certo (52,8%), fez com que você se sentisse culpado após uma briga mesmo estando certo (51,7%), justificou o comportamento dele colocando a culpa em você (41,1%) e falou para você excluir pessoas de suas redes sociais (38,1%). Isso revela que as opções que falavam sobre a interferência de novas tecnologias eram sempre citadas pelos participantes.

Para o presidente da Associação Brasileira dos Profissionais de Saúde, Educação e Terapia Sexual (Abrasex), Paulo Tessarioli, as redes sociais podem tanto ajudar como atrapalhar um relacionamento. O psicólogo e especialista em relacionamentos digitais acredita que o ciúmes se amplifica online, por ser mais acessível. “Essas questões que permeiam os relacionamentos, se tornam mais visíveis. É mais fácil de ver o que o outro está fazendo, com quem ele está se relacionando”, fala.

Relacionamentos abusivosE foi através de uma rede social de encontro, o Tinder, que Miguel* conheceu Gustavo*. No começo, dava muitos presentes para Miguel, o levava para jantar regularmente e era muito carinhoso. “Ele sempre me falava o quão bom ele era nas coisas que fazia, que era um guri que não existia mais”, relata. Além disso, o fato de Miguel não sentir ciúmes o incomodava. Um dia, Gustavo ameaçou que o traria, porque, em sua opinião, quem ama sente ciúmes. Na época, Miguel estava com 21 anos e Gustavo, 24.

Com o passar dos meses, o relacionamento começou a mudar. Na frente da mãe de Miguel – e de outras pessoas -, o namorado era incrível. Mas, ele não podia sair mais com os amigos e, se chegasse mais tarde em casa, isso já era motivo para que Gustavo brigasse com ele. “Chegou um momento que ele tinha ciúmes de coisas absurdas. De gente da minha família. Tudo”, comenta.

Em uma das brigas, Miguel reclamou por Gustavo nunca sair com seus amigos. “Ele disse que eu não podia terminar. Que eu não ia ser nada sem ele, que nunca ia arrumar ninguém que fosse tão bom quanto ele era para mim”, relembra. O comportamento que pode parecer romântico, na verdade é abusivo.  A frase “você nunca vai amar alguém como eu amo você” pode ser considerada uma declaração romântica, o que mostra uma naturalização das relações abusivas. Na pesquisa, 29,6% das pessoas responderam que já ouviram isso.

As críticas constantes de Gustavo fizeram com que Miguel parasse de fazer as coisas de que gostava. O namorado tentava, também, controlar a vida acadêmica dele. Para Gustavo, o parceiro não podia entrar na PUC e, sim, na UFRGS. Além disso, o curso escolhido também deveria mudar de Biologia para algo que, segundo ele, desse dinheiro. Por isso, Miguel quase desistiu de entrar na faculdade.

Um ano e meio após o início do namoro, Gustavo o traiu em uma festa. “Estávamos numa festa juntos. Desci para dançar com uma amiga. Quando subi, vi que ele estava beijando um cara”, relata. O namorado colocou a culpa em Miguel, dizendo que o tinha deixado sozinho. Além disso, também existia um outra pessoa por quem Gustavo era apaixonado, e, cada vez que o homem acabava seu relacionamento, o namoro de Miguel também acabava. Isso aconteceu quatro vezes.

Após ser deixado sozinho em uma rua de Porto Alegre, Miguel terminou o namoro. Em uma madrugada, após receber um pedido para reatar, ele disse que não queria. Eram três da manhã quando o ex-namorado apareceu na frente da casa de Miguel, com uma faca na mão, dizendo que se mataria caso não voltassem. Com as insistências de Gustavo e também da mãe de Miguel, eles acabaram voltando. Mas, assim como os 35,7% dos entrevistados que responderam que o parceiro disse que mudaria após uma tentativa de término e não mudou, a relação continuou abusiva.

Eles terminaram de novo em junho de 2015, quando Gustavo disse que estava apaixonado por outra pessoa, que eram muito diferentes, que, enquanto ele queria adotar uma criança, Miguel não. “Perdi a motivação para tudo. Não saí de casa nas férias de julho, não comia. Senti vontade de me matar”, lembra. Miguel se sentiu culpado após o término. Começou a tomar antidepressivos e calmantes, além de participar de terapias em grupo. “O pior é depois que a gente se afasta, a gente começa a romantizar a situação”, diz.

Um dos grandes problemas deixados por Gustavo é que até hoje Miguel encontra dificuldade para fazer as coisas que gosta. A psicóloga Ligia esclarece que os relacionamentos abusivos podem deixar sequelas emocionais como medo de intimidade, fobias, depressão e ansiedade em diversos níveis. Além disso, ela fala que esse sentimento de posse do abusador é gerado por uma insegurança profunda, problemas de vínculo que levam ao pavor de ser abandonado, mas por outro lado não possui recursos emocionais para cuidar do outro. “Não sabe dar, mas cobra receber”, completa.

E foi o que aconteceu com a Nicole*.  Ela conheceu Rafaela* por intermédio de outra amiga. “Ela nunca tinha se relacionado direito com meninas. Acabei sabendo depois que ela começou a ficar comigo para experimentar, mas no fim até se descobriu lésbica”, conta. Aos 18 anos, as duas se aproximaram na mesma hora em que se conheceram, e, a partir daí, não passavam um dia longe da outra. Elas tinham um namoro aberto, ou seja, elas podiam se relacionar com outras pessoas. Rafaela tinha muito ciúmes, mas não queria fechar o namoro.

Isso deixava Nicole muito desgastada, porque ao mesmo tempo que Rafaela saía com pessoas diferentes, Nicole não podia nem conversar com suas amigas. Nessa época, ela resolveu contar para a mãe que era lésbica. Acabou expulsa de casa. Uma de suas amigas ofereceu para ficar morando na casa dela, mas a namorada tinha muito ciúmes e não deixava que ela ficasse lá. “Nisso eu já estava desencadeando uma crise depressiva”, diz. Mas a atitude de Rafaela não é incomum. Na pesquisa feita pelo Editorial J cerca de 33,3% dos entrevistados já estiveram em um relacionamento em que o namorado tentou controlar o círculo de amizades.

Sem nenhuma amiga, Nicole só falava com a namorada e o melhor amigo. Ela não conseguia sair de casa e nem ir para a aula. Foi quando ela começou a ir em um psiquiatra, que indicou remédios paro o tratamento. Um dos efeitos colaterais era a perda de libido. Foi quando Rafaela começou a fazer chantagem emocional por causa da falta de sexo. “E então comecei a me forçar a fazer algumas coisas para não perdê-la”, afirma. Nicole não é a única, 22,1% das pessoas afirmam ter feito sexo sem vontade após pressão do parceiro.

Certo dia, Nicole comentou que iria viajar para Santa Catarina, para visitar o melhor amigo, mas Rafaela disse que não deixaria. Elas brigaram e no outro dia Rafaela terminou o namoro por Whatsapp. Durante duas semanas, ela recebia mensagens pedindo para voltar. Nicole explicava que não estava pronta para isso, que estava depressiva. Um tempo depois elas se encontraram numa festa, as duas estavam bêbadas e começaram a discutir. No fim da noite, foram para a casa de uma amiga da Rafaela onde acabaram transando.

Depois disso a ex de Nicole pediu para voltar o namoro. Após ouvir um não, Rafaela a acusou de ter abusado dela na noite em que haviam transado. “Eu fiquei muito mal, porque abuso é o maior gatilho para mim. Ela sabia disso, porque eu já tinha sido abusada algumas vezes”, completa. Na consulta com a psiquiatra, Nicole contou sobre os abusos como forma de desabafo. A psiquiatra a culpabilizou pelo acontecimento e deu a entender que ela só era lésbica por ter sido abusada por um homem. “Cheguei em casa e tentei me matar tomando todos os remédios que eu tinha. Meu melhor amigo chegou lá e me impediu de tomar muita coisa”, conta. Depois disso, não procurou mais a ex-namorada.

Relacionamentos abusivos estão presentes no nosso dia-a-dia de forma muito natural. A psicóloga Ligia aconselha as pessoas que acreditam estar passando por essa situação a fazer uma autorreflexão para se avaliar. E, também, a observar comentários de familiares e amigos que convivem com o casal. Caso a pessoa esteja em uma situação onde ela é o abusador ou o abusado, deve procurar ajuda e tratamento psicológico.

 *Nomes trocados para preservar a vítima