Réquiem para o teatro da OSPA

Em uma das regiões mais estimadas de Porto Alegre definha uma construção que marcou a história da Capital. O prédio do antigo Teatro Leopoldina – posteriormente Teatro da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) –, na esquina da Avenida Independência com a Rua General João Telles, está com os dias contados.

Desativado desde 2008 e com a estrutura comprometida, o local aos poucos perdeu seu encanto. As paredes que abrigaram desde os acordes de Ástor Piazolla ao reger intenso do maestro paulista Isaac Karabtchevsky, passando por outros diversos espetáculos musicais e teatrais, se desgastam lentamente. Hoje, ratos correm pelo piso que refletiu um tempo dourado da cultura porto-alegrense.

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Avenida Independência, da cultura ao comércio

O prédio, propriedade da família Satt – tradicional investidora no mercado imobiliário de Porto Alegre –, teria sido recentemente negociado com uma construtora da Capital especializada em grandes empreendimentos residenciais. Após a sala de espetáculos ter permanecido fechada por três anos, uma reforma deverá transformar o antológico teatro em um edifício de 14 andares. Os proprietários do imóvel não querem se pronunciar sobre a transação. Apesar disso, a informação é confirmada por três pessoas ligadas ao local de formas diferentes e que preferem não se identificar. O teatro está abandonado desde julho de 2008, quando Karabtchevsky regeu a última apresentação da OSPA na Independência e a direção da orquestra resolveu encerrar o ciclo nesse endereço em decorrência dos riscos e da insalubridade.

Os 20 anos de Leopoldina

A construção que abrigou o Leopoldina e a OSPA sempre foi curiosa: no térreo, o imponente teatro. Acima dele, o esqueleto de um prédio nunca finalizado. A arquiteta Juliana Pasquetti Conelli, que durante a faculdade pesquisou sobre o edifício, aponta que problemas com o Plano Diretor da cidade motivaram a não conclusão das obras.

Quando começou a ser erguido, em 1958, o imóvel atendia a todos os requisitos da prefeitura. Em 1963, a construção parou por alguns meses. Os proprietários resolveram retomá-la ainda no mesmo ano, mas uma mudança na legislação, que dizia respeito ao número de garagens necessárias no edifício, tornava o projeto ilegal. Seria necessário adaptar a concepção original, o que acabou não acontecendo. O que a princípio seria uma torre de 15 andares acabou virando uma carcaça de sete pavimentos. Depois desses entraves, Porto Alegre perdeu a chance de ganhar um ambiente que abrigaria mais do que espetáculos. “Existia a possibilidade de tornar o imóvel um apart-hotel que hospedaria, alguns lances de escada acima do palco, artistas e técnicos que fossem trabalhar no teatro, além de espectadores”, conta Juliana.

Apesar dos percalços durante a construção, o Leopoldina prevaleceu. Inaugurado oficialmente em outubro de 1963, foi apenas em abril do ano seguinte, mês marcado pelo início da ditadura militar brasileira, que a casa teve seus 1.230 lugares ocupados pela primeira vez. A peça era My fair lady, texto do norte-americano de George Bernard Shaw e montagem de Moss Hart, que encantou o público porto-alegrense desacostumado com a extravagância musical importada da Broadway. Em cima do tablado da Avenida Independência, Bibi Ferreira e Paulo Autran, falecido em 2007, deram vida aos personagens principais.

Em 1968, foi encenado Roda Viva, texto adaptado da música de Chico Buarque. Na primeira noite da temporada, no dia 3 de outubro, militares à paisana distribuíram panfletos com o alerta: “Hoje preservaremos as instalações do teatro e a integridade física da plateia e dos atores. Amanhã, não!”. No dia seguinte à peça, as paredes do Leopoldina amanheceram pichadas com ameaças. Intimidado, o elenco decidiu sair de Porto Alegre. Na rodoviária, foi surpreendido por oficiais. Cerca de 30 homens espancaram os 28 artistas e sequestraram os atores Elizabeth Gasper e Zelão, liberados em uma clareira fora da cidade depois de horas de tortura psicológica.

“Era um local e uma época de grande efervescência cultural”, garante Diônio Kotz, presidente da Associação de Moradores e Amigos do Bairro Independência (Amabi). Diônio, dono da Academia Mudança, mora e trabalha no bairro há mais de 30 anos. Vindo de Cerro Largo, na região norte do Estado, aprendeu a compreender e viver Porto Alegre através da agitada vida que a Independência proporcionava nos idos de 1970. Após uma década recebendo nomes expressivos da música, como a norte-americana Ella Fitzgerald e os brasileiros Elis Regina e Gilberto Gil, além de diversos espetáculos teatrais, nos anos 1980 o Leopoldina entrou em declínio. A família Satt teria perdido o interesse em explorar o local. “É preciso considerar a questão histórica e as mudanças culturais da época”, analisa Juliana. “A proliferação dos cinemas e dos shopping-centers fez com que vários teatros entrassem em decadência naquela década.”

Em 1981, as portas foram fechadas para reabrirem apenas em 1984, dessa vez com um novo nome: Teatro da OSPA. A esquina da Independência voltou a ser referência para os porto-alegrenses e assim permaneceu pelos 24 anos seguintes.

Depois, a decadência

Falhas na rede elétrica, no encanamento e no sistema de ar condicionado não são exclusividade do prédio abandonado que é visto hoje na Independência. Presidente da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, o cardiologista Ivo Nesralla avalia que o teatro já apresentava falhas na estrutura desde que a orquestra se mudou para lá. “O sistema hidráulico e de energia já deixavam muito a desejar”, lembra. A refrigeração da sala sinfônica, que funcionava à base de gás amônia, era uma situação especialmente perigosa: a Brigada Militar chegou a alertar Nesralla a respeito de um possível vazamento do gás, que é altamente tóxico e poderia ser fatal aos espectadores presentes. “Entre ser o responsável pela morte de outras pessoas ou sair dali, a equipe da OSPA resolveu deixar o local”, esclarece.

Antes de se retirar definitivamente da Independência, a OSPA fez algumas tentativas de desapropriar o prédio. Nesralla conta que chegou a acertar com o dono do imóvel a quantia necessária para a desapropriação. “Infelizmente, o dinheiro que vinha do Ministério da Cultura precisou passar pela Secretaria de Educação e nesse imbróglio governamental se perdeu a verba”, lamenta. Sem possibilidade de apropriar-se do edifício e tendo que lidar diariamente com os inúmeros defeitos da construção, no dia 1º de junho de 2008 a orquestra realizou seu derradeiro concerto no local, emocionando o público que lotou a casa ao som de Uma vida de herói, de Richard Strauss.

A separação deixou ambos sem norte: a orquestra, desabrigada, e o teatro, vazio. O abandono do prédio, somado ao movimento das casas noturnas da Avenida Independência, fez com que lojas que ocupavam o andar térreo também saíssem à procura de novas locações. Os frequentadores dos estabelecimentos próximos depredavam a fachada das lojas, que tinham que ser constantemente limpadas e renovadas. Enquanto a poeira se acumulava sobre a antiga bilheteria, em apenas dois anos o edifício passou novamente a ser apenas uma carcaça, despertando um misto de revolta e nostalgia nos moradores da região. “É muito triste ver o prédio assim. Esses dias, chegou a entrar na minha casa um rato que saiu dali”, indigna-se Léa Quites, moradora do condomínio vizinho. “Tenho certeza que a maioria das pessoas do bairro gostaria que a OSPA tivesse permanecido aqui, mas a situação está crítica. Pelo menos vão fazer alguma coisa”, conclui, referindo-se à construção do novo empreendimento.

Enquanto sua antiga casa definhava, a orquestra seguiu tocando em palcos emprestados, sem locação fixa. “Seguramente a relação da cidade com a OSPA se enfraqueceu pela falta de um espaço físico”, lastima Nesralla. “É muito simples: não existe time de futebol sem estádio, não existe orquestra sem sala sinfônica.” A OSPA aguarda recursos para a construção de seu novo teatro, no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, orçado em R$ 32 milhões e sem previsão de início das obras.

Se a OSPA luta pra reafirmar sua posição como ícone cultural de Porto Alegre, provavelmente o antigo teatro não terá a mesma sorte. A memória sucumbiu ao mercado imobiliário: palco, bilheteria e poltronas, assim como o esqueleto incompleto acima deles, deverão dar lugar a galerias de lojas e apartamentos residenciais.

Texto: André Pasquali, Marcelo SarkisNatália Otto

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