Rock com baião rende cinebiografia de Raul Seixas

“Eu gosto de cinema, sou apaixonado por cinema, tenho um monte de livros sobre cinema e espero acabar em Hollywood fazendo filme”. Com esse depoimento, uma citação do escritor Allen Ginsberg e imagens do clássico da contracultura “Easy Rider/Sem Destino” começa Raul Seixas – O Início, O Fim e o Meio, documentário sobre o maluco beleza. Logo na terceira semana de exibição, o filme superou a marca de 100 mil espectadores, entrando assim para o seleto grupo dos cinco documentários mais vistos do Brasil e ainda em exibição em Porto Alegre (no Guion Center).

Com direção de Walter Carvalho, o filme mostra a trajetória do cantor e compositor brasileiro que viveu e morreu por sua obra. O baiano magro e cabeludo, inquieto, irreverente, extremamente original, passou por várias metamorfoses ao longo de sua carreira que, apesar de altos e baixos, angariou a fidelidade de milhares de fãs. Com apenas um álbum, Gita, chegou a vender 600 mil cópias. Outro detalhe é que Raulzito é o artista póstumo que mais vende discos no país, cerca de 300 mil cópias por ano.

O documentário reúne imagens inéditas de arquivos e 54 entrevistas realizadas em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, Suíça e Estados Unidos. Entre os entrevistados estão familiares, amigos da adolescência, admiradores famosos como Caetano Veloso e Pedro Bial, e os parceiros, Paulo Coelho e Marcelo Nova, este responsável pela realização de 50 shows pelo país nos últimos anos de vida de Raul. Sua conturbada vida pessoal é lembrada com depoimentos de ex-esposas – Edith, que apenas lê uma carta dizendo que não quer falar de Raul, Glória e as três ex-companheiras Tânia, Kika e Lena.

O filme aborda mais do que temas como drogas, misticismo e magia negra. Raulzito é descoberto aos poucos por Walter Carvalho. Em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, o diretor afirmou que, antes de fazer o documentário, conhecia pouco o cantor, o qual mantinha admiração pelo mesmo ídolo Elvis Presley.

Como sugere o título, o filme narra a trajetória do cantor em ordem não cronológica. Raul lenda, que mostrava toda sua genialidade em suas letras e na sua forma subversiva de existir, que rejeitava a noção de verdade absoluta e que dizia que fazia música para que as verdades individuais pudessem emergir. E o Raul que, em certa época, caiu no esquecimento, doente com problemas decorrentes da dependência do álcool.

Um dos pontos altos do documentário é a entrevista com o escritor Paulo Coelho, parceiro de Raul nas composições, nas drogas e na Sociedade Alternativa – criada por eles inspirada nas pregações do bruxo inglês Aleister Crowley. O melhor momento fica a cargo da mosca que pousa no escritor enquanto ele fala das brigas e rixas com Raul. Paulo Coelho comenta que não tem mosca na Suíça, diz que não vai matar e, no segundo seguinte, sorri e dá um tapa.

O que incomoda um pouco no filme são algumas entrevistas dirigidas e um pouco carregadas de melodrama. A opção do diretor de excluir, por exemplo, a famosa história de que a polícia não deixou Raul cantar porque não acreditava que ele era o Raul Seixas também faltou. Mesmo assim, o filme faz muito bem o que se propõe, contar a incrível história da vida do homem de diversas facetas que era Raul, do ator que dizia fingir ser cantor, que não fazia música de protesto, mas sim Raulseixismo e que continua mobilizando uma enorme legião de fãs mesmo 22 anos depois da sua morte.

Texto: Liege Ferreira (7º semestre)

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