Sabor sem crueldade

Cada vez mais popular, o sabor das comidas veganas atrai adeptos além do veganismo

  • Por: Yasmim Girardi (2º semestre) | Foto: Yasmim Girardi (2° semestre) | 19/11/2018 | 0

“Sempre que levo meus amigos em algum restaurante vegano eles ficam espantados com o quanto a comida é gostosa e, muitas vezes, dizem até que não acreditam que não tem carne”, relata o estudante Lucas Jensen, vegano há seis meses. O veganismo é um estilo de vida que busca excluir, na medida do possível, todas as formas de exploração animal. Embora haja pessoas que acreditem se tratar de uma dieta, o veganismo é uma ideologia que visa a não-exploração em todos os aspectos da vida — vestimentas, cosméticos e etc. — e da sociedade. Independente de ser veganismo ou vegetarianismo estrito — exclusão de produtos de origem animal apenas da alimentação —, uma dieta sem nada oriundo de animais causa estranhamento, uma vez que boa parte da sociedade está acostumada a consumir leite, ovos e carne em pelo menos uma das refeições diárias.

Considerando que o Brasil é o país que mais exporta carne bovina, é compreensível que exista resistência a dietas sem crueldade. Quem defende o veganismo afirma que ser livre de exploração não significa, necessariamente, ser livre de sabor. “As pessoas têm esse tabu de que é só salada, soja e coisa sem gosto. Mas na verdade não, tu pode desfrutar dos mesmos pratos e mesmos sabores, senão melhores”, afirma a estudante Isabel Gomes que, mesmo consumindo carnes e derivados, gosta de frequentar restaurantes veganos.

O preconceito que cerca o veganismo impossibilita que muitas pessoas experimentem uma culinária livre de crueldade. Em razão disso, a apresentação do prato é um fator determinante na escolha, independente do sabor. Rodrigo Marenco, dono e cozinheiro do Brisas Gastronomia, restaurante vegano em Porto Alegre, afirma que a apresentação do prato é importante para todos os tipos de culinária, mas quando se trata de pratos veganos para um público onívoro, o visual conta cerca de 30% ou mais. “Tem gente que por ser vegano tem menos barreiras quanto a isso”, comenta ele quanto a resistência à comida vegana. Isabel acredita que a aparência não influencia na escolha. Já outras pessoas consideram a apresentação extremamente importante como é o caso de Danyele Wilbert e Fábio Loureiro, que também consomem carnes e derivados. “Muitas coisas podem não me despertar a vontade de comer se parecerem ‘feias’ no prato, acho que a visão é uma das coisas que despertam o apetite”, declara Danyele.

Uma das preocupações que o veganismo traz é a que diz respeito à saúde, tendo em vista que muitas pessoas acreditam que uma alimentação sem carne e derivados é desprovida de proteínas, minerais e vitaminas. No entanto,  alimentos como amêndoas tem uma quantidade de cálcio tão significativa quanto o leite de vaca, e as leguminosas oferecem tanta proteína quanto a carne bovina. Vitaminas como a B12, porém, são encontradas somente em carnes e derivados de animais; é necessário, então, que haja uma suplementação da vitamina. Alguns veganos também têm a necessidade de suplementar outras vitaminas e minerais, como o ferro. “A questão da suplementação nessas dietas veganas não é uma regra, por isso é importante ter acompanhamento médico”, ressalta a nutricionista Márcia Porto. Ainda sim, a nutricionista afirma que uma alimentação vegana é propícia para qualquer fase da vida – infância, adolescência e gestação – e pode ser apropriada para qualquer pessoa, inclusive atletas.

Além disso, Márcia afirma que o veganismo é extremamente benéfico à saúde e acredita que quem segue essas dietas está menos sujeito a algumas doenças. “As dietas veganas, quando são bem planejadas, são nutricionalmente adequadas e podem proporcionar altos benefícios como o tratamento de doenças como aterosclerose, diabetes tipo 2, hipertensão e certos tipos de câncer”, aponta.

A nutricionista garante que uma alimentação vegana não foge de uma alimentação onívora, portanto deve ser equilibrada, não existindo nenhum alimento que seja considerado essencial para veganos. Ela explica que as proteínas são formadas por alguns aminoácidos que o corpo humano não produz, então é importante ter uma alimentação variada. “Se consumirmos os vegetais de forma variada, garantimos o porte de aminoácidos necessários para sintetizar as proteínas”, complementa ela. Rodrigo acredita também na importância de uma alimentação variada e afirma que esse fator é considerado na hora de montar o cardápio do Brisas Gastronomia com uma nutricionista, além de ponderar a sazonalidade dos alimentos.

O estilo de vida vegano é diretamente ligado ao consumo consciente, tendo em vista que veganismo não é apenas uma dieta; e, consequentemente, o consumo de produtos industrializados é menor, abrindo espaço para a comida caseira. Rodrigo afirma que para uma comida ser saborosa, ela deve ser feita com amor e alguns temperos. “O lado bom da comida vegana é que não tem exploração animal em nenhuma parte do processo. Em termos éticos, não fere ninguém. É uma comida feita com alma”, garante. Ainda que alguns onívoros que frequentam restaurantes veganos não considerem aderir a essa ideologia, a redução do consumo de carne tem impacto na saúde, na vida dos animais e no meio ambiente.

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