Salário mínimo é menor que o custo médio do aluguel nas grandes cidades brasileiras

Das cidades analisadas, 4 em cada 5 não têm o salário mínimo maior que a média de um aluguel para um apartamento de dois cômodos

  • Por: Eduardo Lesina (2º Semestre) | 16/06/2017 | 0

Morar em grandes centros urbanos torna-se uma missão complexa de realizar quando se compara o valor do salário mínimo com o aluguel médio no Brasil. Dados levantados pelo Editorial J constatam que, em 80% das cidades analisadas, o valor do aluguel supera a totalidade do salário mínimo.

O índice FipeZap, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), publica, mensalmente, índices sobre o valor dos imóveis para compra e locação. No mês de abril, por exemplo, a fundação registrou média de R$ 28,67 por metro quadrado – para locação – nas 15 cidades analisadas. Relacionando o valor com o salário mínimo, seja o nacional ou a média por Estados, com o custo de um aluguel de 60 m² – área que pode ser considerada necessária para comportar dois dormitórios -, é possível estimar o peso do aluguel na renda do brasileiro, como analisado no gráfico abaixo:       

 

Para a arquiteta e urbanista Cibele Vieira, essa diferença entre salário mínimo e preço médio dá-se pelo controle do mercado de investidores sobre o direito de habitação. “O mercado de investidores visa o lucro, o que faz essa diferença ser tão notória”, explica Cibele.

Se se considera que o ideal, também usado pelo próprio mercado imobiliário, é não exceder entre 30% a 35% do salário com moradia – somando aluguel, condomínio e IPTU -, a situação se torna ainda mais discrepante: o salário mínimo vigente é menos da metade do necessário. O economista e doutor em economia aplicada, Gustavo Inácio de Moraes, analisa: “os centros urbanos tendem a forçar essa disparidade de preços. Inclusive quando o salário mínimo, de 2004 a 2016, era reajustado acima da inflação”. A partir desse cenário, o Editorial J criou, para fins de comparação, uma estimativa de salário em que se reservasse uma fatia de 30% para cobrir o custo com moradia:

 

O processo de urbanização brasileiro está ligado ao de industrialização. O êxodo rural que acontece, principalmente, a partir de 1950 – no segundo governo de Getúlio Vargas, responsável também pelo início da industrialização – marcou uma fase de crescimento sem planejamento nas grandes cidades. Essa característica reforça a desigualdade no país, mas principalmente no contexto da habitação. “Não conseguimos fazer mesclas sociais”, lamenta a arquiteta, que também é professora na PUCRS. Estas mesclas – conceito urbanístico que contempla diferentes classes sociais dentro de um mesmo bairro – refletem a diferença populacional e censitária dentro de um mesmo bairro, onde deveria existir diferentes preços de locação, para que se acolhesse todas as várias faixas de renda existentes. Conforme Cibele, a falta dessas mesclas reflete-se no crescimento das cidades dormitórios em cidades satélites ou regiões metropolitanas, a fim de buscar um custo mais acessível a outros públicos.

Se contabilizado apenas o desequilíbrio entre a estimativa do salário – 30% definido para moradia – com o salário atual (considerando uma média por estados), tem-se uma diferença de até seis vezes maior, como no caso de São Paulo – maior disparidade entre as cidades. Já a menor diferença é de Goiânia, na qual o salário estimado é somente mais que duas vezes maior do que o salário local. Porto Alegre se mantém como mediana entre as cidades com um salário mínimo 3,25 vezes menor do que o estimado pelo Editorial J. Veja no gráfico abaixo:

 

No entanto, com toda essa diferença, o salário mínimo que é defasado ou o custo dos aluguéis é elevado? Para Moraes, o problema está em ambos, mas o baixo salário é preocupante: “se tivéssemos qualificação da mão de obra, não teríamos salário mínimo. O salário mínimo é uma interferência louvável no mercado de trabalho”. O Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) calcula, mensalmente, quanto o salário mínimo nominal deveria valer para refletir as necessidades do cidadão brasileiro. No seu último número, no mês de maio, o salário apontado pelo DIEESE era de R$ 3.869,92 contra os R$ 937 oferecidos nacionalmente. Para ilustrar essa diferença comparamos os dois salários, mantendo as médias diferentes por estado, no gráfico abaixo: