Salões de beleza se unem à luta contra o câncer

Para as mulheres, cabelo é segurança, personalidade, estilo. A perda deles talvez seja um dos fatores mais marcantes, estereotipando quem passa por tratamento quimioterápico.

Como o mito de Sansão, personagem bíblico que perde as forças ao ter suas madeixas cortadas, a autoestima e a autoconfiança vão por água abaixo em um momento em que elas são indispensáveis. Por isso, desde abril deste ano, um grupo de amigas se uniu para criar a ONG Cabelaço, para ajudar quem sofre com esse problema.

O primeiro evento para a arrecadação de mechas teve tanto sucesso que acabou se transformando em uma corrente. Diversos salões firmaram uma parceria, dando vantagens para quem doa.

A repercussão do evento nas redes sociais fez com que a proprietária de um atelier de perucas conhecesse o projeto. Ao confirmar que poderia acompanhar a doação das perucas, e que pacientes infanto-juvenis as receberiam, a empresária Liziane da Silva, 33 anos, se colocou à disposição do grupo para auxiliar. “Eu li sobre o evento e vi que elas teriam um custo para o envio do material para São Paulo por não terem quem confeccionasse por aqui. Eu já trabalhei com doações, e tinha parado por não saber para quem iam, agora vi uma oportunidade de ajudar novamente”, afirma.

A ligação entre as crianças que estão em tratamento e a ONG Cabelaço é feita pela psicóloga Juliana Martini, 23 anos, representante no Estado da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia. O trabalho dela é visitar hospitais e pacientes, apoiar e acompanhar as histórias mais difíceis. “Estou super feliz em apoiar esse evento, e ver esse retorno. Sinto-me realizada como profissional e como pessoa”, relata a psicóloga.

Uma das perucas confeccionadas pelo atelier, a partir das doações do primeiro evento, foi doada para a menina Ananda, de apenas sete anos, diagnosticada com leucemia linfoide aguda (LLA). Ela havia deixado de frequentar alguns lugares em virtude da falta de cabelos. “Nesse final de semana teríamos uma festa junina, e ela não quis ir porque se sente diferente”, afirma Graziela Fauth, 28 anos, mãe de Ananda.

Em função da imunidade baixa, os pacientes em quimioterapia normalmente sofrem algum afastamento da rotina. No caso da pequena, ela está longe da escola desde o início do tratamento, mas a proximidade de uma possível liberação médica a deixou ainda mais ansiosa e, ao saber que ganharia uma peruca, ela passou a contar os dias para o evento. “Como eu vou para a escola e lá todo mundo tem cabelo, não quero ser diferente”, diz a menina.

Com um celular, ela registrou toda a sua alegria e excitação. Acompanhada dos pais e avós, o vídeo mostra a emoção dela ao ver a peruca pela primeira vez.

Depois da cura, mais solidariedade

Quem já teve alguma experiência também tem disposição para ajudar. A técnica em radiologia médica e colaboradora do blog Além do Cabelo, Viviane Duarte, 28 anos, doou uma peruca que fez do próprio cabelo. “Eu tive câncer de mama com 23 anos. Quando me dei conta que perderia o cabelo, eu cortei e mandei fazer uma peruca com os meus próprios fios”, conta Viviane.

A peruca de Viviane foi entregue a Dienifer Pereira, de 17 anos. A adolescente faz tratamento há um ano contra Leucemia Mieloide Aguda e aguarda por um transplante de medula. “Eu fiquei internada por sete meses e o meu cabelo era tudo pra mim. Eu não via a hora de chegar o dia de hoje. Minha mãe, minhas irmãs e eu ficamos muito felizes com a notícia que a Juliana trouxe”, conta a paciente.

A entrega das perucas foi marcada para um pouco antes do início do evento, justamente para evitar o contato das pacientes com muita gente devido à baixa imunidade das meninas. A ansiedade e a alegria por aquele momento era percebida nos olhos das pacientes e dos familiares. Cada uma com a sua maneira de mostrar isso, Dienifer aguardando pacientemente com a irmã e a mãe, e Ananda dançando, cantando e fazendo mais vídeos e fotos pelo celular.

Chegando a hora tão esperada, Flavia Ma Oli, paciente no estágio de manutenção, fundadora do blog Além do Cabelo, ajudou e instruiu as meninas na fixação das perucas e mostrou acessórios para que elas variem o look. A primeira a colocar a peruca foi a Dienifer, que tinha ao seu lado a doadora emocionada fotografando o momento. “É muito bom poder ajudar depois que tu passa pela mesma situação. É bom também mostrar que o cabelo cresce de verdade de novo”, afirma Viviane. A menina de 16 anos não escondia a emoção e disse ter se sentido muito melhor com cabelo. “Nossa, ficou 100%, parece que eu voltei a ser quem eu era antes de ficar doente”, conta emocionada.

Ananda, enquanto esperava a amiga se enfeitar para uma prometida foto das duas com cabelos, escolhia sozinha entre duas opções de perucas. “Quero a mais clarinha. Pode ser a minha?”, perguntou à psicóloga. Ao sentar na cadeira, já sem touca, fazia caras e bocas para o espelho, colocando para fora a euforia. Depois de certa resistência ela aceitou que fosse cortada uma franja para dar um ar mais infantil. “É muito bom ver ela feliz com uma coisa que ela tanto queria, agora com a liberação do médico ela já pode ir para a escola”, relata a mãe, sensibilizada.

O ato do voluntariado não acaba na entrega das perucas. O atelier que confecciona e os cabeleireiros parceiros também fazem a lavagem gratuita dos cabelos. “Saber para quem vai e ver essas crianças recebendo um fruto do nosso trabalho é muito bom”, afirma Liziane.

Texto e Fotos: Elisa Celia (8º semestre)

2 comentários

  • fatima messa
    20:10

    Demaisss, Parabéns! !
    Belo trabalho, e que bom ter gente corajosa , para fazer a matéria sobre um tema tão intenso e necessário, para uma sociedade, que fica na superficie… Ótima iniciativa e cobertura. .. E um texto sensível e delicado. Bjsss

  • Parabéns à todos os envolvidos. É sem dúvida um trabalho admirável.
    Contem comigo!

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