Samba de Porto Alegre sofre à espera de um legado

Desde junho de 2013, parte do samba de Porto Alegre agoniza. Mais precisamente no dia 24 do mês, quando se iniciou a etapa de duplicação da avenida Padre Cacique no sentido centro-bairro. A partir daí, Imperadores do Samba, Academia de Samba Praiana, Banda Saldanha e Banda Itinerante sofrem com as obras ao redor de suas quadras. Furtos de instrumentos, salas arrombadas, vulnerabilidade, dificuldade de acesso, ensaios e eventos comprometidos estão entre as consequências da modernização da região, que acontece em virtude da Copa do Mundo de 2014.

O acordo entre as entidades e a Prefeitura é de que os locais sejam desocupados apenas depois de prontos os novos espaços que o governo municipal disponibilizará, mas essa obra sequer foi iniciada. A licitação do projeto foi aprovada e tornada pública dia 5 de novembro, e a previsão é de que ainda em dezembro comecem as construções das quatro quadras, com a finalização programada para abril ou maio do ano que vem – a apenas alguns meses do Mundial. Enquanto isso, as agremiações fazem o possível para se sustentarem. Principalmente as duas escolas, em um período decisivo de ajustes na reta final de preparação para o carnaval, que em 2014 acontecerá no começo de março.

Na Academia de Samba Praiana, a situação é complicada. Neste ano, a verde-e-rosa porto-alegrense foi rebaixada para o Grupo A, depois de conseguir o retorno ao Especial em 2012. Pela dificuldade de preparação para 2014, a inconstância de desempenho da Escola nos últimos tempos pode se manter. Para o presidente da entidade, Miro Leal, a Praiana pode sofrer consequências impactantes.

– O desfile fica comprometido, a gente teme por 2014. Não tem como fazer um bom carnaval. Podemos pagar caro por causa das obras, estamos sem reserva financeira. Não nos ouvem. Nós falamos, reclamamos e ninguém se importa. Não tem onde ensaiar e realizar eventos, não tem como fazer dinheiro, cancelamos tudo que estava programado. Poderíamos ao menos receber uma ajuda de custo, já que há tanto orçamento para a Copa, reclama e reivindica.

Segundo Miro, os danos sofridos em razão das obras não pode ser creditado à prefeitura:

– Temos uma boa relação com a prefeitura, ela está fazendo sua parte e nos ajudando. Não teríamos condições de construir uma boa quadra com nossos recursos. Toda a dificuldade está na relação com as construtoras terceirizadas que fazem o serviço, elas que causam o transtorno, enfatiza.

A quadra da escola foi retalhada, muros foram quebrados, o paiol encurtado e parte do telhado já caiu diversas vezes, tendo de ser consertado pelos próprios integrantes. Quando algo é refeito pelas empresas, o serviço fica de baixa qualidade. De acordo com a Prefeitura da Capital, as empresas vencedoras de licitações, e que realizam obras em toda a cidade, estão sujeitas a punições e multas em caso de alguma irregularidade ou tarefa mal realizada.

As invasões só cessaram há pouco tempo porque um caseiro passou a cuidar do espaço. Para o presidente, o local está “atirado às traças”.

– Éramos vítimas de roubos diariamente. Roubavam cadeiras, mesas, máquinas de fazer fantasia, tesoura, lava a jato, máquina de solda, instrumentos. Não dava pra deixar nada na quadra. Se deixássemos, não amanhecia, relata.

Na Imperadores, não foi diferente. A iluminação precária nas vias próximas e a vulnerabilidade por se encontrarem em um canteiro de obras favoreceram a ação de criminosos, que arrombaram salas e furtaram instrumentos. Mas apesar dos problemas, o sofrimento estava previsto, segundo o vice-presidente, Érico Leotti.

– O impacto é total, mas nós sabíamos que assim seria. Desde o início das tratativas estivemos envolvidos. O primordial e a prioridade era nos mantermos na região. E desde o início fomos atendidos nesta questão. Agora temos que esperar a nova quadra, que será a recompensa de todo o caos vivido esse ano.

Em maio, por virtude da ampliação da avenida Beira-Rio, o espaço da quadra da Escola foi reduzido em dois terços. Existe no local, uma parede provisória, feita de tapumes. Desde julho, não há eventos. Mas a entidade conseguiu alternativas para driblar o período conturbado, com parcerias que se tornaram essenciais no planejamento do desfile. Os ensaios acontecem às segundas-feiras no Bar Opinião; e às quartas-feiras na quadra da Fidalgos e Aristocratas, localizada na avenida Ipiranga. No reduzido espaço da avenida Padre Cacique, apenas o treinamento da bateria, aos sábados. A impossibilidade do uso da quadra para atividades com o público gera prejuízos, mas devido a essas iniciativas de união com outras entidades, a vermelho e branco acredita que as dificuldades serão pouco sentidas.

– Estamos nos movimentando de tal maneira que diminua esse prejuízo de renda em bilheteria e copa. Conseguimos minimizá-lo, mas não zeramos. Além disso, também estamos buscando parceiras de fora para apoio e patrocínio. Apesar das muitas dificuldades, pretendemos que a qualidade do carnaval da Imperadores se mantenha em um nível elevado como já é de nosso costume, enfatiza Érico.

Quando chove, os locais ficam inacessíveis. Até mesmo na Saldanha, que foi menos impactada. A direção da banda não esperava tanto transtorno; mas tem otimismo de que, prontas as novas sedes, a situação vai ficar melhor do que era antes mesmo das mudanças no Plano Diretor da região. A quadra da Saldanha segue intacta e os eventos continuam sendo realizados. Mas em razão de toda a precariedade no entorno, calcula-se uma queda de pelo menos 50% no movimento durante o período. Mesmo assim, tudo há de ser recompensado, de acordo com o presidente Pedro Diogo da Fonseca.

– A gente tem a visão e a clareza que daqui a 4 ou 5 meses o samba de Porto Alegre vai ganhar muito. Estamos com as plantas, sabemos a localização, participamos da elaboração do projeto, cada um fez ao seu estilo e vai ficar excelente. Deixará um legado muito bom para o samba, uma coisa bonita, organizada, confortável. O transtorno vai valer a pena.

Contribuíram para o atraso no começo da construção das quadras alguns processos de despejo e desapropriação da área que demoraram mais do que o previsto, além da intervenção do Ministério Público, que pediu para consultar os projetos devido a reclamações da vizinhança. Depois disso, houve uma readequação em horários e dias das festas e a assinatura, junto ao MP, de um Termo de Ajuste de Conduta. Só agora a situação começa a ter um desfecho, com indicativos de começo e fim das obras. Mas cabe ressaltar que todo este acordo com a Prefeitura da Capital é verbal. Porém, as três instituições valorizam a importância e parceria com o governo em todo o andamento do caso, por permanecer ao lado dos interesses e direitos de cada uma.

Ao que tudo indica, o que tinha que atrapalhar já passou. Os processos judiciais que atravancaram o andamento das reformas – como os sobrepreços apontados pelo Tribunal de Contas do Estado na construção de corredores de ônibus e implantação de iluminação noturna – estão em fase final. O edital pra licitação de construção das quadras já foi publicado. Restam somente poucos trâmites burocráticos de quaisquer obras públicas.

Por enquanto, fica a esperança de que a partir do momento em que tiverem as novas sedes, toda a expectativa que sentem torne-se realidade. A perspectiva de algo melhor é muito grande. Desde que o transtorno não deixe marcas negativas nas apresentações do Porto Seco.

Texto e fotos: Gabriel Araújo (7º semestre)

Deixe um comentário