Sem estrutura, 300 famílias aguardam remoção na antiga Vila Dique

Iniciada em outubro de 2009 para permitir a ampliação da pista do aeroporto Salgado Filho, a remoção da Vila Dique, localizada na Zona Norte de Porto Alegre, segue sem conclusão. Com previsão de reassentar 1.476 famílias das comunidades Vila Dique, Morada do Sol e Vila Keddie, o Conjunto Habitacional Porto Novo, situado no bairro Rubem Berta, ainda não está com as obras finalizadas. Enquanto isso, as cerca de 300 famílias que permanecem na Dique não contam mais com posto de saúde, que já foi transferido para a nova comunidade, e, em meio à pobreza e à sujeira que já são costumeiros na região, não sabem quando serão retiradas do local.

ruínas, escombros, vila dique foto: Caroline Ferraz
Parte da Vila Dique atualmente são apenas escombros do que já foram as casas de quem hoje está no Conjunto Habitacional Porto Novo

Ao chegar na Vila, a primeira impressão é de que todos já foram embora. Ruínas de casas se multiplicam na paisagem até que se percebe que nem todos os setores da comunidade já tomaram o rumo do Rubem Berta. Entre os que permaneceram, Suelci Fernandes, proprietário do Minimercado Suelci, revelava dúvidas sobre seu futuro. “Não quero sair daqui, vivo há 23 anos nessa região. Como comerciante, lá vai ser ruim pra mim, pois vou ganhar uma peça pequena, não terei tanto espaço pros produtos”, lamenta. E completa: “Agora, tudo está meio confuso, ainda não sabemos direito quando vamos sair daqui”.

Recicladora acredita que seus rendimentos diminuirão na Nova Dique

Seguindo pela Avenida Dique, apenas alguns metros depois, era difícil visualizar a recicladora Vera Alves. Em meio ao lixo, que é fonte de seu sustento, ela detalhou o porquê de não ter ido ainda para o Conjunto Habitacional Porto Novo. “Quando fizeram o cadastro eu não estava em casa, estava cuidando de um tio meu que adoecera na época, daí venderam minha casa numa história mal-explicada”, recorda. Como recicladora, Vera não vê com bons olhos o futuro na Nova Dique. “Vai ser mais limpo e organizado, mas a parte da reciclagem vai funcionar em um galpão, o que reduz nossos lucros”, analisa.

joão carlos soares, borracharia, vila dique foto: Caroline Ferraz
João Carlos Soares não sabe como conseguirá sustento sem a manutenção das carroças

Na quase miserável Vila Dique, o número de carros é diminuto, o que não impede a existência de borracharias e oficinas mecânicas. A explicação do fenômeno é simples: essas lojas atendem principalmente os carroceiros, que coletam lixo e, ainda que de maneira extremamente precária, dão dinamismo à economia do bairro. Quando a transferência ocorrer, entretanto, a prática não será mais possível. Responsável por uma borracharia, o ferreiro João Carlos Soares conta seu drama. “Pra nós vai ser ruim lá na Nova Dique. Aqui, o cotidiano é de sacrifício e poeira consertando essas carroças, mas ao menos conseguimos conquistar nosso sustento. Ainda não tenho idéia do que farei, mas também não sei quando sairemos daqui”, afirma.

Doméstica sentirá falta do baixo custo de vida da Vila Dique

Com quatro filhos, três morando com ela, a doméstica Cláudia Vendruscolo lastima a ida do posto de saúde da região para o Rubem Berta. “O novo posto é muito bom, é necessário dizer isso, mas temos que pegar dois ônibus pra chegar lá, enquanto ficarmos aqui na Dique”, conta. Cláudia teve problemas com o cadastro que daria direito a ela e aos filhos de serem removidos para o Conjunto Habitacional Porto Novo. “Meu ex-marido adquiriu nossa casa com um sujeito, mas não ficou no nome dele. Depois, nos separamos, ele levou tudo para o Interior. Bateu tanto em mim que fui parar no hospital e me deixou sozinha com as crianças. Cheguei a dormir por uma noite com meus filhos na rua”, relata. Então, Cláudia conseguiu “fazer a vida” na Dique mais uma vez. “Aqui é bom por isso, se a pessoa quer trabalhar ela consegue se manter com pouco dinheiro. O custo com água e luz é bem baixo. Minhas amigas que já se mudaram trabalham só pra conseguir custear esse tipo de despesa no Conjunto Porto Novo, não têm dinheiro nem pra comprar um fogão de R$ 200”, compara.

À frente do Bar e Armazém Paraná, o proprietário Anísio dos Santos é mais um comerciante que, como Suelci, demonstra ceticismo em relação ao futuro. “Hoje, tenho seis mesas de sinuca, contando o que está no bar e o que alugo para outras pessoas. Na Nova Dique, com o espaço que querem nos dar, não dá uma sequer, só dá um balcãozinho e umas prateleiras”, ilustra. Para tentar mudar a situação, Anísio diz ter dialogado com o Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB). “Falei com eles pra ver se consigo ampliar meu mercadinho por lá, já até vendi uma caminhonete que tinha pra poder investir nisso”, relembra.

borracharia, vila dique foto: Caroline Ferraz
Na Vila Dique, borracharias sobrevivem do reparo de carroças, que não poderão mais circular quando as famílias forem transferidas para o bairro Rubem Berta

Superintendente do DEMHAB diz que remoção iniciará ainda nesse semestre

Superintendente de Ação Social e Cooperativismo do DEMHAB, Maria Horácia Ribeiro explica a atual lentidão no processo de remoção das famílias. “O contrato com a construtora Dan-Herbert foi cancelado em 2012. Um novo processo de seleção foi feito para contratar outra empresa que irá construir as unidades habitacionais da Quadra E do Conjunto Habitacional Porto Novo. O cancelamento do contrato foi a pedido da própria empresa, que alegou dificuldades financeiras”, argumenta.

As vendas de cadastro são proibidas, segundo Márcia Ribeiro. “Cada cidadão pode dispor de seu direito, ou seja, pode aceitar o reassentamento proposto ou buscar alternativa. Feito o reassentamento e assinado o Contrato de Cessão de Direito Real de Uso (CDRU), esta unidade não pode ser comercializada, haja vista não ser uma propriedade e sim só o direito de uso”, adverte. As reuniões, das quais muitas pessoas se queixavam de não ter sido informadas, teriam sido realizadas em “vários momentos”.

O lamento de comerciantes em relação à falta de espaço também é rebatido por Márcia. “No que tange ao aumento pretendido, o morador recebe orientação sobre a possibilidade, devendo buscar um técnico para que acompanhe a obra e respeitando o que foi aprovado para o loteamento”.

Por fim, ela fez uma promessa: “A empresa que irá realizar as obras já está pré qualificada e com os projetos para aprovação junto à Caixa Econômica Federal. A previsão do início das obras é este semestre”.

Texto: Caio Venâncio (3º semestre)
Fotos: Caroline Ferraz (4º semestre)

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