“Sempre fui um repórter de esquerda”, diz Moisés Mendes

Em entrevista ao Editorial J, veterano jornalista comenta sobre política, crônica e jornalismo

  • Por: Italo Bertão Filho (3° semestre) | Foto: Igor Janczura Dreher (3° semestre) | 26/04/2017 | 0
moises
Moisés, autor do livro de crônicas Todos querem ser Mujica, recebeu o Editorial J no escritório de sua casa.

 

O céu cinzento indica que a chuva chegará em questão de horas. É um dia nublado de abril em Porto Alegre. Um mar de sobrados e ruas de paralelepipedo domina a Aberta dos Morros. É ali, nos confins da cidade, que vive o jornalista Moisés Mendes. O cronista combativo se mostra afável e generoso ao receber a reportagem do Editorial J em sua casa. Desfia, pacientemente, uma a uma das histórias que compõem seus 62 anos de vida e 46 de jornalismo. É cirúrgico em suas definições.

Ainda que tenha exercido funções diversas dentro dos jornais, se vê como repórter. Um repórter de esquerda. Tem orgulho do que fez na imprensa, e não se arrepende de nada do que escreveu, mas também considera que as redações são página virada em sua vida. Apesar de aposentado, Moisés continua escrevendo praticamente todos os dias para o seu blog. Se fica um ou dois dias sem postar, recebe e-mails questionando o sumiço repentino. Além de escrever, também lê muito, hábito que cultiva desde a infância, quando se esparramava no chão para ler jornais que chegavam atrasados no interior.

Mesmo morando na Capital há três décadas, Moisés conserva o sotaque da Fronteira, onde nasceu e cresceu. Sua família vivia da terra. O avô, fazendeiro, foi morto por um peão. As terras foram partilhadas, e a parte que cabia à mãe de Moisés acabou repassada ao pai do menino. Ele foi mais um dos gaúchos que tentaram ganhar a vida no Mato Grosso. Deu com os burros n’água e se separou da esposa. Moisés ficou em Alegrete com a mãe e o resto da família.

Quando guri, Moisés gostava de ler revistas como Manchete e O Cruzeiro. Achava que o poeta mineiro Paulo Mendes Campos, que escrevia na revista da Bloch Editores, era seu parente por causa do sobrenome. Em 1970, pela primeira vez entrou num jornal, a Gazeta de Alegrete, não como repórter, mas como porteiro. Vigiar a entrada e a saída de pessoas da redação parecia frustrante para um aspirante a jornalista. Logo, Moisés passou a clicherista — função há muito extinta no jornalismo, responsável por montar os clichês, placas de metal fixadas numa página para impressão na tipografia —, e em seguida, finalmente colocou os pés na redação. A ascensão foi rápida: aos 19 anos, já era editor do jornal. Sem opção de cursos de Jornalismo no interior, fez das redações a sua faculdade. Forjou sua carreira em letra de imprensa, tornando-se um jornalista de texto afiado e direto, sem gorduras ou concessões.

Trabalhando nos mais diversos jornais do Estado, palmilhou todo o Rio Grande do Sul. Em Bento Gonçalves, criou polêmica ao denunciar as mazelas de uma região carente da cidade. Em Ijuí, foi acusado de ser repórter do MDB. Chegou a Porto Alegre em 1986 e, em dezembro de 1988, estreou em Zero Hora. Durante 27 anos, percorreu todos os escaninhos da redação: foi repórter, editor, editorialista e, nos últimos tempos de jornal, era colunista.

Nos estertores do regime militar, se filiou ao MDB. Nunca foi militante, mas achava importante ter participação política. Hoje, afirma não ter partido, porém, defende que todo jornalista deve assumir sua ideologia. Para ele, neutralidade não existe. Isso está escrito, inclusive, na página inicial de seu blog. Moisés foi uma das poucas vozes na imprensa gaúcha a se manifestar contra o impeachment de Dilma Rousseff. Essa posição custou sua saída de ZH, há um ano, por vontade própria.

Após ter jogado fora dois romances, lançou tardiamente seu primeiro livro: Todos querem ser Mujica publicado pela Diadorim Editora em outubro do ano passado. A obra reúne 60 textos de Moisés publicados em ZH entre 2014 e 2016. São crônicas que vão desde as reminiscências da infância e adolescência até os desdobramentos da Operação Lava-Jato. Escritos durante um período de radicalização ideológica do país, os textos revelam um cronista assertivo naquilo que mais lhe estimula: a política. A seguir, os principais trechos da entrevista:

 

Editorial J – Como tu te defines dentro do espectro político?

Moisés Mendes — Eu sou um socialista arrependido. Sou de uma geração que flertou com o socialismo até descobrir que ele não dá certo. Mas eu me considero um socialista com base marxista. Toda a base de raciocínio do Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, é marxista. Tu não pode refletir sobre o mundo se tu não tiver uma referência marxista para exercício de pensamento. Eu tenho uma referência marxista de poder, de domínio, de trabalho. Se não existisse Marx, teria que ter existido outro cara para nos contar as relações do mundo. Não considero a possibilidade de ter um socialismo como o idealizado pela esquerda brasileira. Acho que nós podemos caminhar por alguma coisa diferente do que está aí. Tem gente que acha que eu sou trabalhista. Na Zero Hora, diziam que eu era brizolista. Não sou janguista, nem brizolista, nem lulista. Não tenho ligação com essa mitologia da esquerda. Nunca fui comunista, por exemplo.

J – Como foi essa tua identificação com a esquerda?

Moisés — Eu sempre fui um repórter de esquerda. O primeiro prêmio de jornalismo que eu ganhei, em 1973 ou 1974, foi o prêmio da Adjori, a Associação dos Jornais do Interior, com uma reportagem sobre uma vila pobre de (Santana do) Livramento. Então, o meu foco sempre foi a questão social. Eu fui o primeiro repórter de jornal, pela Folha da Manhã (jornal que circulou em Porto Alegre entre 1969 e 1980), a cobrir a primeira invasão da Fazenda Annoni, em 1977. Na Caldas Júnior, eu era um repórter problemático, dava muito problema pra eles. Eu me filiei no MDB e ninguém sabia na Caldas Júnior, se descobrissem me botavam pra rua. Em Ijuí, eu era acusado de ser repórter do MDB. Eu não era militante, mas era importante pra mim ser filiado. Não era uma coisa comum. Acho que sou filiado até hoje no PMDB.

J – Durante um período em Zero Hora, tu foste editorialista. Como tu te sentias nessa posição, sabendo que isso poderia ir contra a tua ideologia?

Moisés — Meu trabalho em Zero Hora também era de esquerda. As pessoas perguntam: ‘como é que tu foi editorialista?’. O Pilla Vares (jornalista, morto em 2008), que era um comunista, era editorialista na Zero Hora. O Olyr Zavaschi (jornalista, morto em 2011, irmão de Teori Zavaschi), um cara progressista, também. Não existe contradição. 99% dos editoriais que fiz eu assinaria e os outros não teria vergonha de dizer que fiz. Tem algumas posições liberais que são posições da empresa, esse liberalismo à brasileira. Nunca fui violentado por alguma coisa que fiz onde trabalhei, nunca passei por esse constrangimento. Eu nunca me senti violentado pelas minhas posições em relação às posições da empresa.

J – Em que momento tu percebeste que deveria tomar uma posição mais enérgica enquanto colunista?

Moisés — A situação política do país se radicalizou. Como eu não iria escrever sobre política? O jornalismo se adequa às circunstâncias. Eu, como cronista, não podia ser indiferente em relação ao que estava acontecendo. Estava acontecendo um golpe, como eu não iria escrever sobre isso? Se não existisse um golpe, eu não falaria de golpe. Alguns diziam que eu era um ombudsman da própria Zero Hora, porque eu escrevia sobre o jornal na minha própria coluna. A imprensa brasileira e mundial é conservadora. Ela atende a uma demanda conservadora da sociedade, com as exceções de sempre, como os jornais alternativos de esquerda no Brasil. Eu escapei de estar na redação durante o golpe. Foi uma opção que fiz. Eu senti que o bicho ia me pegar.

J – Tu acabavas sendo uma voz quase única dentro do jornal.

Moisés — A Zero Hora tem colunistas de esquerda. Tem o Flávio Tavares (jornalista e escritor que participou da luta armada durante o regime militar de 1964) e o Marcos Rolim (jornalista e ex-deputado federal). Mas eu poderia ser considerado de esquerda mais radical.

J – Tu te consideras um radical?

Moisés — Radical dentro desse ponto de vista do jornalismo. Mas politicamente eu não sou radical.

J – Até onde vai o limite entre a ideologia e o jornalismo?

Moisés — É a grande questão do jornalista do século 21. Um jornalista deveria explicitar o que ele pensa sobre questões fundamentais da humanidade: xenofobia, racismo, homofobia e qualquer forma de discriminação. Uma fonte deveria saber o que tu pensa a respeito disso quando vai conversar contigo. É um direito de quem dá uma entrevista. Quem opina, deve deixar clara a sua posição. Ideologia é uma coisa fora de moda pra direita, que gosta de dizer que não existe mais ideologia.

J – Então, tu acreditas que ainda exista esquerda e direita?

Moisés — Esse dilema de que não existiria mais esquerda e direita, colocado pelos pensadores no fim do século 20, caiu completamente. Se tu compara um Bush e um Obama, tu pode dizer que o Obama não é de esquerda. Mas, se pegar um Obama e colocar do lado do Bush, ele fica do centro pra esquerda. O que é o Trump? Um cara de direita, da pior direita que existe. As coisas continuam sendo articuladas nesses polos. Quem diz que é de centro, acaba sendo de direita às vezes. Apesar do político de centro ser importante. A esquerda não gosta do Pedro Simon, por exemplo. Eu acho que ele foi uma figura importantíssima pra redemocratização. O Paulo Brossard, que era um cara conservador, foi importantíssimo para o fim da ditadura. Mas hoje, o centrão do Congresso é a direita. Não tem centrão, tem um direitão.

J – Mudando um pouco de assunto. Tu tiveste câncer. Como foi passar por essa experiência?

Moisés — Tive dois cânceres, no intestino e no rim. Um em setembro de 2011, o outro em maio de 2012. Eu enfrentei o inferno. Tive oito meses até descobrir o segundo câncer. Nesse período, eu fiz cinco meses de quimioterapia oral, que tem a vantagem de não perder cabelo, mas ela teve o mesmo efeito da quimioterapia injetável. Me arrasou completamente. Não conseguia sair da cama para ir ao banheiro, eu não tinha força. Foi um período terrível.

J – Continuou trabalhando no período?

Moisés — Trabalhei, mas fiquei fora durante um tempo porque não tinha forças. Eu fiz a quimioterapia e ela foi ter efeito depois de uns dois meses, porque ele (o efeito) vai acumulando. Numa sexta-feira, eu saí do jornal cansado e no sábado eu não conseguia sair da cama. Agora que completei cinco anos do primeiro câncer, já saí no lucro. Tiveuma infecção depois do segundo câncer, fiquei quatro meses com infecção. Fui e voltei pro hospital. Podia ter ido pro saco.

J – Como foi a infância na fronteira?

Moisés — A minha família toda plantava, era agrária. Meu avô era fazendeiro em Rosário (do Sul, cidade natal de Moisés). Minha avó era herdeira de terra do meu avô, que foi morto por um peão. Depois, a família fracionou todas as terras. Meu pai pegou a terra da minha mãe, vendeu, foi pro Mato Grosso comprar terra e se deu mal. Ele se separou da minha mãe. Fui pro Alegrete com cincoanos, quando minha vó se muda com a minha mãe e o meu tio, que tinha uma fazenda em Alegrete, e lá fiquei até os 20 anos. Depois fui pra Livramento.

J – Tu sempre gostaste de livro, de jornal?

Moisés — A minha família lia muito. Minha avó lia muito. Minhas tias tinham assinatura de O Cruzeiro, Manchete. Meu tio tinha assinatura da Dirigente Rural, uma revista pra fazendeiros. Assinavam também a Gazeta de Alegrete. Sempre tinha enciclopédia em casa. Era uma família rude, mas muito chegada em leitura. Uma coisa que lembro é de uma reportagem do Carlos Lacerda sobre a história da perna do Roberto Carlos, na Manchete. Eu achava que o Paulo Mendes Campos, poeta mineiro que escrevia na Manchete, era meu parente porque era Mendes. Também lia o David Nasser na revista O Cruzeiro.

J – Mas essas publicações chegavam com atraso no interior?

Moisés — Quando fui estudar no ginásio em Rosário, com 12, 13 anos, fiquei na casa de uma tia. Lá, meu primo assinava o Diário de Notícias. Era um jornal que não era tão poderoso quanto o Correio do Povo, mas era poderoso. Eu ia buscar na Estação Ferroviária um pacote que tinha uma semana de jornal. O cara recebia o jornal com atraso de quase duas semanas. Eu abria aquele pacote e lia os jornais no chão. Às vezes, meu primo nem dava bola para o jornal, quem lia era eu. Eu gostava muito de ler.

J – Quando tu começaste no jornalismo, em quem tu te inspiravas?

Moisés — Na época, o jornalismo era uma coisa muito romântica. Hoje já não é tanto. Tu idealizava que iria fazer grandes reportagens. Imaginava que iria fazer reportagens na Amazônia, porque era a moda e é um lugar onde nunca fui. O cara achava que iria fazer grandes reportagens, mas não, tu fazia buraco de rua, fazia tudo. Meu foco sempre foram as pessoas comuns. A minha referência de jornalismo era a Realidade (revista mensal publicada pela Editora Abril entre 1966 e 1976). Outra referência era o Caco Barcellos, que era repórter da Folha da Manhã, um jornal criado para ser progressista dentro de uma empresa conservadora. A Folha da Manhã inspirava muita gente. Eu a imitava um pouco nas coisas que fazia.

J – Como foi a tua inserção nas redes sociais?

Moisés — Eu não participava de rede social. Na Zero, eu, o David (Coimbra), muitos outros, não queriam saber desse negócio. O David entrou até antes de mim. Depois que eu saí de lá, só fui entrar (no Facebook) em junho (de 2016). Eu não sabia como funcionava o Facebook. Até hoje não sei como funciona direito. Eu criei o blog sabendo que o blog é um depósito. As pessoas não vão no blog. Eu publicava só no blog, depois eu comecei a postar na página do Facebook. Quando não publico nada no blog, tem gente que me pergunta porque não publiquei nada. O que publico no Facebook dá três, quatro vezes mais alcance que o blog. Então, o blog meio que desativei. Blog é um depósito. Um dia, fui pra Torres sem levar o laptop, e não sabia fazer postagem no blog pelo celular. Não postei uns dois dias. Quando cheguei em casa, vi um monte de e-mails perguntando: ‘pô, qual é a tua de não postar nada no blog?’. Os velhos que não têm Facebook só me leem no blog (risos).

J – Como é o contato do público contigo, desde os tempos de jornal?

Moisés — Na Zero Hora, tinha dia que recebia 200 e-mails e eu respondia todos. Passava a manhã em casa respondendo os e-mails. Tenho quatro leitoras Maria de Lourdes que são minhas fãs. Teve uma época em que recebia mais xingamento que elogio. Um grupo da direita me chamava de “o vermelho da Zero Hora”. No Facebook, sinto falta desse contato.

J – As alegorias que tu criaste nas crônicas, como o Seu Mércio, tem inspiração na realidade?

Moisés — O Seu Mércio é inspirado num guardinha que se chamava Seu Nico. Usei ele (como personagem) várias vezes. Uma vez, chegou o filho do Seu Nico correndo, querendo saber se o pai iria ficar milionário, porque eu tinha escrito. Por isso, parei de usar o Seu Nico, já que poderia dar problema. Aí criei o Seu Mércio. Ele é um guarda de rua que acha que entende de tudo. Já tem gente lançando o Seu Mércio pra vice do Lula! (risos). É um truque velho. A ficção, a crônica, vivem disso aí. O Verissimo inventou vários personagens. Quando quero dizer uma coisa que pode ser engraçada ou acho que possa ser engraçada, não vai ser eu que vou dizer, e sim, o Seu Mércio. Se eu dissesse, não teria graça.

J – Seu Mércio está presente em algumas crônicas do livro Todos querem ser Mujica. Como foi o processo de produção da obra?

Moisés — Eu não participei da edição do livro, que foi feita pela Denise (Nunes) e pelo Flávio (Ilha). Eu nunca quis o livro. Tive dois livros de ficção que destruí. Achei que não valia a pena. Eu achava que livro de crônica era uma bobagem. Aí o Flávio e a Denise me convenceram e me deram o livro. No fim, o livro foi um presente, porque é invenção deles.

J – Uma característica das tuas crônicas é pegar um fato do passado, usando como gancho para falar de um assunto atual.

Moisés — É um truque de velhice. Durante todo esse tempo, fui aprendendo os truques de crônica, de jornalismo. Eu tenho razoável facilidade pra escrever, sento e escrevo. Depois, até posso dar uma lambida no texto. Me dá vontade e escrevo. Leio muito, todos os dias. Sou viciado em notícia. Pode parecer até meio pretensioso, mas não posso parar de pensar. É uma coisa meio obsessiva. Às vezes, é um monte de bobagem, mas tenho que pensar.

J – Tu escrevias em jornal. Agora, escreve em blog. Mudando a plataforma, muda a forma de escrever?

Moisés — O meu texto de jornal era mais elaborado. O impacto é outro no Facebook. Crônica, no sentido clássico de crônica, quase não faço. Nessa conjuntura política atual, ficar fazendo crônica sobre o tempo, sobre a árvore, sobre o sabiá, acho fora da realidade. Eventualmente, tenho que fazer e faço. Mas tento estabelecer um gancho com a realidade. Eu explorei muito o meu lado interiorano na Zero Hora, mas sempre tentando trazer pro hoje.

J – Na tua visão, qual é o futuro do jornalismo?

Moisés — Acredito muito no futuro do jornalismo que vem aí. A geração que está se formando agora vai perceber que tem uma demanda por leitura que parece encoberta, mas que vai aparecer mais. As pessoas que não tiverem informação estarão atrás das outras. Como o mundo vai viver sem o texto mais longo, que aprofunda? Logo que a internet surgiu, se dizia que lá valia a superficialidade. É mentira. A Folha publica uma entrevista no impresso e diz: ‘leia a entrevista completa no online’. Porque não ocupa espaço. Há grandes textos na internet. O jornal impresso vai desaparecer, todos eles. O que vai sobrar é algo cult. O que é impresso vai permanecer por glamour, não como negócio. Os jornais vão desaparecer. Não tem volta. O New York Times tem 1 milhão e meio de exemplares impressos. É pouco, para um jornal de circulação mundial. Os jornais sobreviviam de anúncio, agora vão ter que sobreviver do assinante. Nos grandes sites do Brasil e do exterior, não tem anúncio, e se tem, paga pouco. O assinante é que vai manter a leitura na internet.

J – Teve alguma reportagem que te marcou?

Moisés – Tem a história do Gay Talese que fez um perfil do Frank Sinatra sem falar com o Frank Sinatra. Teve uma vez que eu fiz um perfil da Mafalda Verissimo sem falar com a Mafalda Verissimo. Um perfil de cinco, seis páginas. Ela não queria falar comigo porque dizia que era obituário. Eu gosto muito desse perfil da Mafalda.

J – Em 2000, quando a Gisele Bündchen ainda era desconhecida do grande público, tu fizeste um perfil dela para o caderno Donna, de Zero Hora.

Moisés — Ninguém sabia quem era a Gisele Bündchen, nem eu. O Marcelo Rech, que era o diretor de redação, e a Sandra Simon, que editava o Donna, me chamaram e pediram um perfil da Gisele. Fui pra Horizontina e o pai dela me ajudou muito. Quando fui jantar com ele à noite, ele me disse que a Gisele estava em Porto Alegre. A guria estava em Porto Alegre na hora da reportagem! O grande lance do jornalismo é a sorte. Se alguém te disser: vai fazer uma matéria no Taim sobre um rato que está em extinção. Quando tu chegar lá, como repórter, o ratão vai aparecer pra ti. O repórter tem essa sorte. Tu sai pra fazer uma pauta e as coisas acontecem. É o caso da Gisele.

J — Como foi a saída de Zero Hora?

Moisés — Exatamente um ano antes de eu sair, eles tinham cortado a minha coluna na Zero Hora. Por que eu não tinha audiência? Não, eu tinha. Eu e o David éramos as maiores (audiências) da Zero Hora. No final de 2015, tentaram me tirar. Isso é que nem presídio com facção, eu não sei qual facção me pegou. Era porque eu estava muito à esquerda. Mas fiquei. Quando juntaram as edições de sábado e domingo, disseram que eu não iria escrever mais no espaço nobre que era a edição de fim de semana. Falando com pessoas lá de dentro, senti que o bicho iria me pegar. Eu era um cara que tinha passado dos limites nas concessões do que a grande mídia pode fazer em nome da tal pluralidade. Isso é óbvio. Eu passei dos limites. Alguém disse: ‘não dá mais’. Eu decidi que ia sair. Houve um movimento forte pra tentar me resgatar, pra preservar a imagem da empresa. Pensei: eu posso ficar, mas daqui a meio ano, eles me pegam de novo e então, fui embora.

J – Mesmo assim, tu continuaste com a postura crítica em relação à imprensa.

Moisés – Eu sempre fui crítico do jornalismo calhorda, não é questão de a ou b. Todos os grandes jornalistas que tem aí passaram pela grande imprensa. Tu tem que ocupar um espaço. Eu saí da Zero Hora quando senti que aquele espaço não era mais meu. Não tem neutralidade no jornalismo. Tu pode discutir o que é imparcialidade, que é uma tentativa de algum distanciamento. Com a cobertura de uma situação como o golpe, por exemplo, não tem neutralidade. A imprensa brasileira fez uma opção pelo golpe. Tinha jornalista que dizia que nós não podemos falar mal de colega porque isso é desleal. Mas por que é desleal? Por que não posso avaliar o comportamento e a produção de colegas? O que defendo é que o jornalista deva ser submetido a avaliação dos próprios jornalistas.

J – Apesar de ter trabalhado em Zero Hora durante décadas, algumas pessoas o criticam por analisar a postura do jornal em determinadas situações. Como tu vê essas críticas?

Moisés — Eu não falo mal da Zero Hora. Se alguém achar, em algum lugar, uma linha minha falando mal da Zero Hora, eu entrego o pouco patrimônio que tenho! Tenho o maior orgulho do que fiz lá dentro. Mas, também falo abertamente porque saí. O jornal olhou e disse: tu passaste dos limites. E eu disse: vou embora. Não tenho nenhuma restrição ao que fiz na Zero Hora. A grande imprensa fazia cobertura para denunciar a devastação da Amazônia. Hoje, o que tu acha nos grandes jornais? Tu tem repórteres humanistas, inclusive na Zero Hora, que têm grandes jornalistas. Mas há uma acomodação conservadora. Os jornais fizeram uma opção ultraconservadora para tentar manter um público conservador, com média de idade altíssima, que tem o hábito de leitura. O leitor de esquerda que vá ler blog. Aí as redações se enfraqueceram muito.

J – Tu não tens saudade da redação?

Moisés – Sinceramente, não. Chega uma hora que tu diz: meu tempo deu. Não tenho saudade de viver na redação, não tenho nostalgia. Foi um tempo que vivi que foi fantástico. Tem um vídeo que mostra a redação da Zero Hora nos anos 90 que é muito bom porque mostra a redação alegre. Se tu filmar aquilo hoje, é outro ambiente. Não é pior, nem melhor, mas é menos relaxado. Tem uma competição mais aguda. Naquela época, o clima era mais romântico. Acho que as grandes redações vão desaparecer. Não vai ter mais sentido. A redação romântica do meu tempo não existe mais.