Um dia longo, tenso e muito quente

Cobertura do julgamento em segunda instância do ex-presidente Lula, dia 24 de janeiro, reuniu manifestantes e jornalistas do Brasil e de vários países em Porto Alegre

  • Por: Guilherme Milman (3º semestre) | Foto: Nícolas Chidem (5º semestre) e Ricardo Ott (5º semestre) | 17/04/2018 | 0

O calor abafado daquela tarde de 24 de janeiro em Porto Alegre unia manifestantes adversários, forças policiais, jornalistas, juízes, advogados e assessores do Tribunal Regional Federal da 4ª região (TRF4) que tanto tinham divergido até então em uma mesma causa. Chegar ao veredito do julgamento em segunda instância do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para dissipar o ambiente de tensão que predominou naquele longo e quente dia (superior aos 30 graus) na Capital e que contaminava outras regiões do país.

A transmissão ao vivo da sessão ajudou bastante o trabalho dos profissionais de imprensa e também contribuiu para reduzir o nível de tensão que cercava a cobertura. Na avaliação de alguns jornalistas, se a transmissão ao vivo tivesse sido anunciada com mais antecedência poderia ter evitado a concentração de muitos profissionais de imprensa no prédio situado junto ao Parque Harmonia. “Qualquer repórter com uma tevê na frente poderia escrever o que estava vendo e ouvindo. Na prática, não precisava sequer eu ter ido a Porto Alegre para ver pelo telão. Infelizmente, o TRF4 só avisou que teria transmissão ao vivo do julgamento dois dias antes do evento, e já estávamos com as passagens aéreas compradas, reserva feita”, relatou a jornalista Cleide Carvalho, do jornal O Globo, ao avaliar a cobertura feita dois meses após o fato.  

Quando o TRF4 divulgou em seu site o sistema de credenciamento dos jornalistas para acompanhar a sessão – até então fechada – era dada a largada para os preparativos da imprensa. De acordo com o comunicado feito pela assessoria de imprensa do TRF4, a sessão estaria restrita aos participantes, desembargadores, réu e advogados. Os jornalistas teriam acesso por meio de três tipos de credenciamento: na área externa do prédio, no estacionamento para o setor técnico das emissoras, e na sala de imprensa, com a presença de um telão que mostraria o processo jurídico em tempo real. Neste último, os repórteres acompanhavam os acontecimentos e noticiavam em primeira mão.  

A confirmação das credenciais solicitadas ao tribunal demorou e atrasou o processo de organização de alguns veículos.  O editor-chefe do Jornal Já, de Porto Alegre, Elmar Bonnes, não tinha ainda a escala de jornalistas para a cobertura faltando menos de uma semana por que não sabia se teria ou não as credenciais solicitadas.

As dificuldades da imprensa não se concentraram apenas na relação com o TRF. A repórter Cleide Carvalho, de O Globo, conta que a impossibilidade de antecipar e apurar informações anteriores ao julgamento fez desse momento o mais difícil da cobertura.  “Na imprensa há sempre um desejo de antecipar o máximo possível o que poderia ser decidido. Algo na prática impossível, porque juiz nenhum pode antecipar sua decisão”, explica.

A repórter ressaltou ainda a necessidade de visitar com antecedência a cidade para conhecer o local do julgamento, a sede do TRF4. “Para os jornalistas de outros estados houve ainda a necessidade de ir antes a Porto Alegre, para conhecer as pessoas e o local onde iriamos trabalhar. Fui uma semana antes e fiz contato com o TRF4 e com a Procuradoria Regional da República da 4ª região, o que me deixou mais tranquila”.

 

 

Cobertura não-convencional

O dia amanheceu ensolarado na quarta-feira, 24 de janeiro, data da grande da cobertura. Por volta das 8 horas, os primeiros jornalistas já faziam aparições ao vivo e se movimentavam pelo anfiteatro Pôr do Sol, sede do acampamento dos manifestantes pró-Lula (situado perto do TRF). Muitos repórteres passaram o dia acompanhando os milhares de apoiadores do ex-presidente Lula que vieram de várias regiões do Brasil.

O movimento “Lula pelo Brasil”, que promovia o ato a favor do ex-presidente, organizou suas próprias credenciais, que davam acesso aos caminhões de protesto e a locais exclusivos do acampamento. Os crachás disponibilizados no anfiteatro foram utilizados em grande parte por veículos alternativos e partidários.

O jovem jornalista João Paulo Fionesa, de Maringá (Paraná) fazia parte desse grupo. Seu veículo “Don’t Blink” faz coberturas de eventos comunitários e grandes manifestações. Fionesa ressaltou a importância de atuar “fora dos padrões da mídia convencional. A gente busca uma parada nova para quem usa a internet e faz jornalismo”, conta.

Outra inciativa que partiu dos movimentos a favor do ex-presidente foi a reconstrução da Rede da Legalidade, formada em 1961, no Rio Grande do Sul, pelo então governador Leonel Brizola para garantir, na época, que o vice-presidente João Goulart assumisse a presidência da República, vaga com a renúncia de Jango. A cadeia formada em 2018 teve rádios web, educacionais e comunitárias que constituíram a Rádio Democracia, que foi ao ar naquele dia das 5 horas até meia noite. O objetivo era mostrar os bastidores do julgamento de uma perspectiva alternativa, voltada para a defesa de Lula.

Além das dificuldades bastante conhecidas, teve veículo alternativo que sofreu outras limitações na cobertura. Após receber a aprovação das credenciais, Elmar Bonnes, do Jornal Já, ficou no TRF4 e escalou o jornalista Matheus Chaparini para cobrir as manifestações no Pôr do Sol. Formado pela UFRGS, Chaparini chegou ainda pela manhã no acampamento, levando na mochila mantimentos para o dia e um gravador. Sua ideia era entrevistar diferentes personalidades presentes na manifestação e montar uma reportagem na edição especial do jornal, destinada ao julgamento do ex-presidente.

Chaparini fez apenas duas entrevistas, entre elas com o presidente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e possível candidato à presidência da República Guilherme Boulos, quando, por volta do meio-dia, foi chamado para voltar à redação. “Aconteceu um problema com a justiça na redação, tenho que ir pra lá”, disse saindo às pressas. Assim como ele, os demais jornalistas do veículo abandonaram a cobertura e retornaram à redação.

 

Chaparini relembra a cobertura. Foto: Ricardo Ott

 

Um mês depois, Chaparini relembrou o fato: “O Tiago Baltz (colega) era o único que estava na redação.  Não teve muito o que fazer. Chegou o oficial de justiça acompanhado de três pessoas. Não esperaram o chefe da redação chegar, tiraram os computadores da tomada com textos que iriam para o ar. Tudo foi levado”. O motivo da ação era de uma dívida que o jornal possuía com o Banrisul. Chaparini garante, entretanto, que os oficiais não possuíam ordem judicial para recolher os equipamentos. “Até localizar e recuperar os materiais foi um processo de um mês”, relata.

De acordo com Chaparini, casos como este provocam um grande impacto em veículos menores, por ter pouca estrutura para lidar com tais processos. O que era para ser uma das maiores coberturas da história do veículo acabou se tornando um dos principais motivos para a perda dos equipamentos: “Por um lado foi muito bom a gente ter conseguido se organizar para cobrir na rua, mas por outro isso acabou nos prejudicando, pois estávamos espalhados pela cidade e nos pegaram de surpresa”, comenta o jornalista. Após o episódio, o jornal enfrentou dificuldades para dar andamento à cobertura, prejudicando a edição especial impressa.

 

Preparados, precavidos e discretos

A cobertura do julgamento que resultou na condenação do ex-presidente Lula a 12 anos e um mês de prisão teve três pontos de concentração midiática. O prédio do TRF4, o anfiteatro Pôr do Sol, e o parque Moinhos de Vento, local das manifestações contra o ex-presidente. Em todos eles, uma grande variedade de crachás desfilava pelos arredores, de diferentes tipos e origens. Desde o início, a preocupação da imprensa em geral era a integridade física, que fica exposta em meio a manifestações populares.

A repórter Amanda Santo, da TV Record de Porto Alegre, uma das primeiras a fazer boletins diretamente do anfiteatro, destacou a necessidade de estar sempre preparado para grandes coberturas. “O pessoal do acampamento nos recebeu muito bem, mas em grandes manifestações sempre levamos equipamentos de segurança. Deixamos dentro do carro coletes à prova de bala e máscaras para gás lacrimogênio, como medida de precaução”.

 

Jornalistas apuram informações em meio ao acampamento, em clima pacífico. Foto: Nícolas Chidem

 

Dentro do TRF, os jornalistas faziam seu trabalho recebendo apoio da infraestrutura do local. Cleide Carvalho, de O Globo, relatou que “o TRF4 preparou um ambiente com todos os recursos necessários para que os jornalistas pudessem trabalhar. Tínhamos onde sentar, nem sempre isso ocorre, tínhamos pontos de acesso a tomadas e Wifi liberada, de forma que a infraestrutura foi garantida”.  O único problema gerado pela rigorosa organização do espaço, afirmou, foi a dificuldade de entrar em contato com o ambiente externo. “No fim do dia, o jornal queria uma matéria sobre o ‘clima’ do dia do julgamento. Não foi possível, já que havia apenas o ‘clima’ dos jornalistas na sala onde estava. O prédio do TRF4 ficou totalmente cercado e policiado durante todo o tempo e trabalharam apenas os funcionários diretamente envolvidos no julgamento”, destacou.

Assim como as mídias alternativas, as emissoras tradicionais enfrentaram desafios particulares. Durante toda a cobertura, fora do Tribunal, jornalistas das chamadas “ mídias convencionais” se afastavam do local onde tinha mais gente, usando trajes discretos que dificultavam o reconhecimento da emissora para qual o jornalista trabalhava. O repórter Lucas Abati, da GaúchaZH, destacou a cautela dos jornalistas para realizar a cobertura e contou que a busca de um lugar mais reservado pelos jornalistas é uma questão estratégica. “A gente chega meio escondido no local e sente o clima. Se ele parece hostil, costumamos ficar mais perto do policiamento para evitar conflitos”.

Um dos principais papeis do jornalista é registrar o clima e o ambiente da cidade onde está. Em grandes coberturas, jornalistas do Brasil e do mundo necessitam se adaptar ao espaço para captar as informações. Ganham destaque os jornalistas locais que ajudam orientando os de fora. Lucas Abati, que é formado pela Famecos, destacou que “jornalistas de vários lugares vinham pedir orientações sobre ruas e movimentações. Foi interessante perceber a mobilização da imprensa”, comentou.

Para informar por diferentes plataformas, como o jornalismo exige hoje, os repórteres produziram vídeos, posts, gravações, fotos e anotações. Cleide, repórter de jornal impresso, sentiu o reflexo deste fenômeno na cobertura. Ela não precisou nem escrever a matéria da sessão, devido à facilidade se obter informações pelo meio digital. “Se você observar o Globo do dia seguinte, ninguém assina a matéria de abertura da edição, do julgamento em si”, comenta. Para ela, isso diz muito sobre o papel do repórter atualmente em grandes coberturas. ”Há alguns anos, sem internet, ao vivo e afins, o repórter que assistia ao julgamento escreveria a matéria, só ele tinha condições de fazer isso. Hoje, as notícias são distribuídas de forma mais democrática e o acesso aos fatos é mais amplo. Quanto mais fácil o acesso à fonte original de informação, maior a capacidade de as pessoas interessadas fazerem seu próprio juízo de valor”, explicou. Cleide não nega, entretanto, a importância do repórter em uma cobertura, que deverá ter o olhar aprofundado que não se obtém pelas redes sociais. “Há uma técnica de produção de notícias que não pode ser confundida com a produção de informação por blogs, que são diretamente aliados a um ou outro grupo político.”

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