Um governo sem mulheres

Na posse de Michel Temer, falta de diversidade nos ministérios chamou atenção

  • Por: Alícia Porto (3º semestre) e Eduarda Endler Lopes (4º semestre) | 13/05/2016 | 0
Foto Reprodução TV Brasil
Reprodução: TV Brasil

O último governo sem a presença de mulheres no comando de ministérios foi o governo de Ernesto Geisel (1974-1979). Nessa quinta-feira (12), Michel Temer assumiu a presidência do país. Ao lado dele, somente homens. A presença de mulheres no primeiro escalão do governo vinha aumentando consideravelmente. No governo de Fernando Henrique Cardoso foram nomeadas quatro ministras, número que cresceu com o governo Lula, em que foram 11 ministras, e com o governo Dilma que apresentou 15 ministras (números totais de cada gestão).

Temer chegou a cogitar mulheres para compor sua equipe. Foram considerados nomes como de Ellen Gracie, que assumiria a Controladoria-Geral da União (CGU), e das deputadas Mara Gabrilli (PSDB) e Renata Abreu (PTN). Contudo, as negociações não parecem ter progredido. Em contraponto, Dilma tem se cercado de um forte apoio feminino nas últimas semanas e, como uma das estratégias de defesa, enfatiza ter sido a primeira presidenta da República eleita no país. As escolhas dos ministérios de Temer recuperaram novamente o debate sobre o machismo dentro da política.

Governo Dilma totalizou 15 ministras
Governo Dilma totalizou 15 ministras – Foto Roberto Stucker Filho

Além da falta de representatividade feminina, outro fato preocupante é a perda de algumas pastas ligadas aos direitos de minorias. Abgail Pereira (PCdoB) acredita que esse governo é ilegítimo e representa um retrocesso total na conquistas de direitos trabalhistas e de direitos humanos. Ela complementa que a ponte para o futuro apresentada pelo governo Temer revela-se cada vez mais um túnel para o passado.

A ausência de representantes mulheres, negros e indígenas preocupa diversos militantes. “Penso que poderemos dar passos para trás quanto a algumas conquistas que conseguimos”, comenta Giseli Boff, militante feminista. A estudante de Serviço Social, Lires Maria, ainda complementa: “nossos direitos não serão garantidos, as politicas sociais serão mínimas. É como se fôssemos apenas animais, sem direitos sociais, políticos, humanos, nada. Eu não tenho outra palavra a não ser retrocesso”.

Segundo a deputada estadual Manuela d’Ávila (PCdoB), a atitude de Temer demonstra a forma como ele trabalha: “o poder constituído, consolidado no Brasil pelo nosso sistema político e social, exclui as mulheres e os negros de serem empoderados.” Ela lembra também a composição do Congresso Nacional, que possui menos de 10% de mulheres e mais de 50% de deputados que se declaram milionários. “O Congresso precisa ser a representação do povo, mas com certeza não é”, salienta Manuela.

A presidente do Conselho Estadual de Direitos da Mulher, Fabi Dutra, questionou a escolha de alguns nomes para ministros de Temer: “acho engraçado que quando Lula tentou assumir como ministro ele não pode, por estar sendo investigado, e agora temos o mesmo acontecendo com muitos ministros sem ser questionado”. Abgail Pereira ainda aponta: “temos um governo que entra com o discurso de combate à corrupção e depois nomeia sete ministros indiciados na Lava-Jato”.

Fabi salienta algumas preocupações com esse governo. “Depois de tanta luta, agora, tememos com a retirada de muitos direitos”, comenta. Na opinião da presidente, podem ocorrer perdas na área da educação e ameaças à CLT, ambas prejudicando os trabalhadores: “dentro disso as mulheres são as primeiras a sofrerem”, completou ela.

A presidente do Conselho Estadual de Direitos da Mulher também avaliou o comentário de Dorathea Werneck, segunda mulher nomeada ministra no Brasil, que afirmou para a Folha de São Paulo que “ter mulher por ter mulher não é argumento forte. Tem que ser mulher competente, até porque temos um exemplo recente trágico [Dilma]”. De acordo com Fabi, “ter mulher competentes nós tínhamos, nossa presidenta mesmo foi tirada do poder sem nenhuma comprovação de crime”.

A repentina mudança, de uma mulher ocupando o cargo mais importante para os brasileiros para um ministério repleto de homens, gerou inspiração para fazer essas minorias deixarem de ser coadjuvantes e se tornarem protagonistas. “Para as mulheres, estar na luta é triplamente mais difícil, esse é o motivo chave pelo qual acho que devemos estar mais mobilizadas. Nos fortalecermos dentro, não fora, é um desafio”, ressalta Lires Maria. Os chamados “homens do Temer” não são uma representação da sociedade.