Um mês após ocupação da Câmara de Porto Alegre, bancadas tentam consertar relações

Um mês após a Câmara Municipal de Porto Alegre ter sido ocupada pelos integrantes do Bloco de Luta pelo Transporte Publico, os vereadores procuram restabelecer as relações entre as bancadas que tiveram posições divergentes no episódio. Uma das principais apoiadoras do movimento, a vereadora Fernanda Melchionna (PSOL), considera que seu grupo sempre teve tensões antes, depois e, possivelmente, sempre as terá com a bancada de sustentação do executivo municipal. “Enquanto os movimentos estavam nas ruas no mês de junho, tinha gente que se escondia dentro do parlamento e quando o povo foi à Câmara, essas mesmas pessoas fizeram de tudo para tirar ele de lá”, alfinetou a vereadora de oposição.

Ao comentar a afirmação do presidente da Câmara, Thiago Duarte, de que a democracia estaria sangrando, Fernanda alega que a democracia sangra quando “dezenas de engravatados votam contra os interesses populares”. Para a vereadora Sofia Cavedon (PT), também apoiadora da ocupação, os dois primeiros dias foram um pouco mais tensos, porque “a base do governo atribuiu à oposição o vexame pelo qual alguns passaram”. “Apesar da tensão inicial, aos poucos foi se diluindo esse antagonismo, tanto que, nessa segunda semana, já diminuiu bastante a irritação”, afirma a vereadora. Cavedon também lembrou que, nos primeiros dias depois do recesso, houve situações em que a base boicotou a oposição, como quando o vereador Carlos Comasseto (PT) pediu representação para acompanhar o Conselho das Cidades, em que ele é representante, pedido negado pelo presidente.

Quanto ao projeto de maior transparência nas tarifas de transporte coletivo, criado pelo Bloco de Lutas pelo Transporte Público durante a ocupação, Sofia relata que ela e outros parlamentares lutam pela aprovação na íntegra, mas que, como o vereador Válter Nagelstein (PMDB) apresentou projeto semelhante antes, embora não com o mesmo teor, a proposta dele acabou prevalecendo à do bloco. Segundo a vereadora, foi possível distensionar uma parte do projeto para que todos os assuntos de transportes sejam votados numa mesma sessão.

Na bancada da situação, alguns vereadores também concordam que o clima melhorou, como Claudio Janta (PDT): “de minha parte, anda boa, essa é a casa do povo, só não pode o povo se despir aqui dentro”, brinca. Janta também observa que qualquer relação tem momentos de arranhões e fissuras, mas com o tempo se volta às boas relações. “De vez em quando aparecem citações ao fato, mas o projeto deles está tramitando e existem mais seis matérias que tratam deste mesmo assunto”, explica.

Outro vereador que também se posicionou contra a ocupação foi Tarciso Flecha Negra (PSD). Quanto ao possível desgaste do Legislativo, rebateu: “Quando você recebe um soco, você leva alguns segundos para ver onde está, e o mesmo aconteceu na Câmara, mas agora acho que já está tudo normal.” O vereador também criticou os manifestantes, ao lembrar que havia crianças no plenário nos dias da ocupação. Para Flecha Negra, isso é uma irresponsabilidade muito grande, pois lá elas ficaram expostas a doenças, além de outros fatos ocorridos, como a nudez de alguns manifestantes. “Essas invasões e movimentos recentes são muito esquisitos”, observa, lamentando o protesto de pessoas mascaradas e os quebra-quebras no final. “Os jovens têm direito de se manifestar, mas o protesto é suficiente para mostrar aos governantes que o povo está descontente”, destaca.

Entre a base aliada do prefeito José Fortunati, há vereadores que enxergam algumas mudanças no parlamento. Monica Leal (PP) sustenta que a Câmara nunca mais será a mesma e lamenta que “isso não vai acontecer por uma razão muito simples: vereadores desta casa incitaram e apoiaram o movimento”. Ela acredita que, após o que aconteceu em julho, “não tem como manter um relacionamento igual ao de antes, porque se perde a confiança e a admiração. Antigamente, os parlamentares sempre divergiam, mas havia algo maior, o respeito”, afirma. Quanto à publicidade que ganhou, na internet, sua foto descobrindo que seu retrato oficial havia desaparecido na Câmara, o que motivou montagens e piadas nas redes sociais, a vereadora rebate que “tudo que é respeitoso, eu atribuo à criatividade, e o que não é a gente resolve na Justiça”.

Texto: João Pedro Arroque Lopes (5° semestre)
Foto: Caroline Ferraz (5° semestre)

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