Uma feira de ideias ou apenas de livros?

Escritor abre debate sobre a atual estrutura da Feira do Livro de Porto Alegre e a presença de autores negros na literatura

  • Por: Camila Pereira (1º semestre) e Cecília Petrocelli (1º semestre) | 14/09/2017 | 0
Foto: Joel Vargas/PMPA
Foto: Joel Vargas/PMPA

Uma publicação no Facebook gerou um debate sobre a organização da 63° edição da Feira do Livro de Porto Alegre. Após ter suas sugestões de atividades para essa edição negadas, escritor criticou o modelo de funcionamento da feira, argumentando que ela precisa ser pensada de uma maneira mais atual e diversificada.

O escritor e professor de literatura e língua portuguesa no ensino fundamental e médio Jeferson Tenório publicou duas notas sobre a atual estrutura da Feira do Livro de Porto Alegre em seu perfil no Facebook. De acordo com o post, alguns meses atrás a Câmara Rio-Grandense do Livro, responsável pela organização da Feira, entrou em contato com o editor do escritor e pediu que ele elaborasse alguma atividade para a edição deste ano. O professor organizou, convidando dois escritores negros para compor a discussão, uma mesa de debate intitulada “A infância despedaçada: o mundo adulto pela ótica das crianças”, que tinha como objetivo discutir obras de escritores como Dostoievski, Charles Dickens, Pedro Ruan Gutierrez, entre outros.  Contudo, a resposta da Câmara, algum tempo após o envio da proposta, foi de que não poderiam aceitar, pois nenhum dos escritores envolvidos lançariam livros naquele ano.

Jeferson explica que rebateu via  e-mail afirmando que eles estavam interessados na discussão e não em fazer lançamentos, mas, ainda segundo o escritor, a Câmara respondeu afirmando que “Na realidade existe a preocupação de quase totalidade dos eventos serem ligados a algum livro para não se tornar uma feira de ideias e sim de livros”. Ainda no Facebook, Tenório comentou que no mês passado o presidente da Câmara, Marcos Sena, teria convidado ele e outros escritores negros para proporem atividades para o evento. Novamente, junto com colegas, o escritor elaborou cinco atividades que envolviam a produção literária de autoria negra e a enviou por e-mail para Câmara, que teve posição parcialmente contrária, alegando que cinco era um número muito grande de atividades e que só poderiam ser realizadas no máximo duas no mesmo dia.

Até o momento do fechamento da matéria a Câmara Rio-Grandense do Livro não teve disponibilidade para uma entrevista, mas, por meio de nota pública, a instituição afirmou que “ruídos de comunicação teriam criado dificuldades nos primeiros contatos com Jeferson Tenório”. Ainda na nota, a Câmara reforçou que os critérios de organização da programação da Feira deste ano são construídos com base nos temas mais discutidos pelo mundo. Foi ressaltado ainda que a 63° edição da Feira terá programações em que “as raízes negras constituintes do nosso povo serão observadas, num evidente movimento de celebração da herança africana”. Estas atividades, assim, demonstrariam que “a Feira do Livro de Porto Alegre e a Câmara Rio-Grandense do Livro são sensíveis às demandas dos artistas negros e as coloca no lugar que elas merecem estar – um lugar de legitimidade, relevância e compromisso com a construção da cultura gaúcha e brasileira”.

Em entrevista concedida ao Editorial J, Jeferson, que frequenta a Feira do Livro há 17 anos e trabalha com literatura há 13, contou que acredita ser fundamental um novo modelo de estruturação para a Feira do Livro de Porto Alegre, mas que a tradição do atual formato faz com que não haja vontade de mudança. Na visão do professor “o modo como a Feira é pensada hoje é cada vez menos atrativo, pois o público não se sente representado”. Ele defende que para gerar essa identificação entre as pessoas e o evento “é preciso uma reformulação de pessoas que pensem a feira como um espaço cultural, e não apenas de vendas de livros”.

Além da questão estrutural, o escritor retrata a constante preocupação da falta de um espaço mais amplo para autores negros nas atividades, para que se contemple as diversas visões da literatura. Jeferson acredita que no âmbito da literatura, de forma geral, há uma delimitação do local de fala dos escritores negros apenas para questões raciais, o que para ele tem pontos positivos e negativos. Um dos pontos positivos apontados pelo professor é que o tema ganha voz quando há o espaço para que os autores abordem tal problemática, ainda muito presente na sociedade. Contudo, ele ressalta que é negativo condicionar a fala dos escritores negros somente para a temática racial, e que ao propor uma discussão sobre Dostoievski sentiu essa barreira. “Me parece que nós éramos uma peça fora do lugar”, afirma.

Tenório ainda destaca a busca pela igualdade. Para ele, “quando essa ideia de diferença entre pessoas as diminui, no sentido de que uma é melhor e a outra pior, eu tenho que lutar pela igualdade. Agora, quando acontece ao contrário, quando a igualdade apaga as nossas identidades é preciso lutar pelas diferenças. É nesse momento que se criam os guetos, pois eu reafirmo a minha cultura negra para mostrar a existência de uma identidade, mas quando ela é diminuída é preciso lutar pela igualdade. Isso é cíclico e depende de cada situação, de cada discussão e de cada feira, mas nem sempre as pessoas compreendem essas nuances”.

Ele acredita que para uma mudança no pensamento estrutural presente na Feira do Livro e na literatura brasileira é preciso começar por grandes eventos como a Bienal do Livro e feiras, com uma busca maior por diversidade.

Ele apontou, por exemplo, o projeto “Feira além da Feira”, realizado em anos anteriores paralelamente à Feira do Livro, que promovia discussões literárias e atividades culturais em bares e livrarias. O projeto foi criado pelo próprio Tenório juntamente com uma amiga, e foi realizado durante três anos, sem nenhuma verba. O objetivo, conta ele, não era se opor à feira oficial, mas expandi-la, abrigando, inclusive, autores que não eram convidados para aquela.

O escritor e jornalista Oscar Henrique Marques Cardoso, organizador de atividades culturais para a 63ª Feira do Livro de Porto Alegre, em entrevista ao Editorial J, acredita que a Câmara Rio-Grandense do Livro tem abertura para a inserção de autores negros. Segundo ele, “até agora não tive nenhuma atividade negada ou algum tipo de censura. O diálogo tem fluído de forma franca e super honesta. Há espaço, sim, e creio que a participação dos autores negros será interessante nesta edição”. Sobre o condicionamento da fala dos escritores negros apenas para questões raciais, Cardoso aponta que há o uso dos espaços para a tratativa do tema, com um olhar de inclusão e diversidade, mas que os autores negros podem falar sobre qualquer assunto. Com relação ao episódio ocorrido com Jeferson Tenório, o jornalista destaca que não acompanhou efetivamente a tratativa das propostas. Oscar destaca que a feira é um espaço de comercialização, mas que promove debates e encontros com temas ligados à produção literária. Esta edição terá atividades como a Terceira Edição do Encontro de Escritores Negros do Rio Grande do Sul, um sarau poético em homenagem ao escritor Oliveira Silveira, um encontro de SLAM (competição de poesia falada) e a vinda de representantes da militância e da literatura negra de fora do estado.

O jornalista aponta que a crítica é necessária, mas que “este não seria o momento para massacrar um evento tão importante para a literatura no Rio Grande do Sul”. Ele ainda afirma que “a Feira do Livro é nossa, é gaúcha, é porto-alegrense e é brasileira. É referência nacional e internacional. É para isto que quero ajudar a construir. E nós, negros, vamos sim ter um lugar de destaque não só na feira, mas na história cultural de nosso Estado. Basta ver como a cultura afro tem ganho espaço e conquistado cada vez mais os gaúchos”.

A Feira do Livro de Porto Alegre ocorrerá de 1º a 19 de novembro na Praça da Alfândega. A programação completa pode ser conferida através do site.