Debate sobre ciclovias é cíclico em Porto Alegre

Porto Alegre ainda anda sobre quatro rodas. Todos os dias uma média de 80 novos carros passam a circular pelas ruas e avenidas da cidade, de acordo com dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Porém, a novidade é que o número de bicicletas que trafegam por aqui e no Brasil todo também tem aumentado, tornando-se presença constante no trânsito. Hoje, o Brasil é o terceiro país do mundo em produção desse meio de transporte. De acordo com a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), a projeção é que as bicicletas produzidas no país em 2011 somem um total de 5,4 milhões de unidades. A criação de ciclovias e a implantação de bicicletários pela Capital gaúcha, apesar de bastante comentados recentemente, são assuntos antigos. Desde 1981, quando o primeiro Programa para Implantação de Rede Cicloviária foi criado na Capital, as rotas possíveis já sofreram diversas alterações e foram alvo de muitos debates. Mas como seria pedalar em Porto Alegre se todos os projetos de ciclovias tivessem sido implantados por aqui desde o início dos anos 1980?

Debate J discute o uso de ciclovias em Porto Alegre. Ouça.

Criado em 2001 como uma alternativa de passeio para ciclistas porto-alegrenses, o Caminho dos Parques, ciclofaixa com cerca de cinco quilômetros que ligava o Parque Moinhos de Vento (Parcão) à orla do Guaíba, passando pelo Parque da Redenção, foi deixado de lado em 2009, depois de ser considerado arriscado pela Prefeitura, já que em alguns trechos os ciclistas precisavam andar na contramão e atravessar pelo meio de ruas e avenidas. Ainda é possível ver em algumas avenidas, como na Goethe, resquícios da sinalização do trajeto.

Já o Programa para Implantação de Rede Cicloviária, de 1981, cobriria cerca de 100 quilômetros de ruas da Capital e abrangeria toda a orla do Guaíba, além de vias planas, como a Sertório, a Ipiranga e arroios na Zona Sul. Por meio dele seria possível, por exemplo, sair da Rua dos Andradas, no Centro, e pedalar até a Avenida Sertório, na Zona Norte. Na época, essa ciclovia era entendida como um complemento da circulação urbana, que deveria ser proposta visando a integração com as demais redes de transporte coletivo.

Para a rede inicial, a cidade foi dividida em três setores que seriam atendidos por ciclovias. O setor norte focalizaria principalmente usuários ligados às atividades industriais e de estocagem de mercadorias. O segundo setor, situado ao longo do arroio Dilúvio, seria utilizado primordialmente por estudantes e permitiria o acesso de grande parte da população atraída pelo Parque Marinha do Brasil, através dos eixos formados pelas avenidas Ipiranga e Borges de Medeiros. Finalmente, o teceiro setor, situado ao extremo sul, ligaria Ipanema, Restinga e Belém Novo, sendo utilizado pelos ciclistas vinculados a atividades locais ou ao lazer.

De acordo com Coordenador de Projetos de Mobilidade da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), Régulo Ferrari, os projetos que já existiram em Porto Alegre foram deixados de lado porque não se transformaram em legislação, ao contrário do atual plano cicloviário, regulamentado pela Lei Complementar 626. Além disso, o estudo para o projeto de 1981, por exemplo, se baseou somente em aspectos físicos que permitiriam a construção das ciclovias. Apesar dessa deficiência, esse estudo foi utilizado como referência inicial para a elaboração do atual Plano Diretor Cicloviário.

Atualmente, se os planos estivessem implantados, haveria cerca de 120 quilômetros de ciclovias disponíveis para quem anda de bicicleta, incluindo os corredores de ônibus que são abertos nos feriados e finais de semana. Com esse número, Porto Alegre chegaria a uma quilometragem de ciclovias igual à existente em Curitiba, cidade com a segunda maior malha cicloviária do Brasil, atrás apenas do Rio de Janeiro, que conta com 160 quilômetros para ciclistas. O número de viagens sobre duas rodas em Porto Alegre, que em 2007, ano em que foi realizado o último levantamento sobre ciclistas, era de 30 mil nos dias úteis, chegaria a uma média de 200 mil idas e voltas, segundo estimativa de Ferrari.

Em números mais sólidos, Porto Alegre hoje conta com cerca de 4,4 quilômetros de ciclovias, segundo Ferrari. Além disso, a ciclovia da Estrada João Antônio da Silveira, no bairro Restinga, está em fase final de obras e contará com 3,5 quilômetros. Já a rede total prevista pelo Plano Diretor Cicloviário tem 495 quilômetros e cobre toda a cidade. A ciclovia da Avenida Ipiranga, que faz parte do plano, teve sua construção inaugurada no dia 22 de setembro, mas as obras só foram iniciadas entre a Avenida Erico Verissimo e a Azenha. O empreendimento da Ipiranga deve ter 9,4 quilômetros de extensão, um trajeto que vai da avenida Edvaldo Pereira Paiva até a Antônio de Carvalho.

Para a ciclista Sandra Zanatta, que utiliza a bicicleta para trajetos de lazer e para ir até a faculdade, o atual projeto cicloviário é de fundamental importância para a locomoção sobre duas rodas na cidade. Contudo, para ela é preciso haver, aliada ao plano, uma conscientização de motoristas e pedestres sobre a circulação das bikes. “Apenas as ciclovias não resolvem os problemas de respeito no trânsito das bicicletas”, sintetiza ela. A estudante não é a única preocupada com o futuro do ciclismo em Porto Alegre. A Massa Crítica, manifestação que acontece uma vez por mês por aqui e em outros centros urbanos ao redor do mundo, reúne ciclistas para reivindicar espaço e respeito para quem anda de bicicleta.

Os últimos números sobre ciclistas que circulam pela Capital gaúcha são, assim como os dados sobre viagens de bicicleta, datados de 2007: há na cidade de cinco a 10 mil pessoas sobre duas rodas. Entre trajetos de lazer e idas e vindas para o trabalho, a escola ou a faculdade, quem anda de bike em Porto Alegre vai dando um jeito de se locomover enquanto o Plano Diretor não é implantado. O objetivo é que, com infra-estrutura e incentivo ao uso das bikes, a cidade chegue a 300 mil viagens por dia em 2022. Então, que haja bicicletários. Segundo Ferrari, os locais onde os estacionamentos para bicicletas serão instalados ainda não foram definidos. “Mas é fundamental que existam bicicletários públicos”, salienta. Para saber onde estacionar sua magrela, acesse http://vadebici.wordpress.com/mapa-de-bicicletarios-em-porto-alegre/

Texto: Gabriela Sitta.

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