UNE perdeu espaço nas manifestações dos jovens

Uma entidade estudantil com representação na maioria das universidades do Brasil, que realiza congressos com milhares de pessoas e, ao lado de organizações como o Movimento Sem-Terra e a Central Única dos Trabalhadores (CUT), é referência quando se fala em movimento social organizado no país. Esta é a União Nacional dos Estudantes (UNE), ícone da luta contra a Ditadura Militar (1964-1985) e fundamental no processo que levou ao Impeachment de Fernando Collor (1992). Agora, quando os jovens estão nas ruas para protestar mais uma vez, era de se esperar que ela estivesse à frente destas lutas, não é? Mas não é exatamente isso que acontece.

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Para Lucas Maróstica, estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), militante do coletivo Juntos! e integrante da Oposição de Esquerda da UNE, a entidade se distanciou das lutas dos jovens. “Atualmente, se a UNE está nas ruas é pela Oposição de Esquerda (corrente política que disputa o controle da entidade)”, afirma. Mesmo assim, Maróstica acredita que é importante lutar para reverter esta situação. “A entidade deve estar na base dos estudantes, o que não ocorre hoje. Aqui em Porto Alegre, por exemplo, a UNE participa dos protestos, mas não é protagonista das discussões, que passam por outros grupos, como o Bloco de Luta pelo Transporte Público”, analisa.

Jovens estão construindo alternativas à UNE

manifestações, jovens, porto alegre, junho 2013 foto: Caroline Ferraz
Em Porto Alegre, eram raros os militantes da UNE em meio à multidão presente nos protestos
Estudante de História da UFRGS e militante do PSTU, Matheus Gomes é outro que pensa que a UNE não é mais tão atuante. Para o jovem, o vínculo demasiadamente estreito entre a entidade e o governo federal é um de seus maiores problemas. “Brinco que a UNE se tornou uma espécie de Ministério Estudantil do governo federal. Depende financeiramente dele e, muitas vezes, reluta em assumir posições que o contrariem. É aquela coisa, quem paga a banda escolhe a música”, compara.

Como resposta à presença tímida da entidade que por excelência representa os estudantes brasileiros, os jovens estão construindo outras alternativas. Nessa perspectiva, Matheus cita a Assembleia Nacional de Estudantes-Livre (ANEL), fundada há poucos anos, em 2009. “É uma entidade que representa uma alternativa à UNE, aliada à classe trabalhadora e independente de partidos e empresas”, garante o também militante da ANEL.

“Nunca saímos das ruas”, diz presidente da UNE

virgínia barros, presidente une, manifestações junho 2013 foto: Fábio Bardella/UNE
Presente nas manifestações recentes, Virgínia Barros, atual presidente da UNE, garante que a entidade não abandonou os protestos
Presidente da UNE eleita há menos de dois meses, Virgínia Barros, estudante de Letras da Universidade de São Paulo (USP), avalia com entusiasmo os protestos iniciados há menos de um mês por todo o país. “São lutas por causas justas. É bom que o povo esteja preocupado com a política e veja a democracia para além do voto”, pensa. Agora, portanto, ela acredita que seria o momento de conquistar reivindicações importantes da entidade, como os 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação, passe-livre estudantil no transporte público, financiamento público de campanha, “fora Feliciano” e a democratização da mídia nacional.

Sobre um suposto abandono das manifestações por parte da UNE, ela rebate: “Nunca saímos das ruas. Toda vez que a tarifa aumenta nós protestamos”, defende. O fato de outros grupos estarem sendo mais influentes que a entidade recentemente possui uma explicação simples para Virgínia. “Isso é fruto da Internet, que ampliou as maneiras de articulação. É natural que outras entidades e coletivos obtenham espaço, ou até mesmo que os manifestantes estejam na rua sem qualquer tipo de vínculo”, intui.

Virgínia nega que entidade seja o “Ministério Estudantil”

UNE, manifestações, Brasil junho 2013 foto: Fábio Bardella/UNE
Segundo Virgínia, a UNE não teria se tornado o “Ministério Estudantil do Governo”, como afirmam outras lideranças jovens
Apesar das críticas, a presidente da UNE reafirma a importância e as conquistas da entidade. “Se não fôssemos mais relevantes, não teríamos conquistado nos últimos anos o Programa Universidade para Todos (ProUni), a expansão das vagas nas universidades públicas, as cotas e mais recentemente a destinação de recursos do pré-sal para a educação”, enumera. Segundo Virgínia, a UNE sofre com a falta de divulgação da mídia de suas ações, algo que seria comum entre os movimentos sociais.

Ela também nega prontamente o estado de “Ministério Estudantil do Governo”. “A UNE não pertence a nenhum partido ou segmento político. Nossa composição é ampla, vai desde setores do PSDB até o PSOL. Já questionamos o regime econômico do governo federal. Não é porque reconhecemos avanços na atual gestão que deixamos de criticá-la”, finaliza.

Texto: Caio Venâncio (3º semestre)
Fotos: Caroline Ferraz (4º semestre) e Fábio Bardella/UNE

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