Uso de bicicleta em metrópoles exige hábitos de segurança

A utilização da bicicleta como meio de locomoção no país ainda conta com poucos adeptos, em comparação com países como Holanda e Inglaterra, por exemplo, nos quais a bicicleta é um dos principais veículos nas ruas. Apesar disso, cada vez mais pessoas começam a acreditar que a bicicleta é, numa comparação entre todos os meios de transporte, o que oferece mais vantagens. “Hoje eu vejo como é incrível como muita coisa muda quando tu começas a pedalar pela cidade. Desde a forma como tu vês a cidade, porque tu começas a observar mais as pessoas, sentir mais os cheiros (do perfume do cara que passa por ti ao caminhão de lixo que te ultrapassa), até às mudanças no teu corpo mesmo, como a disposição para passar o dia, e a diminuição do estresse”, conta a estudante de física da UFRGS Andrea Bettanin, 22 anos.

A bicicleta já não pode ser comparada a skates, patins e afins. Por outro lado, pode ser comparada a carros, motocicletas e a outros veículos que, por lei, devem andar na via e jamais na calçada. Bicicletas, triciclos, handbikes (tipo de bicicleta pedalada com as mãos, em posição sentada ou deitada, adequada a pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida) e outras variações são todos considerados veículos, com direito de circulação pelas ruas e prioridade sobre os automotores.

Antônio Vigna é arquiteto e o responsável pela implantação do Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI) de Porto Alegre. Segundo ele, os demais veículos que ocupam a via devem dar prioridade a pedestres e ciclistas. “O veículo maior deve sempre obrigatoriamente proteger o menor. No futuro, o ciclista, que é maior que o pedestre, deverá dar a ele maior proteção. Isso é uma campanha cultural, mas é principalmente uma questão do Código de Trânsito Brasileiro”, explica Vigna.

Alguns dos motivos pelos quais as pessoas aderem à bicicleta no dia-a-dia são: a valorização da sustentabilidade, pois as bikes não emitem gases nocivos ao ambiente, não consomem petróleo e produzem muito menos sucata de metais, plásticos e borracha; a diminuição de problemas de trânsito, que atingem principalmente as grandes cidades; o favorecimento da saúde, pois pedalar é um exercício físico muito bom; e a economia no combustível e na manutenção, seguro e, claro, nos impostos. Andrea Bettanin explica sua decisão:

— Eu comecei a andar de bike primeiramente porque dirigir pra mim sempre foi extremamente estressante e entediante. Então, mesmo tendo um carro livre na garagem, várias vezes eu optava pelo bus. O problema é que o transporte público de Porto Alegre ficou cada vez mais precário e o trânsito cada vez mais demorado. Só o fato de eu ter que me transportar por aí já devorava meu tempo e minha paciência. Foi quando eu resolvi pegar a bike empoeirada da garagem e sair por aí. Apesar do cansaço e da falta de forma, vi que me transportar aqui na cidade poderia não ser tão ruim assim. Cada vez foi ficando melhor e, agora, pedalar é mais um motivo pra eu querer sair de casa.

Muitos ainda não sabem que a bicicleta já é considerada um meio de transporte, ou desconhecem as leis que abrangem a bike. Na confusão de um trânsito caótico numa cidade grande como Porto Alegre, carros, motocicletas, ônibus e, agora, bicicletas, misturam-se, causando, muitas vezes, discussões que poderiam ser evitadas. Gustavo Vettorato, 26 anos, afirma já ter tido problemas no trânsito. A ocasião mais memorável, segundo o músico, foi quando alguns policiais que dirigiam uma viatura passaram por ele, que andava na pista da direita em sua bicicleta, e gritaram “vai andar na calçada!”. “Eram pra ser os ‘exemplos’ e fizeram isso”, desabafa Vettorato.

Vigna explica essa tensão entre motorista e ciclista: “Motoristas são nosso universo cultural. Tem uns que não aceitam e não querem aceitar nunca, tem uns que aceitam, entendem e querem proteger os ciclistas e tem outros que estão até tentando se inserir nesse meio da bicicleta, alternando entre carro e bike.”

Os perigos nas ruas

Ainda são comuns os acidentes que atingem ciclistas. A verdade é que os ciclistas, quando expostos nas vias públicas, tornam-se alvo fácil, já que estão totalmente vulneráveis em cima de suas bicicletas. Por isso é tão importante usar capacete e outros apetrechos. Dessa forma, é possível manter-se um pouco mais seguro. “Até hoje, eu nunca tive problema com algum acidente no trânsito, só desentendimentos. Na minha opinião, os motoristas de Porto Alegre são extremamente desatentos. Todos os dias eu vejo ao menos uma pessoa falando ao celular na direção, por exemplo, o que dá uma insegurança para quem está de bicicleta, porque não tem como saber qual é o nível de atenção que a pessoa esta dando pra ti na rua, ou se ela toda está na pessoa do outro lado da linha”, desabafa Andrea.

Em contrapartida, Vigna afirma que o número de acidentes diminuiu desde o início de 2011, após o atentado na Rua José do Patrocínio, em Porto Alegre. Na ocasião, um motorista conduzindo um carro atropelou 20 ciclistas que participavam de uma manifestação em defesa do uso da bicicleta como meio de transporte. O atropelador fugiu e o carro foi encontrado abandonado. Desde então, de acordo com Vigna, os acidentes têm diminuído. “Esse episódio do atentado aos ciclistas chamou a atenção de todos. Enquanto vem aumentando o número de ciclistas, vem diminuindo o número de acidentes, embora ainda existam muitas ocorrências. Em 2011 teve queda significativa no número de acidentes e se manteve assim[a]. A partir dali as pessoas começaram a ver que tem gente nova no trânsito”, expõe.

Compartilhamento de bikes

No Brasil está sendo implantado o sistema de compartilhamento de bicicletas. Em Porto Alegre, o BikePOA é um projeto de sustentabilidade da Prefeitura de Porto Alegre, em parceria com o sistema de Bicicletas SAMBA, com quase um ano de operação. Depois de Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Sorocaba e outras cidades espalhadas pelo país aderirem a este sistema, mais duas capitais já estão com o projeto pronto em 2013: Recife e Goiânia. A ideia do compartilhamento é semelhante em todas as cidades. Em Porto Alegre, por exemplo, os usuários devem fazer um cadastro pelo site. O valor do passe mensal é de R$ 10 e o diário, de R$ 5, podendo-se utilizar o sistema durante todo o dia, das 6h às 22h, nas duas modalidades. Em todas as cidades que já aderiram ao projeto, as bicicletas estão espalhadas em pontos estratégicos.

Problemas e melhorias

A cultura do uso da bicicleta como meio de locomoção não está consolidada em nossa sociedade, ainda. E não são apenas os motoristas de carros, ônibus, motocicletas e caminhões que desconhecem as leis que abrangem os direitos dos ciclistas. A verdade é que muitos ciclistas também desconhecem seus direitos e deveres. “A maioria dos ciclistas desconhece as leis. Eu mesmo sou um exemplo disso. Até onde eu sabia apenas as luzes e buzina eram obrigatórias. Não sabia que capacete também era, apesar de sempre usar. Vejo muitos desrespeitando sim, mas não me apego muito, pois eu já fui um que desrespeitou muito”, conta Vettorato.

Andrea também acha que a maioria dos ciclistas hoje desconhece as leis para bicicletas. “Em países nos quais a bicicleta é mais predominante essas leis são cobradas. Como aqui isso não acontece, cabe a cada um decidir o que deve ou não usar, e no fim a gente vê ciclista andando na contramão, com fones de ouvido. Eu aconselho qualquer um que queira começar a pedalar a procurar em sites ou com pessoas algumas dicas de segurança, porque ajudam, mesmo”, sugere a estudante.

Em Porto Alegre, aos poucos vêm sendo construídas ciclofaixas e ciclovias para as bikes. “Nós temos que implantar uma estrutura pra trazer mais gente para o plano cicloviário. São 495 quilômetros, previstos em lei, de estrutura em Porto Alegre. Estamos no quilômetro 14. O prazo para construir todos os trechos previstos na lei vai depender de negociação com a comunidade, entre outros fatores”, explica Vigna.

Cuidados ao usar a bicicleta como veículo

Primeiramente, alguém que resolve integrar a bike ao seu estilo de vida e usá-la como meio de locomoção precisa compreender que deverá gastar com alguns apetrechos necessários para poder trafegar. De acordo com o artigo VI da Seção II do Código de Trânsito Brasileiro, que trata da segurança dos veículos, as bicicletas devem, obrigatoriamente, ser equipadas com “campainha, sinalização noturna dianteira, traseira, lateral e nos pedais, além de espelho retrovisor do lado esquerdo”.

Abaixo veja algumas dicas simples para que os ciclistas sejam mais cautelosos no trânsito consigo mesmos e com os outros:

– Use equipamentos de segurança: embora muita gente não goste, usar o capacete é importante. Além de proteger, ele garante mais visibilidade. Luvas são boas pedidas para proteger as mãos, no caso de uma queda e evita que elas fiquem ardendo no contato com o guidom.

– Tenha bom senso para usar a via: evite ficar muito encostado na guia da calçada, marque o seu espaço nas vias. Por lei, os carros devem manter a distância de 1,5 metros das bicicletas. Por isso, não se “esconda”, mas use sempre o bom senso. Não force uma situação contra um carro ou ônibus.

– A manutenção precisa ser regular: esteja com a bike em dia. Mantenha freio, pneus e corrente em boas condições, assim você não corre riscos de ficar “na mão”. Com o tempo, aprenda a se virar sozinho com alguns consertos – isso facilita a sua vida e dá mais independência. – Fuja do trânsito muito intenso: trace caminhos que fujam de grandes avenidas e ruas muito movimentadas. De carro é difícil perceber, mas os bairros oferecem rotas mais calmas, que são perfeitas para os ciclistas.

– Evite distrações: atenção a todos os movimentos do trânsito é básico. Portanto, usar fone de ouvido ou outro artifício que te tire sua atenção dos outros barulhos não é recomendado.

– Procure estar bem visível para os motoristas. Utilize luzes na sua bicicleta e evite usar roupas escuras. Reflexivos no capacete e na roupa são itens de extrema importância. “O ciclista tem que ser visto. Se eu sou motorista de um carro na rua, por exemplo, pra que eu possa proteger o ciclista eu preciso vê-lo. A visibilidade é fundamental. Qualquer movimento errado do ciclista na via, como má sinalização ou um movimento brusco, pode ser decisivo”, explica Vigna. “O ciclista tem que dar a chance para o motorista protegê-lo”, finaliza.

– Sinalize com os braços: use seu corpo para mostrar suas intenções. Não tenha medo de balançar o braço para sinalizar se você pretende virar uma rua ou não. É sua obrigação mostrar para o motorista o que você quer fazer. E pense como todos os motoristas deveriam pensar: de forma defensiva.

– Tenha paciência. Comece pedalando devagar e com o tempo seu corpo vai se acostumando e você poderá percorrer rotas maiores.

– Contramão não: ande sempre na mesma mão dos carros, nunca na contrária. Motoristas conseguem ver com mais atenção o que está no mesmo sentido.

 

O que a lei diz

Veja os trechos do Código de Trânsito Brasileiro relacionados às bicicletas e esteja por dentro dos direitos dos ciclistas:

 

Capítulo IV, dos pedestres e condutores de veículos não motorizados:

Passeio – parte da calçada ou da pista de rolamento, neste último caso, separada por pintura ou elemento físico separador, livre de interferências, destinada à circulação exclusiva de pedestres e, excepcionalmente, de ciclistas.

§ 1º – O ciclista desmontado empurrando a bicicleta equipara-se ao pedestre em direitos e deveres.

Seção II, da segurança dos veículos:

VI – para as bicicletas, a campainha, sinalização noturna dianteira, traseira, lateral e nos pedais, e espelho retrovisor do lado esquerdo.

Os artigos:

Art. 38 – Parágrafo único. Durante a manobra de mudança de direção, o condutor deverá ceder passagem aos pedestres e ciclistas, aos veículos que transitem em sentido contrário pela pista da via da qual vai sair, respeitadas as normas de preferência de passagem.

Art. 58 – Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletasdeverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.

Parágrafo único. A autoridade de trânsito com circunscrição sobre a via poderá autorizar a circulação de bicicletas no sentido contrário ao fluxo dos veículos automotores, desde que dotado o trecho com ciclofaixa.

Art. 59. Desde que autorizado e devidamente sinalizado pelo órgão ou entidade com circunscrição sobre a via, será permitida a circulação de bicicletas nos passeios.

Art. 170 – Dirigir ameaçando os pedestres que estejam atravessando a via pública, ou os demais veículos:

Infração – gravíssima;

Penalidade – multa e suspensão do direito de dirigir;

Medida administrativa – retenção do veículo e recolhimento do documento de habilitação.

Art. 201 – Deixar de guardar a distância lateral de um metro e cinqüenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta:

Infração – média;

Penalidade – multa.

Art. 255 – Conduzir bicicleta em passeios onde não seja permitida a circulação desta, ou de forma agressiva, em desacordo com o disposto no art. 59:

Infração – média;

Penalidade – multa;

Medida administrativa – remoção da bicicleta, mediante recibo para o pagamento da multa.

Texto: Bárbara Moreira (7º semestre)

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