Veículos testam novas formas de financiamento para o jornalismo

O jornal Folha de São Paulo passou a cobrar pelo acesso ao conteúdo digital em 21 de junho de 2012. Seguindo a tendência que se iniciou com o New York Times, em 2011, Zero Hora também aderiu ao modelo do paywall em agosto último. O mecanismo estabelece que a navegação é gratuita até 30 ou 40 notícias visualizadas e depois passa a cobrar pelo conteúdo. O modelo concilia o financiamento a partir da receita publicitária e do pagamento de assinantes, que é, atualmente, o sistema predominante nos jornais impressos. No entanto, existem outras formas de financiar a disponibilização de conteúdo para o público.

Essa questão foi abordados por Raul Reis, decano da Escola de Jornalismo e Comunicação da Florida International University, no seminário mídia.JOR, realizado pela revista Imprensa em setembro. Reis aponta que uma das tendências do jornalismo do futuro é a necessidade de empreendedorismo e de outros modelos de financiamento. O jornalismo colaborativo não se limita apenas ao uso de múltiplas fontes de informação, mas ao próprio financiamento de reportagens que interessam a determinado público. Um dos exemplos citados por Reis é o site americano Spot.us, que reúne projetos jornalísticos que dependem de crowdfunding (financiamento coletivo) para serem viabilizados. “Esse método será particularmente útil ao jornalismo independente e é viável mesmo com a hegemonia das grandes empresas de jornalismo”, acredita Reis.

Ainda uma prática recente, essa forma de custear matérias de interesse público não teve destaque no Brasil. Mas o financiamento coletivo já serviu para fortalecer o jornalismo independente, como no caso da versão impressa do Jornalismo B, que circula quinzenalmente de forma gratuita por Porto Alegre. O editor do Jornalismo B, Alexandre Haubrich, lançou o projeto no site Catarse e arrecadou R$ 13 mil para a produção da versão impressa. “Nossa liberdade editorial sempre foi total dentro da nossa proposta, que é seguir uma linha de esquerda, com determinados compromissos com as lutas levadas a cabo pelos grupos sociais historicamente oprimidos. O financiamento coletivo reafirma essa linha e a independência em relação a grupos empresariais, partidos políticos”, estabelece Haubrich. As assinaturas do Jornalismo B, muitas ligadas à ideologia expressa por seu editor, são sua principal base de sustentação financeira.

Essa forma de financiamento, além de servir diretamente ao interesse público e por ele ser selecionada, também representa uma maior liberdade editorial devido à desvinculação da publicidade. Nesse cenário, deixam de existir os conflitos recorrentes da relação entre o setor comercial e a redação de um jornal, com a independência de interesses institucionais ou financeiros e uma linha editorial isenta das demandas do mercado.

O jornal Metro, em contraposição, circula diariamente por Porto Alegre, assim como em outras 250 cidades pelo mundo. Também gratuito, o jornal depende unicamente da receita publicitária para a produção e distribuição do conteúdo. Carlos Scappini, diretor comercial da Metro International, também palestrou no seminário mídia.JOR. “Quando começou a se discutir na década de 90 o futuro do jornalismo impresso, havia uma parte da população muito grande que não tinha tempo ou dinheiro, ou até os dois, para consumir a informação. Então havia uma demanda por um veículo específico para essas pessoas”, declarou Scappini.

A primeira redação do Metro no país se estabeleceu em São Paulo, em 2007. No ano passado, as redações do Metro no Brasil se tornaram a maior operação do Metro Internacional, segundo Scappini. Para manter esse modelo de negócios de jornal impresso gratuito e ainda uma margem de lucro, o desafio empresarial é a construção constante de valor e relevância para o leitor, diretamente associada à credibilidade da publicação. Assim, a audiência se projeta como uma moeda tanto do jornalismo quanto da publicidade, já que o consumidor busca um conteúdo relevante e, por meio deste, a mídia anunciante atinge seu alvo. Os veículos financiados em modelos alternativos, que priorizam recursos independentes de anunciantes, têm a mesma preocupação com a credibilidade. Afinal, é a qualidade do conteúdo, e não o modo como este foi financiado, que prevalece na escolha do consumidor de informação.

Texto: Constance Laux (4º semestre)

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