Simon: “Votar Ulysses era bofetada nos militares”

Há exatos 30 anos, Tancredo Neves foi escolhido presidente do Brasil em uma eleição indireta no Congresso Nacional que marcava o fim da ditadura militar que assolava o país havia 21 anos. Em uma sessão histórica que durou mais de três horas e meia, Tancredo, do PMDB, fez 480 votos contra 180 do candidato da Arena, Paulo Maluf.

  • Por: Bruna Zanatta (5º semestre) | Foto: Divulgação | 15/01/2015 | 0

O senador Pedro Simon, do Rio Grande do Sul, que se despede de Brasília esta semana, participou da votação daquele dia 15 de janeiro de 1985 e conta como a oposição do regime deliberou entre Ulysses Guimarães, o líder do PMDB, e Tancredo Neves, conseguindo, assim, o que parecia ser impossível: encerrar a ditadura e eleger um presidente civil.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista que Simon concedeu por telefone ao Editorial J.

Qual foi o seu papel e o que significou a sua atuação na votação que elegeu Tancredo Neves?

Eu era secretário-geral do PMDB e tinha coordenado a campanha das Diretas-Já. Percorri o Brasil inteiro reunindo milhões pessoas que exigiam a aprovação da emenda constitucional do então deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT), que determinava que as eleições deveriam ser diretas e não mais realizadas pelo Colégio Eleitoral. Infelizmente a emenda foi derrotada, e, depois de muita discussão, a oposição, de modo especial o PMDB, decidiu ir ao Colégio, como dizia o senhor Tancredo, para destruir o colégio. A Arena, nas cinco vezes em que votou no Colégio, elegeu cinco generais, e ela estava indo para manter e consolidar a ditadura. Tancredo e nós, do PMDB, pretendíamos ir ao Colégio para destruí-lo e reestabelecer a democracia através da convocação de uma constituinte. Nós tivemos que fazer um grande esforço, porque a Arena tinha ampla maioria e nós tínhamos que dividi-la. Precisávamos daqueles que já não estivessem de acordo com a ditadura, cansados de promessas não cumpridas, e que estivessem sentindo o clamor das ruas pelo reestabelecimento da democracia. Então nós lançamos a candidatura de Tancredo, tendo que dar a vice-presidência para José Sarney, então presidente da Arena. Fomos ao Colégio no dia 15 de janeiro, Tancredo foi eleito e o desenrolar dessa história é de conhecimento de todos: posteriormente, o doutor Tancredo morreu, e quem o substituiu foi Sarney.

Passados 30 anos da eleição de Tancredo Neves, o que o senhor pode revelar sobre os bastidores daquele dia. Como foi o clima daquela votação que colocava um fim ao período de ditadura militar?

Nós vivíamos um período de uma longa ditadura em que forças muito poderosas criaram o golpe em 1964 e apoiaram o regime durante todo o tempo. A grande mídia, os grandes jornais, rádios e televisões, a Igreja, com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, o grande empresário, a burguesia, a classe média, todos estavam praticamente a favor da revolução e vinham mantendo ela ao longo do tempo. Nessas condições, a luta pelo fim da ditadura foi muito difícil. Foram vários os caminhos percorridos. Era uma anarquia generalizada dos que eram contra o regime, mas não sabiam o que fazer. Ninguém acreditava que aquela ditadura, com aqueles generais, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, poderia ser derrubada. Como é que a oposição, um grupo sem nenhum significado, sem nenhum poder, sem nenhuma autoridade, sem um minuto de rádio, sem um jornal, conseguiria bater contra um regime que poderia cassar, prender e torturar a qualquer momento? Nós começamos do nada. Começamos indo para a rua defendendo as Diretas-Já, e os jovens foram aos poucos, um a um, e o movimento foi aumentando. Esses jovens cresceram, a mocidade cresceu, e os militares se deram conta que não tinham mais condições de resistir. Seria uma matança enorme e uma revolta generalizada, já nessa altura com a população toda contrária a eles e à ditadura. Eles aceitaram. Apesar de não terem votado a emenda das eleições diretas, aceitaram a participação do Colégio Eleitoral. Eles não acreditavam que, indo para o Colégio Eleitoral, pudessem perder para uma oposição amplamente minoritária. Que algum deputado, mesmo com todos aqueles riscos de ser morto, cassado, preso, torturado, tivesse a coragem de votar na oposição. Mas a oposição foi crescendo tanto, a revolta da sociedade contra a ditadura era tão grande, que a vitória foi esmagadora. Tancredo foi vitorioso com imensa maioria. Contribuiu para isso a escolha do candidato da Arena, que concorreu com Paul Maluf, um candidato malquisto pelo povo.

Alguma lembrança, algum fato em especial que tenha lhe marcado naquele dia?

Uma das coisas que marcaram aquele dia, e que parece mentira, é que o PT, que estava ainda começando, reuniu o partido naquele dia e decidiu votar em branco. O PT não votou no doutor Tancredo. Os três deputados que votaram foram expulsos do partido. Parece mentira, mas se dependesse do PT, quem teria sido eleito naquele dia teria sido o Maluf, representando a Arena e a continuação do regime militar. O que seria um fato pesado e, pior ainda, a Arena poderia mistificar aquela eleição, e não sei quanto tempo mais a ditadura teria sido levada a diante, caso isso acontecesse. Foi uma irresponsabilidade grave, difícil. É uma chaga que o Partido dos Trabalhadores carrega até hoje, que, se dependesse deles, quem teria sido eleito presidente da República seria o doutor Maluf. Isso é algo que marca com dolorosa realidade todos que participaram daquela eleição. Airton Soares e Bete Mendes foram expulsos do PT, porque votaram em Tancredo Neves para presidente da República.

Como se deu a articulação entre Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, dois nomes fortes no partido?

Houve uma espécie de conivência permanente e um entendimento tácito. O nosso líder primeiro era o Ulysses, o nosso grande chefe, que coordenava e liderava toda a nossa caminhada. O Tancredo era mais intelectual, mais conciso, mas o comando do partido, a voz ativa das nossas ideias era o Ulysses. Ele era o mais duro, o mais radical, o que batia mais nos militares, que batia mais na ditadura. Então ficou mais ou menos decidido, quando nós fomos para a campanha das Diretas Já, quando fomos para as ruas, o nosso candidato à Presidência da República era Ulysses Guimarães. Se saísse a eleição, ele seria o nosso candidato. Com a não aprovação da emenda constitucional, houve um entendimento tácito: se prosseguíssemos com a candidatura do Ulysses, não iríamos adiante naquela ideia de alianças necessárias com o pessoal da Arena. Havia entre nós esse entendimento ainda anterior à eleição. Fosse direta, o nome seria Ulysses; se fosse através da votação do Colégio, o nome seria Tancredo. E foi o que aconteceu.

E se tivesse sido Ulysses Guimarães? O que poderia ter sido diferente?

Bom, primeiro, o próprio José Sarney, que era presidente da Arena e a equipe dele, não admitiriam votar no presidente do PMDB. Ulysses era muito duro com os generais, dirigia adjetivos grosseiros aos presidentes generais. Nós perderíamos inclusive o apoio de muitos daqueles que eram contra os militares, que desejavam o reestabelecimento da democracia. Votar em Tancredo pelo fim da ditadura era votar contra o fim do regime e pela volta da democracia. Votar em Ulysses era não só votar no fim da ditadura, mas dar uma verdadeira bofetada na cara dos militares. Tancredo era uma palavra moderada, mas com as mesmas ideias, o mesmo entendimento que o Ulysses, com uma manifestação mais serena e menos agressivo. Nós sabíamos, ou pelo menos imaginávamos na época, que se o candidato fosse Ulysses, dificilmente seria eleito.

É possível medir a importância daquela votação para a história do Brasil?

Aquele 15 de janeiro significava que a ditadura havia caído. Infelizmente, o doutor Tancredo morreu, foi uma tragédia. Assumiu o doutor Sarney. Eu era daqueles que defendiam que quem deveria assumir era o doutor Ulysses. A Constituição diz que o vice-presidente deve substituir o presidente em todos os impedimentos. Em qualquer situação, morte, viagem, férias, o vice assume o lugar de presidente. Naquela noite de sábado para o domingo, quando o Tancredo baixou no hospital para fazer uma cirurgia, que era absolutamente necessária, ali, nós nos reunimos para decidir quem assumiria. Para mim, quem deveria assumir era o presidente da Câmara dos Deputados, que era o doutor Ulysses. O ministro do Exército, general Leônidas Gonçalves, disse: “Não. Quem assume é o Sarney”. E, realmente, está na Constituição que compete ao vice assumir todas as vezes que o presidente tiver qualquer problema. Mas havia um problema: a Presidência da República estava vaga. O Tancredo não tinha assumido a presidência. Ele foi proclamado presidente, mas não assumido.

Para o senhor, o fim da ditadura é marcado pelo 15 de janeiro, com a eleição de Tancredo Neves, ou pelo 15 de março, com a posse de José Sarney?

O fim da Ditadura foi o 15 de janeiro com a votação no Congresso. No momento em que Paulo Maluf, candidato da Arena, foi derrotado, ali se consolidou o fim da ditadura. A partir dali, Tancredo montou o governo dele e percorreu o Brasil, andou pelo Exterior em vários países, preparou o governo para assumir e, mesmo que Sarney tenha assumido em seu lugar, ele levou a democracia consigo. Se não houvesse o dia 15 de janeiro, não haveria o 15 de março. Seria eleito o Maluf, e a ditadura continuaria, nós não teríamos votado uma nova constituinte. É imprevisível o que teria acontecido se nós não tivéssemos sido vitoriosos naquele dia 15 de janeiro.

O senhor disse, em entrevista recente, que esta era a página mais bonita da história do Brasil: a derrubada da ditadura e a volta da democracia. Por quê?

As nossas histórias de momentos épicos são muito raras. O Brasil foi descoberto por acaso. A nossa Independência foi feita de um jeitinho brasileiro. D. João VI veio para o Brasil fugindo de Napoleão Bonaparte, passou alguns anos por aqui comandando o Império Português diretamente do Rio de Janeiro e, quando voltou, deixou o D. Pedro I como regente, e alguns anos depois ele acabou proclamando a Independência e ficou por isso mesmo. Com a República, aconteceu algo semelhante. Todo mundo gostava do D. Pedro II, não tinham nada contra ele, mandaram ele pra França e proclamaram a República. Então o Brasil não tem uma história muito emocionante ao conduzir o seu povo. Essa ditadura foi dramática, milhões, milhões de jovens percorreram o Brasil, uniram-se, deram-se as mãos contra uma ditadura fascista, violenta, e ganharam força até transformarem aquela realidade. Essa é uma página épica, magnífica. Do lado do povo, não se viu armas, não se deu um tiro de revólver, não se matou ninguém. Foi o povo levando de uma maneira tranquila, pacífica e escrevendo, na minha opinião, a página mais bonita da história do Brasil.

Deixe um comentário