Adesivos do índio Xadalu são um protesto silencioso

De um lado, as aldeias indígenas. Do outro, entidades de assistência social. E no meio – no caminho que leva um ao outro – um protesto. É pelas ruas de Porto Alegre, entre a área central da cidade e a Zona Sul, que um curioso índio mora. Segundo seu criador, ele está ali, em cada poste, caixa de luz ou placas sinalizadoras, por um motivo bem maior que o imaginado por aqueles que lhe percebem. Estamos falando do Xadalu. Não entendeu? Busque na memória. Pode ser que você já tenha o visto. O personagem está afixado pelos principais bairros da Zona Sul em uma grande quantidade. Em apenas uma das esquinas da Avenida Cavalhada, por exemplo, chega-se a avistar 4 ou 5 adesivos com seu rosto.

Por trás do movimento, está um rapaz de 28 anos, serígrafo, designer gráfico e publicitário. Não contar quem ele é, é uma das exigências para se saber mais sobre o protesto. Sim. O Xadalu é um protesto e silencioso o que para o publicitário é o maior segredo. “Quando o movimento for descoberto pela população, vai se tornar algo muito mais vivo e presente na vida das pessoas do que se elas soubessem de tudo desde o começo”, conta ele que define o “tudo” como a ideologia pro trás de cada adesivo. Duvida que caiba tanto em uma imagem?

O Xadalu foi criado na infância do designer que, anos depois, amadurecida a ideia, transformou o projeto em algo real. Ele busca, através da presença visual do personagem, despertar primeiro a curiosidade para só depois conscientizar a população sobre um acontecimento lento que ele chama de destruição da cultura indígena. Sem nenhuma ligação com entidades ou com os indígenas porto-alegrenses, o Xadalu (que é não só o nome do personagem como também a forma como o idealizador do protesto se denomina) é alguém que, preocupado com a forma como os índios são vistos pela sociedade “branca”, fez aquilo que estava ao seu alcance. “Como eu já trabalho muito com a pregnância visual e comunicação em massa resolvi passar essa mensagem através de arte que é o que melhor eu sei fazer. Foi o jeito que eu encontrei de fazer alguma diferença”, conta ele.

Os milhares de indozinhos produzidos mensalmente são feitos em todos os momentos livres que o idealizador da ideia tem. Em uma gráfica improvisada nos fundos da sua casa, quando o cara não está reproduzindo a imagem em larga escala está pensando em novas customizações para dar sempre uma cara diferente ao personagem. Com uma paciência e uma fé raras, o criador conta que não se importa com o fato da população em geral não saber que aqueles adesivos significam tanto. Quando perguntado sobre o possível reconhecimento do Xadalu pelos indígenas da capital, o publicitário não se engana e sabe que a maioria não o reconhece, mas pra ele, essa ainda é a graça. “No momento certo vão saber e aí veremos a força do Xadalu”, aposta ele que acredita que o tempo é que vai trazer o resultado e a intensidade disso tudo.

Texto: Bárbara Souza (6º semestre)
Fotos: Douglas Roehrs (4º semestre)

1 comentário

  • Simplesmente muito bom . Falou sobre o movimento que se da de anos em silencio, tanto tempo que eu a ser pequena apenas achava legal os adesivos, mas não sabia o real motivo. Hoje em dia estou mais por dentro e sempre querendo me informar mais, afinal cultura é conhecimento. E basta apenas se dedicar para ver resultados, Parabéns pela reportagem,
    e parabéns ao amigo xadalu, uma pessoa muito humilde e sabia.

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