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reflita

MISTICISMO • 31 de outubro de 2016
Bruxas e bruxos revivem no imaginário popular principalmente durante o Halloween, celebrado hoje em diversas partes do mundo. Mas e quanto aos outros 364 dias?
Texto: Igor Dreher (2º sem.) & Mia Sodré (2º sem.)
Foto: Mia Sodré (2º sem.)

Wicca foto

No fundo de uma casa antiga, pode-se ouvir o som de música celta e de passos apressados. Num sótão apertado, centenas de potes, esculturas de felinos, crânios de bovinos, de corvos e outros animais. Cheiro forte de incenso e chamas, que iluminam um grande mastro coberto por fitas coloridas. O calor é quase palpável. Nesse local, ocorre um Sabbat onde, em meio a risadas, dançam diversas criaturas vestidas com máscaras, chifres e roupas escuras.

O cenário é quase o de um filme de terror. As vozes, entretanto, não cultuam a algo maligno, mas sim cantam o amor e a gratidão em meio a um ritual ancestral. Perseguidas na Idade Média, queimadas em fogueiras em praças públicas e com mitos macabros acerca de suas práticas, as bruxas continuam seus rituais em plena Porto Alegre do século 21. Reunidas em covens ou seguindo sozinhas, elas resistem em meio a um mundo que ora as demoniza, ora descrê de magia.

Após séculos de repressão, elas não precisam mais se esconder para cultuarem a Deusa Tríplice e o Deus Cornífero. Porém, o preconceito ainda existe. “Eu já tive senhoras da igreja que chegaram aqui e quando a serpente se ergueu, elas se ajoelharam, fizeram o sinal da cruz e disseram ‘Filha, isso é o espírito Santo.’  Eu falei, ‘senhora, dê o nome que quiser. Aqui é Gaia’ ”, contou Wakanda Layuth, fundadora e Mestre dos Imortais da Terra, coven de bruxaria contemporânea de Porto Alegre. “ Já me senti muito rechaçada pelo preconceito. Hoje eu me sinto amada. Ainda existem alguns vizinhos receosos, mas o diálogo fez com que nós quebrássemos isso” acrescenta.

A bruxa solitária Paula Chidiac, reflete sobre a origem do aversão. “O preconceito vem porque somos criados em uma sociedade que acredita em bem e mal, pecado e perdão. Além disso, o nome bruxa carrega uma conotação ruim, e quando descobrem que os narizes e chapéus pontudos existem como pessoas normais há um choque de realidade. A ignorância é a raiz do preconceito, e a generalização é o tronco da árvore”, explica. A praticante acrescenta que a magia é neutra, o que significa que ela pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal, e não se pode dizer que seus praticantes fazem uma coisa ou outra.

A imagem naturalista da bruxaria, deteriorada pelas ações de séculos da Inquisição, que perseguiu diversas mulheres praticantes, nunca possuiu prestígio do público leigo. “Nossa maior divulgação é boca a boca. Também possuímos um site e uma página no Facebook. Mas a procura é muito particular, geralmente realizada por indicação de amigos, amantes, alguém que já é do culto” conta a Mestre da Tradição.

Porém, se engana quem pensa que a magia é território exclusivamente feminino. Homens também fazem parte da bruxaria, como disse Wakanda: “A bruxaria e a Wicca acreditam que a restauração do sistema sagrado e religioso, da revolução humana, é a dualidade sagrada, o masculino e o feminino caminhando juntos rumo ao equilíbrio do planeta”.

Chidiac ressalta que:  “Em um coven, o Alto Sacerdote e a Alta Sacerdotisa teriam as mesmas funções, cada um representando o Deus e a Deusa respectivamente”, complementou Paula, que, apesar de considerar a religião Wicca como um espaço de proteção feminina, não atribui a ela um caráter militante: “Penso que a considerar como um grito de rebeldia é reducionista a ponto de ignorar a origem e a diversidade dentro da religião, e se ater à ‘seção’ bruxas feministas de uma crença que é tão vasta”.

Hoje, dia 31 de outubro, é comemorado o Dia das Bruxas, um festival sagrado de origem celta, conhecido no meio ocultista como Beltane, em que se celebra a união cósmica do Deus e da Deusa. Na noite de domingo, Wakanda conduziu a cerimônia no sótão do coven, celebrando ritos mais antigos do que a tradição cristã, que incorporou a prática em seu calendário. Contudo, com o passar do tempo, o sentido original do culto celta foi diluído em uma prática comercial. Atualmente, tudo se resume a pedir doces, fantasiar-se e fomentar o medo assistindo a filmes e assustando os outros. A raíz dos rituais cultuava os mortos de maneira muito mais jubilosa e habitual.

Wakanda reuniu os membros em torno do grande mastro, onde cada um amarrou uma fita colorida com seus desejos inscritos. Mais incensos foram acesos, a chama do caldeirão ao centro do cômodo abafado dançou por entre os membros do culto. Todas as bruxas e magos repetidamente clamavam aos seus deuses por proteção. Travestidos com galhos e flores na cabeça, viam-se homens e mulheres de todas as cores, etnias e orientação sexual. Mas naquele momento, todos os bruxos eram iguais em se tratando de fé, humanidade e afeto. A Mestre anuncia uma grande orgia, e ao sinal dela, todos entrelaçam seus desejos com risos e leveza.

Nas palavras de Paula Chidiac: “Acima de tudo bruxaria é liberdade de ação, de pensamento, não uma prática condenável.”

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