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reflita

PERIFERIA • 19 de outubro de 2017
Após um ano da eleição municipal, o Editorial J foi ouvir a voz da periferia sobre a gestão atual
Texto: Guilherme Milman (2° semestre)
Foto: Pedro Spieker (2° semestre)
Porta-vozes da comunidade, como seu Juarez, procuram se relacionar diretamente com a prefeitura

Porta-vozes da comunidade, como seu Juarez, procuram se relacionar diretamente com a prefeitura

Há um ano, Nelson Marchezan Jr. se consolidava no topo das pesquisas de voto no segundo turno, garantindo o favoritismo para se tornar o novo prefeito de Porto Alegre.  Sua vitória recebeu a colaboração dos cidadãos das periferias, que apostaram nas mudanças de uma nova gestão. Doze meses depois de eleito, moradores de comunidades espalhadas por toda a cidade sentem a falta do diálogo e da mobilização prometidos.

Apesar de sair vitorioso em todas as regiões da capital, a adesão ao candidato do PSDB por parte da periferia porto-alegrense nunca se tornou significativa. As ativistas Nelsi Girardi e Carmen Lehn, moradoras da Vila dos Industriários, na zona norte da capital, revelam nunca ter acreditado no atual prefeito e seguem insatisfeitas com a atual gestão. “Ele não tem muito contato com a comunidade, não aceita outras opiniões e conhece pouco a cidade” conta Carmen. Os moradores da vila se juntam duas vezes por semana, no parque Alim Pedro, principal da região, para praticar atividades físicas e discutir questões comunitárias. A prática de esportes é de vital importância para a convivência dos moradores do bairro. O fim do projeto que visava a extinção da Secretaria de Esporte e Lazer foi uma das principais reivindicações da comunidade. “Não conseguiram extinguir, mas fecharam a secretaria, que possuía um orçamento de 0,37% da verba pública, e juntaram com a FASC (Fundação de Assistência Social e Cidadania)”, explica Nelsi. Este foi somente um dos problemas apontados pelas ativistas, que enfatizaram a queda de rendimento da cidade em relação à gestão anterior.

A situação negativa também é apontada pelo coordenador do Conselho Popular da Lomba do Pinheiro, na zona leste, Francisco Geovani de Souza. Líder da comunidade há 27 anos, Geovani avalia o período atual como o pior de Porto Alegre durante seus anos de militância. “O Marchezan é diferente dos outros porque ele não escuta”, avalia o coordenador que citou exemplos de problemas atuais na região, como o sistema de transporte, que ia até o centro histórico e foi encurtado até a avenida Antônio de Carvalho, também na zona leste.

Para se aproximar das periferias, o governo municipal realiza o projeto “Prefeitura nos Bairros”, onde o prefeito comparece a diferentes locais da cidade para promover eventos e realizar ações para a comunidade. De acordo com dados da prefeitura, o projeto, em oito edições já realizadas, contabilizou 7.104 atendimentos em saúde. Entretanto, para os líderes comunitários, Marchezan não se mostra presente nas regiões periféricas. “O conselho popular convocou uma reunião com o prefeito para tratar da questão do transporte, e ele chamou dois assessores que não sabiam o que estavam fazendo lá” comentou Geovani. O coordenador da Lomba do Pinheiro comentou que a sua presença na comunidade não possui caráter proativo. Na Vila dos Industriários, o relato foi semelhante:  “Quando a prefeitura veio aqui, imaginamos que falariam sobre coisas do bairro, mas vieram para fazer palanque político. Havia trazido uma lista de coisas que queria dar para ele (prefeito), mas a lista estava em casa, não pude entregar” revela uma das moradoras da zona norte.

Geovani já tem mais de duas décadas como militante nas causas do bairro Lomba do Pinheiro

Geovani já tem mais de duas décadas como militante nas causas do bairro Lomba do Pinheiro

O orçamento participativo, principal fonte de renda para a estruturação das comunidades, também tem sido origem de preocupação para os moradores porto-alegrenses. “O mandato dos conselheiros do orçamento participativo é de um ano, e é para ser renovado nas plenárias que não ocorreram em 2017”, ressalta Geovani. O presidente da União de Vilas da Grande Cruzeiro e diretor da Associação de Moradores da Vila Santa Anita, no bairro Nonoai, Juarez Souza de Oliveira, é um destes conselheiros, e destaca a dificuldade da comunicação com os secretários “A gestão atual está engessada. Hoje não se tem acesso aos secretários, nem como conselheiro, muito menos como líder comunitário”.

Os cortes de gastos que vêm culminando na impopularidade da atual gestão é justificada pelo prefeito, de acordo com os líderes comunitários, por uma suposta falência do estado. “Perguntei pra ele: ‘A sua atual equipe, que veio a concorrer, não examinou a situação? Ou já sabia e veio com uma varinha de condão que não deu certo?’ ”, conta Juarez, a respeito de seu encontro com Marchezan como membro do Conselho do Orçamento Participativo (COP), que se junta mensalmente para debater questões da cidade.

Apesar da insatisfação, Juarez diz não se considerar opositor do prefeito, reconhece a boa intenção da atual administração, e diz que o erro está em querer acelerar as mudanças. “Tem coisas que a gente não pode fazer momentaneamente, tem que ser aos poucos. Não pode um prefeito chegar e já querer mudar tudo em uma cidade” explica o diretor, que utiliza a sua comunidade como um exemplo positivo de gestão.

Até agora, um dos poucos projetos que tem ajudado as periferias, apontado pelo conselheiro, é a reforma do marco regulatório que aumenta o credenciamento de creches. Essa proposta, entretanto, pertence ao planejamento da gestão de José Fortunati. Para Juarez, o governo anterior estava disposto a negociar com as comunidades, com os secretários mais disponíveis e flexíveis. A estrutura, entretanto, não sofreu grandes alterações. “São as mesmas pessoas da outra gestão, mas sem a mesma mobilidade”, declarou.

Com ainda três anos pela frente, o governo Marchezan tem o desafio de recuperar a confiança. Se há um ano atrás o sentimento era de expectativa, agora, os líderes comunitários expressam preocupação. “Ele não possui diálogo nem com os membros do seu próprio governo”, protesta Geovani, que considera o momento atual como histórico para a capital. Juarez torce para que ocorram melhoras, mas acredita que o atual governo tem potencial para se tornar a pior administração de Porto Alegre.  “Ele ( Marchezan) me disse que não sabia que Porto Alegre estava um caos. Perguntei pra ele: ‘por que tu não sai?’ Se ele acha que não vai dar conta, tem todo o direito de dizer que não quer gerenciar”.

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