PUCRS - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

reflita

6 de janeiro de 2015

“Deixo de ser candidato, não de fazer política” – faz questão de enfatizar o deputado estadual Raul Pont, prestes a encerrar um ciclo de três mandatos seguidos na Assembleia Legislativa gaúcha, mas continuando na militância. Ele decidiu não concorrer mais nas eleições de 2014, por isso deixa a casa em 31 de janeiro. Aos 70 anos, acredita que já contribuiu como pôde dentro de cada cargo exercido pelo PT e vê como oportuno o momento de saída.

Raul Pont toma posse na Assembleia Legislativa em 1986 (Arquivo pessoal)

São quase 50 anos de uma militância impulsionada pelo mesmo ideário político. Nas paredes de seu gabinete, estão as imagens dessa caminhada, como fotografias do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ex-governador Olívio Dutra. Tudo se iniciou em meados da década de 1960, com sua vinda para Porto Alegre. Natural de Uruguaiana, Pont veio no ano de 1963 para a capital gaúcha, quando passou no vestibular para História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), então chamada apenas de Universidade do Rio Grande do Sul. Depois de um ano, em 1964, ocorreu o golpe militar, o que despertou a mobilização política em Pont. Ele e seus colegas logo sentiram as consequências da mudança de regime político, a ditadura. As baixas de professores e alunos vistos como subversivos pelas forças militares foram um dos fatores para que os estudantes começassem a se manifestar contra a repressão política que crescia.

Pont sofreu os anos de chumbo da ditadura militar (1964-1985). Enquanto participava de um congresso estudantil ocorrido no início da década de 1970 em São Paulo, acabou preso e torturado. Sem provas de que estivesse envolvido com subversão, foi liberado. Na sua volta a Porto Alegre, trabalhou como professor de cursinho pré-vestibular para poder se sustentar. Recebeu ajuda de João Verle, parceiro político, que foi vereador, vice-prefeito e prefeito da Capital pelo PT. O amigo o indicou para lecionar na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), onde ficou de 1977 a 1991. Passou a participar diretamente das atividades do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS). Verle é direto ao definir Pont como alguém “com uma posição muito firme, clara, um socialista, que busca sempre tratar os problemas voltando os olhos para a sociedade”.

Raul Pont participa de passeata pelas eleições diretas nos anos 1980, em Porto Alegre (Arquivo pessoal)

Participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, numa época de redemocratização lenta e ainda controlada pelo poderio dos militares no governo. Ele e outros militantes de esquerda, mais sindicalistas de todo o Brasil, se uniram por um ideal. “A minha geração, dos anos 60, que viveu o golpe militar, não encontrou partidos prontos, organizados. A gente saía de uma clandestinidade e tinha que ver o porquê do golpe e suas origens. Chegamos à conclusão de que o Partido Comunista não era o que queríamos. O que tínhamos era a ideia de montar um partido ideal e igual para todos”, explica Pont, que deixava a ação em sindicatos para a formação de um partido consistente e popular. Fez história. Integrou a primeira bancada de deputados estaduais eleita, pelo PT, em 1986. A partir daí, elegeu-se deputado federal em 1990, vice-prefeito em 1992 e prefeito em 1996. Voltou à Assembleia nas eleições de 2002, sendo reeleito em 2006 e por último em 2010.

Em meio às agitações próprias da política, tinha outra preocupação, até mais importante: sua família. Clarissa, a filha mais velha, de 32 anos, conta que Pont sempre foi e é um pai próximo, mesmo com tantos compromissos. “Sentia muita falta quando ele foi prefeito e vice-prefeito. Ele sempre foi bastante presente, mas era difícil passar muito tempo junto”, lembra. A imagem dele, para a filha, é de inspiração e motivação.

Clarissa recorda um episódio ocorrido em meados dos anos 1990, sobre a relação dela e sua irmã mais nova, Silvia, hoje com 25 anos, com o pai, quando ele era prefeito de Porto Alegre. Numa passeata do PT, no Parque da Redenção, havia uma multidão. A caçula puxou Pont, o chamando de pai, então uma menina olhou para ela e falou: “Esse cara não é teu pai, é o prefeito de Porto Alegre”.

Pont vive com sua esposa, Liliane, uma nova fase. Próximo à conclusão do seu último mandato como deputado, o nascimento de Sebastião, filho de Clarissa com o fotógrafo e professor Eduardo Seidl, agitou a família, há cerca de dois anos. O neto é motivo de admiração para o político, que se orgulha ao falar do menino.

Como administrador de Porto Alegre, Pont aprimorou o processo de participação popular, dando seguimento às marcas petistas, como o Orçamento Participativo (OP). Defensor do direito dos trabalhadores e dos cidadãos em geral, teve seu último embate como parlamentar ao final de 2014, contra a lei que determinava aposentadoria especial para deputados estaduais. Em votação na Assembleia Legislativa, o projeto foi aprovado. Liderada por Pont, a bancada do PT foi a única a votar contra. “Sou aposentado pelo INSS e tenho muito orgulho por isso”, enfatiza Pont, sobre a futilidade de tal pagamento.

Ele garante que não deixará a militância de lado quando se aposentar da vida pública. Ubiratan de Souza, seu chefe de gabinete há 12 anos, ressalta as virtudes na hora de trabalho e, valendo-se de uma frase de Bertolt Brecht, define Pont: “Aqueles que lutam algum tempo são bons, aqueles que lutam durante muito tempo são muito bons, mas aqueles que lutam toda a vida são os imprescindíveis. O Raul é essa figura do revolucionário imprescindível”.

O deputado encerra seu último mandato eletivo mantendo a integridade que o caracterizou. Nunca teve seu nome envolvido em qualquer denúncia de corrupção.

Texto: Pedro Silva (4º semestre)

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